quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

SEMEAR O FUTURO


 

 

                Porque as 4ªs JORNADAS LITERÁRIAS DE FAFE se aproximam (19 a 28 de abril), sinto necessidade de partilhar alguns excertos da entrevista que dei ao jornal “Notícias de Fafe”, de 5 de abril de 2012, centrada nas Jornadas Literárias de Fafe. Será que o passado tem razão?

                                                                              **

CA- Em primeiro lugar, quero agradecer o convite simpático que o “Notícias de Fafe” me fez para esta entrevista. É uma honra poder colaborar com este jovem e promissor semanário fafense. Conheço alguns dos seus excelentes profissionais, o que me leva a acreditar que Fafe está mais rico, pois a cultura e as nossas tradições terão mais um espaço para se evidenciar.

 

NF - Em poucas palavras como descreve a cultura fafense da primeira década do novo século?

 

CA – Nasci numa aldeia de Trás-os-Montes e, desde essa altura, tenho percorrido muitas terras, conhecido muita gente e contactado com muitas formas de fazer, sentir e promover a cultura.

A vossa questão pede-me para descrever a cultura fafense na primeira década deste século. Ora bem, em primeiro lugar quero dizer-vos que a cultura fafense tem seguido um caminho positivo. Os responsáveis pelo seu incremento são pessoas de bem e que eu estimo e admiro. São pessoas que têm uma forte sensibilidade cultural e que sabem o que fazem. Claro que nem tudo tem sido perfeito, mas isso é normal acontecer, pois os homens são detentores de falhas e pormenores a melhorar. Fafe tem uma forte e diversificada vivência cultural, não podemos esquecer que os nossos jardins, para além de flores, estão salpicados de muita poesia fafense, o que me satisfaz muito. O apoio a autores fafenses, nas várias vertentes, também tem sido uma excelente ideia que deve continuar. Se calhar o que estava a faltar era uma cultura um pouco diferente, uma cultura que batesse às portas das pessoas, que é o que está a fazer-se sentir com as Jornadas Literárias.

 

NF - Como surgiu a ideia das Jornadas Literárias (JL)?

 

CA – A vossa questão remete-me não só para o ano de 2010, altura das 1.ªs Jornadas Literárias de Fafe, como também para o tempo em que organizava eventos culturais na minha pequena aldeia, ainda como estudante, assim como para o tempo em que nas colónias de férias, durante as pausas escolares, onde gostava de envolver todas as crianças e monitores em torno de uma ideia. Graças a Deus que sempre consegui organizar momentos culturais de que me orgulho. E o mais interessante é que as pessoas também se reviam neles.

Quando em 2010, e em conversa com os meus alunos de Literatura Portuguesa, lhe confidenciei de que seria interessante assumir uma atitude mais intensa e ativa perante a cultura e os escritores de Fafe, eles foram os primeiros a incentivar-me e a colocarem-se do meu lado. A partir daí, um rio que começou a nascer dentro de mim, nunca mais parou. Conversei com alguns amigos que de imediato de juntaram a mim, assim como a Diretora da Escola Secundária, Dr.ª Natália Correia, que sempre me apoiou nestas iniciativas. A minha amizade com o Dr. Coimbra, um homem de muito valor e que muito estimo, permitiu ligar-me à Câmara Municipal, o que veio a consolidar o projeto das Jornadas e a lançá-lo no futuro.

 

NF - Que significado tem para si este evento cultural?

 

CA - Como devem imaginar, este evento cultural tem, para mim, um valor incalculável. Às vezes, as pessoas admiram-se com o afinco que eu dedico a esta iniciativa. Mas é a minha forma de embalar um filho de tenra idade que ainda tem um longo caminho à sua frente para percorrer, continuamente envolto em dificuldades e indecisões. Não admira por isso que quando alguma coisa não corra pelo melhor, eu sofra e me preocupe. As Jornadas literárias não são minhas. São de Fafe. Mas têm nas suas veias o meu sangue. Olho para esta forma de fazer cultura como uma mais-valia para toda uma região e para todo um povo que não quer esquecer as suas raízes e a sua alma.

 

NF -Considera que as JL abriram novos horizontes para a cultura fafense?

 

CA - Eu sei que às vezes é mais fácil tratar da cultura através do telefone, pois há organismos específicos que permitem organizar eventos quase sem falhas. Há especialistas para isto e para aquilo. Basta ligar e já está. As Jornadas Literárias são diferentes. Tudo assenta no amadorismo, no gosto que se coloca nas coisas, na boa vontade das pessoas, na verdade dos momentos, na cultura que mora dentro de nós. Esta forma de tocar as pessoas faz com que novos horizontes se abram e que esta construção cultural não tenha um limite definido. Há sempre qualquer coisa a acrescentar e a limar.

Pessoalmente, penso que o que está a acontecer em Fafe é uma espécie de necessidade de sobrevivência. O nosso povo, as nossas instituições e associações têm os olhos postos nas Jornadas Literárias e veem nelas uma forma de mostrarem o que de bom sabem fazer, assim como uma espécie de janela que os ajuda a justificar a sua existência. Eu acho que Fafe ainda vai ter muitas surpresas agradáveis, porque há muito querer na nossa gente e gosto em mostrar o que de melhor têm.

 

NF - As JL arrastam multidões que lotaram o Multiusos e encheram o centro da cidade. Existe segredo para esta mobilização?

CA - O segredo está no espírito das jornadas que mora bem no fundo das pessoas. As Jornadas Literárias cheiram a verdade, a tradições, a povo, a terra, a ar puro, a pedras, a alma, a coração, a fé, a ribeiros, a partilha, a bairrismo, a esperança, a broa e a sobrevivência. O segredo das Jornadas está, igualmente, no poder de união que se espalhou com o vento e ao ritmo dos sons da verdadeira música minhota. O segredo das Jornadas está no facto de as pessoas as sentirem suas.

 

NF - Como se consegue fazer tanto com tão pouco?

 

CA - As terras de Fafe são ricas em cultura, história e folclore. As várias escolas que existem no concelho estão repletas de excelentes professores e de alunos com muito engenho. As associações, as instituições, as Juntas de freguesia, o Município e outros organismos não se importam de dar tudo o que têm. A minha demanda e a dos meus colegas de ofício pelas nossas freguesias permitiu-nos conhecer pessoas de excelência, o que ajudou em muito a causa das Jornadas.

A ligação de Fafe ao Brasil é uma mina a explorar. Para além disto tudo e muito mais, há certas pessoas que trabalharam comigo que são o que de melhor existe em Portugal (…). Perante estes ingredientes todos, tudo é mais fácil de confecionar.

Quando se têm os melhores materiais, a sorte por companheira e um tempo favorável, consegue-se construir a casa mais bela. Mas atenção, tudo tem acontecido, porque a dignidade e a amizade nunca faltou nas atitudes dos vários agentes.

 

NF - O Professou “ofusca” figuras da cultura fafense. Sente-se um homem invejado?

 

CA - Eu não sei se ofusco certas pessoas ou se crio inveja em alguém. Se isso acontece o mal não está na minha pessoa, está naqueles que não sabem ver a verdadeira cor das flores. Eu defino-me como uma pessoa simples, incompleta, irrequieta, incauto, sonhador, crente e amante do povo. Sou apenas um homem que gosta do que faz e nem sempre acredita no que diz. Sou apenas um homem que gosta de ouvir as pessoas, sentir os sentimentos e que ainda tem muito para aprender.

 

NF - O Município de Fafe tem, seguramente, reconhecido o seu trabalho, (…)?

 

CA - O Município de Fafe sempre esteve com as Jornadas Literárias. Sem a sua forte colaboração e apoio, este grande evento cultural não chegaria ao que é hoje. Várias vezes reconheceram o meu trabalho, assim como o dos amigos que comigo têm governado esta caravela de cultura (…).

Digo de uma forma bem clara que tem sido uma honra ter trabalhado com o Município de Fafe, e que nunca esquecerei os gestos do Sr. Presidente da Câmara e dos Senhores Vereadores da Cultura e Educação, de se terem trajado a rigor, terem subido ao palco e terem calcorreado as ruas de Fafe, dando vivas à nossa história e à nossa cultura, nestas últimas Jornadas. Estas atitudes dizem-me muito e mostram que os nossos políticos também são feitos de sentimentos.

(…) Eu tenho vontade própria, gosto de fazer o que a minha determinação me diz e, aconteça o que acontecer, e enquanto Deus mo permitir, continuarei a trabalhar em prol da cultura e de Fafe, seja de que forma for.

No meio de toda a vida que levo, só tenho pena de não ter mais tempo e as condições necessárias para trabalhar, com a dignidade que lhe é devida, a cultura que se espraia pelas nossas ruas, praças, aldeias e lugares.

 (…)

NF - A fasquia das JL está muito elevada. Receia não ter condições para manter o nível do evento?

 

CA- (…) Eu disse no início desta entrevista que as Jornadas são apenas mais um filho que brotou do meu sémen de sonhador. Como era de esperar, muitos sonos ficaram por terminar, e algumas circunstâncias ainda não estão totalmente limadas, pois há certos rigores de percurso que me querem esconder aquilo que para mim não devia ser problema.

As próximas Jornadas têm quase todas as condições para serem maiores e melhores. O problema é a fasquia a que se chegou e as limitações que me perseguem. Quem estiver ao leme das 4.ªs Jornadas Literárias de Fafe tem de ter tempo para sonhar, criar, orientar, promover, escolher, limar, descansar, dormir, praticar desporto, ganhar o pão de cada dia, ouvir, sorrir, olhar, escolher, calcorrear caminhos, incentivar, representar, cheirar o jasmim. Será isto possível?

Por muito amor que se tenha a uma causa, às vezes temos de esfarrapar o que mais queremos, olhar o céu, encolher as mãos e chorar. Mas Deus é grande e o vento pode soprar de maré. Todos sabemos que ninguém é insubstituível, por isso os rostos podem mudar, desde que o motivo que semeou as Jornadas Literárias permaneça o mesmo. O importante é querer e trabalhar em equipa.

 

NF - Acredita que as JL de 2013 possam surpreender ainda mais?

CA - O absoluto está para além das estrelas e tudo pode acontecer. Se todas as condições forem criadas, as Jornadas Literárias de Fafe poderão tornar-se numa referência mais global, mesmo que a nossa imprensa nacional não dê por isso. O Brasil pode voltar a ser um grande porto cultural a redescobrir, assim como o voltar a beber nas nascentes que continuam frescas e puras bem no centro do nosso Minho. As recriações históricas podem-nos levar a eras diversas, pois as terras de Montelongo assentam em estruturas com muita dimensão e origens.

Fafe dos Brasileiros tem todas condições para ir muito longe. A rota dos brasileiros por todo o concelho pode ser uma realidade e a sua orientação de caminho de memórias será apenas mais uma folha desta frutífera árvore visionária. Para além do que acabei de dizer, (…) a  ligação à Associação Empresarial de Fafe é um ponto a relevar. Se as vertentes económica e turística encarnarem as Jornadas Literárias, Fafe terá muito a ganhar. Não é isso que acontece em Óbidos Medieval ou em Santa Maria da Feira?

Outro trilho a desenvolver está na gastronomia fafense. Por que não uma confraria da Vitela assada à moda de Fafe?

O juntar datas de renome para Fafe, pinceladas de ar fresco e de literatura é outra maneira útil de construir o futuro. É imprescindível redefinir eventos e mostrar resultados aos fafenses. O dia 18 de março de 2012 foi apenas uma pequena parte do que se pode construir nas terras de Fafe.

Na nossa cidade temos uma Escola de Bailado, vários grupos de teatro e uma Escola de Música. Era importante que se dessem a estas duas instituições condições para que elas fizessem grandes produções no âmbito das Jornadas. É possível fazer tanta coisa… O importante é fazer tudo com carinho, verdade, mais ordenado e prescindir de vaidades de gabinete e de fachada.

 

NF - Há outros projetos pessoais que gostaria de concretizar?

 

CA - Gostaria de continuar a escrever livros para crianças, poesia e um ou outro romance. Gostaria de um dia produzir um musical que tivesse Fafe no seu centro. Gostaria que o amor pela minha família fosse eterno. Gostaria que o meu trabalho ajudasse os jovens a olhar mais além. Gostaria de ajudar as nossas aldeias a incrementarem o turismo cultural. Gostaria que o percurso pedestre literário «Caminhos de Camilo» fosse o que eu quero que ele seja. Gostaria de ter as condições necessárias para promover as tradições das terras que moram no meu peito. Gostaria que os meus sonhos nunca me largassem. Gostaria de… Gostaria de continuar a ser quase feliz. Obrigado

 

 
Entrevista ao jornal Notícias de Fafe de 5 de abril de 2012

Sem comentários:

Enviar um comentário