quinta-feira, 15 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
A gaivota a quem quiseram roubar o mar…
«Era uma vez uma gaivota que morava num
velho rochedo, encostado a um mar sem fim. Todas as manhãs, a ave levantava voo
e seguia, irrequieta, numa e noutra direcção, mas sempre a roçar a cor do
oceano. A sua ligeireza advinha-lhe da amizade que tinha com os ventos norte e
leste. A sua beleza foi-lhe oferecida pela maresia. A sua determinação era
arrancada, todas as noites, da força das ondas e o seu fado foi-lhe desenhado
pelas estrelas. Nunca em toda a sua vida de gaivota deixara de cumprir as suas
rotas e desejos, mesmo que se lhe deparassem pela frente tempestades ou sois
abrasadores. Mas, numa noite medonha de novembro, o seu destino quase mudou.
Das profundezas
do nada, um nevoeiro muito cerrado ergueu-se, aterrorizador, e envolveu o pobre
animal, prendendo o seu fascinante voar. Durante longas horas, a gaivota se
debateu com o seu terrível inimigo de cinzento vestido, mais insensível do que
as pedras, e nada. A luz dos seus olhos quase se apagou. O seu coração já não
sabia o ritmo acertado e as suas penas já estavam cansadas e mortas de sede.
Preocupado, o mar sem fim, que logo
sentiu a falta da sua habitual companheira, convocou a força dos ventos, a luz
das estrelas e o cheiro da maresia, que, de imediato, se apresentaram, e
decidiram por cobro a esta situação.
Como a união faz a força e a verdade
dos gestos e do querer é mais vigorosa e bela do que a apatia dos destruidores
de sonhos, a ave foi solta e o seu voo foi devolvido ao mar.»
E porque Deus assim o quer, a nossa
vida também pode ter finais felizes, basta, para isso, saber
reconhecê-los, quando eles nos aparecem bem à nossa frente, ainda que meio
sufocados por nevoeiros tingidos de várias cores.
Lutar pelos sonhos em que se acredita
é o primeiro passo para a imortalidade.
Carlos
Afonso
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
A moeda de vinte cêntimos
Eu nunca imaginei que um homem, numa
primeira impressão, me pudesse parecer um pedaço humilhante de gente, principalmente
quando me foi contado pelo próprio que, noutros tempos, já fora o rapaz mais
valente da freguesia. Quanto ao seu nome, não lho perguntei, muito menos a
idade exata que, provavelmente, lhe poderia definir a existência. Apenas lhe
gravei o aspeto, a história que me contou e a forma como se desvaneceu na minha
realidade.
Estávamos
em novembro e as folhas das árvores já tinham pouco préstimo de tão desbotadas
que estavam. Fazia frio! Porque me chamou a atenção um quadro sem graça e
demais descolorido, parei inesperadamente. Aquietei as mãos nos bolsos e olhei
em redor. Pela rua, corriam apressadas algumas pessoas, o mais agasalhadas que
podiam, enquanto na pastelaria da esquina, que distava dali uma centena de
metros, se aglomerava uma mão cheia de clientes, que não consegui destrinçar o
que estavam realmente a fazer. Também não interessa!
De
volta à tela revoltada que se me atravessara no caminho, reparei num pobre
velho, sentado num banco de jardim, quase encostado a um canteiro despido e sem
graça. O seu rosto carcomido, escondido por barbas engrenhadas e sujas, parecia
ter mais de cem anos. Os olhos que estendia na minha direção já não tinham cor
e não lhe focalizei qualquer certeza ou sentimento. A roupa acastanhada que lhe
vestia o corpo perdera há muito a sua utilidade, apenas as suas mãos rugosas e
encolhidas procuravam alguma coisa ou talvez não:
-
Podia dar-me alguma coisa, por favor?
Aflito,
tentei desenvasilhar-me da ocorrência e ainda tentei ignorar o pedido, mas não
fui capaz. Com algum discernimento, procurei uma moeda para dar ao pobre homem.
Mas… só tinha vinte cêntimos, e… mais nada, pois, se calhar, esquecera-me da
carteira em casa. Mas não, não podia ser. Ainda há pouco tempo eu havia
comprado o jornal e tinha a carteira comigo. Como tinha o número do telemóvel
do rapaz meu amigo, onde comprara o jornal, lá lhe liguei, para ver se a tinha
deixado aí, mas nada. Será que perdi a carteira? Onde é que eu a deixei? Será
que me caiu do bolso. E agora? Tinha lá os documentos e algum dinheiro. Sem
querer passar a minha aflição para o pobre homem que, de certeza, estava em
muito piores condições do que eu, peguei na moeda de vinte cêntimos e, com
alguma vergonha, sempre lhe estendi a mão:
-
Desculpe, meu amigo, mas é só o que tenho. Este é o único dinheiro que tenho. Não
sei o que fiz à carteira. Pegue.
Com
algum à-vontade, e depois de me olhar com mais afoiteza, pegou na moeda de
vinte cêntimos, para logo de seguida ma tentar devolver.
-
Desculpe, caro senhor, se essa é a sua última moeda, fique com ela que lhe pode
fazer falta. Quanto a mim, agradeço-lhe, na mesma, o seu gesto e que Deus lhe
pague. Agora vá para casa e não se aflija porque a sua carteira vai aparecer.
Não fique triste.
Claro
que eu não aceitei o dinheiro de volta e nem fui para casa. Sentei-me ao seu
lado e fiquei por ali mais algum tempo, talvez mais de duas horas. O tempo
suficiente para ficar a conhecer a história daquele pobre homem que já fora o
moço mais valente da freguesia, e que os seus pais tinham sido uns agricultores
remediados lá na aldeia onde nascera. O problema foi a doença que lhe tolheu o
futuro e as forças, ainda ele não fizera feito vinte e cinco anos! Contou-me,
também, que ficara órfão de pai e mãe, quando tinha apenas dezassete anos, e
que não tinha irmãos. Como era de prever, a nossa conversa percorreu vários
temas e orientações, facto que me fez esquecer o que tinha acontecido à
carteira. Até me contou, sem que eu lho perguntasse, que mais de uma vez
estivera para casar, mas que o destino não lho permitira, pois as moças de quem
ele gostara, não lhe emprestaram as melhores intenções. Do seu corpo soltava-se
um cheiro esquisito.
A
dada altura, senti fome, pormenor que me trouxe à memória a carteira, e
levantei-me. Mas se eu estava com fome, o pobre velho também devia ter. E
agora?
Como
que entendesse o que me tolhia o coração, o pobre velho, num esforço que me
surpreendeu, ergueu-se a custo do banco de jardim, bateu-me nas costas,
circunstância que me fez acelerar o batimento cardíaco, e pediu-me que fosse à padaria
e, com os vinte cêntimos que lhe havia dado, lhe comprasse alguma coisa. Mas o
que é que se podia comprar com uma simples moeda de vinte cêntimos?
Sem
demoras, peguei novamente naquela que já havia sido a minha última moeda e
corri para a padaria. Lá chegado, a surpresa foi total, principalmente quando
escutei da boca de uma bela jovem de avental azul as seguintes palavras:
-Ó
senhor, não perdeu nada?
Meio
atarantado, sempre respondi:
-
Perdi a carteira, e não sei onde foi.
-
Olhe, é esta? Deixou-a aqui um velhote de roupa castanha e com umas mãos
rugosas e encolhidas.
-
Oh, obrigado! Ainda há gente boa neste mundo! – Acrescentei quase a soluçar.
Claro
que aquela carteira era a minha. Que alívio!
Agradeci,
mais uma vez, o gesto da bela jovem, verifiquei que ninguém mexera no dinheiro
nem nos documentos, e retirei do seu interior dez euros. Depois, comprei um
farto lanche que, obviamente, iria matar a fome do meu amigo que deixara no
outro lado da rua, e saí apressado. Chegado ao sítio onde devia estar o pobre
velho, não vi ninguém. Olhei, tornei a olhar e nada.
Mas
onde está o pobre velho?
Como
resposta, apenas escutei o silêncio da tarde e um leve calafrio no rosto.
Meti
a mão ao bolso das calças, pequei nos vinte cêntimos, que não me pertenciam e
coloquei-os, de mansinho, no mesmo sítio onde estivara sentado o pobre velho.
Bem ao lado da moeda, deixei também o que havia comprado na pastelaria.
Provavelmente,
o meu amigo foi dar uma volta e quando voltar irá encontrará o que era dele por
direito.
No
dia seguinte, a manhã acordara amena e repleta de sol. Apressado, saí de casa com
o único objetivo de encontrar o pobre velho. Dirigi-me ao mesmo sítio onde o
vira na véspera e apenas achei o que os meus olhos me mostraram. Sentado no
banco, que jazia encostado a um canteiro, estava um simpático rapaz, com um
livro numa das mãos e uma pequena moeda na outra, que, de vez em quando,
atirava ao ar para logo de seguida a apanhar. A roupa que lhe cobria o corpo
era de um tom acastanhado vivo e fino. Quando me aproximei, o jovem olhou-me
com clareza e, sorridente, convidou-me para me sentar ao seu lado. Depois, num
tom de voz quase familiar, falou-me:
-
Bom dia! Então sempre encontrou a carteira?
As
suas mãos já não eram rugosas nem encolhidas.
Carlos
Afonso
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Entre a vida e a morte
Donde a clareza sedenta de futuro
Se ergue por entre choros de Vida…
Toca-se em cristais de sonho,
Beijam-se luares claros,
Dorme-se no perfume dos lírios
Apontam-se certezas,
Colhem-se encruzilhadas,
Libertam-se passos definidos,
Erguem-se castelos de areia,
Atiram-se pedradas cinzentas,
Ouvem-se palavras sinceras,
Roubam-se momentos inocentes,
Afagam-se pores-do-sol sem volta,
Dizem-se verdades escondidas,
Semeiam-se searas ao amanhecer,
Sobem-se escadas incertas,
Comem-se frutos amargos,
Constroem-se noites sem estrelas,
Oferecem-se rosas sem espinhos,
Mergulha-se em rios parados,
Tropeça-se em caminhos de enganos
E …
Basta.
O horizonte escondeu-se no ocaso,
As aves perderam-se na escuridão,
E o silêncio…
Ergueu-se por entre choros de Morte.
Carlos Afonso
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
O velho poeta
Quase sem querer, o velho poeta, numa
manhã de Setembro, e já quando as folhas haviam perdido o seu fulgor e
substância, sempre arranjou forças e, numa atitude quase de desespero, ergueu
os olhos ao céu e implorou a Deus que libertasse o seu país da escuridão e sofrimento
em que vivia.
Comovido pela sinceridade de tal
pedido, nessa mesma noite, Deus atendeu aos desejos do velho poeta e, sem
demoras, colheu as estrelas mais belas do céu, descolou, do seu livro sagrado,
as palavras mais perfumadas e escolheu, nos cânticos dos anjos, as melodias
mais suaves. Depois, e com todo o poder que O define, transformou tudo em
orvalho fino, para, logo de seguida, o espalhar pela terra.
Na manhã seguinte, e quando abriu a
janela do seu quarto, o velho poeta reparou que o prado que se estendia à sua
frente mostrava uma rara e perfeita beleza de tempos idos, iluminado por um sol
ameno e luminoso, mas não havia flores. Reparou, também, que na mesa da sala,
num lugar bem visível, se encontrava uma folha amarelada com uma pequena frase
e que dizia o seguinte:
- Velho poeta, mete os pés ao caminho
e procura a fonte dos sentimentos e dos sonhos obterás o desejo que anseias. Se
a conseguires encontrar, o teu país voltará a ter sorrisos e flores.
Apressado, e sem saber ao certo onde poderia
encontrar a dita fonte dos sentimentos e dos sonhos, saiu de casa, pegou num
gasto cajado e deu início a uma longa caminhada.
Passado muito tempo, ao passar por
debaixo de uma figueira, encontrou uma cigana de rosto seco e com umas mãos tão
esguias como o vento. Com algum receio, perguntou-lhe se sabia onde ficava a
fonte que procurava. Sem que muitos segundos tivessem passado, a cigana, não
lhe dirigiu qualquer palavra, indicou-lhe apenas uma direção perdida na
distância. Algo frustrado, fingiu entender o gesto e continuou a sua demanda. E
andou… andou…
Quando cruzava um povoado abandonado,
reparou numa criança que, solitariamente, brincava com uma bola descolorida que,
repetidamente, atirava contra uma parede, uma vez que ela retornava sempre.
Também à criança perguntou se sabia onde ficava a fonte dos sentimentos e dos
sonhos, mas também ela lhe apontou a distância.
Numa permanente procura que o levou,
dias e dias, a percorrer montes e vales, caminhos e outeiros, virando à
esquerda e à direita, subindo e descendo, verificava que apenas encontrava
figuras solitárias, alheias nos seus afazeres e que lhe respondiam da mesma
forma que o fizeram a cigana e da criança. Quanto à tal fonte, nem um mínimo
vestígio.
A dada altura, e para seu espanto, constatou
que voltara ao ponto de partida, isto é, à sua casa. Cansado e cabisbaixo,
entrou, sentou-se na cadeira de muitos anos e por ali se deixou ficar. Lá fora,
o sol ainda continuava a brilhar, mas, no que diz respeito às flores, nem uma
para a amostra. Bem dentro do velho poeta, continuava a habitar o silêncio e a desilusão.
Mas, e como que enviada por uma força superior, uma borboleta de mil cores
entrou pela janela e foi pousar numa das mãos do velho poeta. Este reagiu
instintivamente, levantando-se de imediato e sacudindo o pobre bicho. Meio
embrulhado naquela reação do velho, a borboleta lá se conseguiu erguer no ar e
esvoaçar durante algum tempo pela sala, para finalmente pousar em cima de um
caderno usado, que jazia caído no chão, para, logo de seguida, voltar a
levantar voo e sair pela janela fora.
Como que tomado por um sinal que lhe
fora enviado, o velho poeta dirigiu-se para perto do caderno usado, caderno
esse que era, nem mais nem menos, o sítio onde costumava escrever os seus
poemas, na altura em que tinha vontade de o fazer, tomou-o nas mãos, abriu-o e
teve o desejo de voltar a ser um verdadeiro poeta.
Já sentado na cadeira de muitos anos,
e numa ânsia já quase esquecida, o velho poeta não cobriu os seus olhos negros
e gastos com aquelas mãos repletas de desânimo, que ultimamente o guiavam. Não,
bem pelo contrário. Ele, agora, como que sentia correr dentro de si uma fonte
farta de sentimentos e de sonhos que o impeliam a gravar nas folhas do caderno
um poema que parecia não ter fim. Quando o acabou, continuou com o caderno
aberto, ergueu-se satisfeito, aproximou-se da janela, olhou o céu, sorriu e no
seu amado país voltaram a nascer flores e esperança.
Afinal, o velho poeta sempre
encontrou a fonte, que durante tanto tempo procurara, e que nunca havia deixado
de correu bem dentro de si. O problema é que os seus olhos de homem e a
negritude, que atrofia os corações dos que não amam, lhe haviam escondido a
verdade dos sentimentos e a força dos sonhos.
Carlos
Afonso
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Oficina de escrita criativa VIAJAR PELAS PALAVRAS
“ Escrever é também não falar. É
calar-se. É gritar sem ruído”
Duras, Marguerite
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
A menina mais triste do mundo

A história que vos vou contar tem
como personagem principal uma menina de cabelos pretos que um dia escreveu numa
folha a fingir de carta de que era a menina mais triste do mundo.
Era o primeiro dia de outubro de 2012
e tinha acabado de lecionar a minha última aula. Sem pressas, coloquei a pasta
às costas, despedi-me de dois colegas que, entretanto, encontrara, saí da
escola e caminhei na direcção a Fábrica do Ferro. A dada altura, e já depois de
ter passado pela Padaria Silva, encontrei uma velha senhora que trazia nas suas
mãos uma pequena pasta amarela. Porque a conhecia, parei e ofereci-lhe um beijo
amigo. Sorridente, a velha senhora retribuiu-me na mesma moeda e ainda me acrescentou
um breve elogio:
- Ó professor, gostei de o ver na
televisão e falou muito bem! Sabe, achei tão interessante o que estão a fazer
em Aboim, que já disse à minha neta que num dos próximos sábados a havia de
levar lá.
Depois de termos trocado mais algumas
palavras, veio à conversa o facto de ela trazer nas mãos a pequena pasta
amarela. Um pouco atarantada, e só depois de olhar para os lados para ver se
não passava ninguém que pudesse escutar o que ia dizer, a minha amiga de
encontro sempre adiantou:
- Eu nem sei que lhe diga. Acontece
cada coisa às vezes que o mundo até parece que vai virar às avessas. Não quer
você saber que hoje a minha neta pregou-me um susto dos grandes. O que me
assossega, é que o meu homem já a encontrou e já a levou para casa da minha
filha. Ai, meu Deus! Que aflição!
Perante este intróito tão inquieto, a
minha atenção curvou-se totalmente perante as suas palavras, pois eu queria
perceber o que se tinha passado. Sem pressas, escutei… escutei… e tudo ficou
mais claro para mim.
De repente um barulho mais forte que
se despegou de uma motorizada que por ali passava, fez-nos aquietar a voz.
Enquanto o sossego não voltava, olhei sem querer para o relógio e vi que já não
era cedo. Conformados com o adiantado da hora, demos a conversa por acabada, espedimo-nos
e cada um seguiu o seu caminho. Eu fui para casa e a velha avó foi levar a
pasta da neta ao apartamento onde ela morava com os pais. Ao longe, o barulho
da motorizada ainda era audível.
Mas afinal o que se tinha passado com
a neta da minha amiga?
Caros leitores, às vezes as coisas
mais simples são as que traduzem a maior verdade, e só tenho pena que a neta da
velha senhora minha amiga não tenha conseguido os seus propósitos. Pois, se isso
tivesse acontecido, se calhar, as coisas em Portugal poderiam levar outro rumo
e talvez, quem sabe, os nossos políticos aprendessem uma grande lição.
Ora bem, mas afinal o que aconteceu?
O que aconteceu foi o seguinte. A
pobre criança estava em casa da avó, como costuma estar todos os finais de
tarde, depois de vir da escola, e escutou na televisão que Portugal vivia uma
crise muita profunda e que muitos pais já não podiam dar aos seus filhos certos
confortos, por mais simples que eles fossem. E o que a preocupou ainda mais foi
o facto de haver pais que já nem dinheiro tinham para comprar livros para os filhos.
Perante verdades tão assustadoras que
escutou na televisão, a menina, que andava apenas no segundo ano da Escola
Primária, não quis saber de mais nada, pegou numa folha e tratou logo de escrever
uma pequena carta dirigida a quem de direito. No seu interior, apenas se lia o
seguinte “Sr. do governo, não quero que
os meus pais fiquem sem dinheiro. Eu preciso muito de que a minha mãe me compre
aquele livro que tem na capa um ursinho a brincar com uma bola. Está a ver qual
é?”. E, no final da folha, e da forma mais singela que se pode imaginar,
assinava apenas assim “A menina mais
triste do mundo”. Depois, e sem que a avó pudesse fazer alguma coisa, meteu
a carta sem envelope debaixo do braço, desceu as escadas, abriu a porta e
desatou a correr na direção dos correios.
Agora imaginem os leitores se o avô,
alertado pela esposa da fuga da neta, a não tivesse encontrado já bem perto dos
correios e a não tivesse impedido de enviar a tal carta dirigida ao “Sr. do
governo”?
Carlos Afonso
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