domingo, 9 de março de 2014
FAFE INTEMPORAL
(Fafe dos Brasileiros, 2012)
Esta imagem é de uma beleza única! A sua real mensagem ainda não se cumpriu...
«Um povo sem memória é um povo sem futuro...»
- SENHOR, falta cumprir-se Portugal.
segunda-feira, 3 de março de 2014
EM ALFÂNDEGA DA FÉ, NO REINO ENCANTADO DAS AMENDOEIRAS EM FLOR, AS LENDAS SÃO VERDADEIRAS
A lenda das amendoeiras em flor...
Há muitos e muitos séculos, antes de
Portugal existir e quando o Al-Gharb pertencia aos árabes, reinava em Chelb, a
futura cidade de Silves, o famoso e jovem rei Ibn-Almundim que nunca tinha
conhecido uma derrota.
Um dia, entre os prisioneiros de uma
batalha, viu a linda Gilda, uma princesa loira de olhos azuis e porte altivo.
Impressionado, o rei mouro deu-lhe a liberdade, conquistou-lhe progressivamente
a confiança e um dia confessou-lhe o seu amor e pediu-lhe para ser sua mulher.
Foram felizes durante algum tempo, mas um dia a bela princesa do Norte caiu
doente sem razão aparente.
Um velho cativo das terras do Norte
pediu para ser recebido pelo desesperado rei e revelou-lhe que a princesa
sofria de nostalgia da neve do seu país distante. A solução estava ao alcance
do rei mouro, pois bastaria mandar plantar por todo o seu reino muitas
amendoeiras que quando florissem as suas brancas flores dariam à princesa a
ilusão da neve e ela ficaria curada da sua saudade.
Na Primavera seguinte, o rei levou
Gilda à janela do terraço do castelo e a princesa sentiu que as suas forças
regressavam ao ver aquela visão indescritível das flores brancas que se
estendiam sob o seu olhar. O rei mouro e a princesa viveram longos anos de um
intenso amor esperando ansiosos, ano após ano, a Primavera que trazia o
maravilhoso espetáculo das amendoeiras em flor.
Nota: A
amendoeira é o símbolo da doçura e da leveza.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
CULTURA VIVA - 1º Encontro Temático/Pedagógico - (Memórias e tradições de Fafe)
«O CICLO DO PÃO»
(Com o objetivo maior
de realçar o papel formador das tradições na vida do homem, em consonância com
a respetiva região em que vive, neste caso o Minho, a Associação cultural de
Fafe Atriumemória leva a cabo o primeiro Encontro Temático/Pedagógico centrado
no «Ciclo do Pão». Este evento cultural, em que o real e o imaginário convivem
afavelmente, mostra como a poesia, as tradições, as memórias, a música e a vida
do nosso povo são o enredo ideal para uma bela história plena de rusticidade
minhota.)
Programa:
- «O velho e o grão de
milho» - Adaptação
para teatro de um conto de Carlos Afonso, construído a
partir do trabalho de investigação de Maria Soledade Vaz
- «Do corpo à alma» - Poesia de palavras com sabor a terra e céu
- Grupo de Cavaquinhos
da AAPAEIF (Associação dos Antigos Professores,
Funcionários e Alunos da Escola Industrial e Comercial de Fafe)
Local: Sede
da Atriumemoria, Fafe, (Edifício Shopping 134, cave)
Data: 1 de
março de 2014, 21h30
Realização:
Atriumemoria
domingo, 16 de fevereiro de 2014
A FLOR DA FELICIDADE
A maior virtude do homem está na capacidade de encontrar na rigidez
do sofrimento a flor da sua felicidade!
Carlos Afonso
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
UM AMOR, UMA VIDA (dia dos namorados)
Sempre que me lançares um sorriso, eu prometo-te a minha alma. Sempre que me ofereceres os teus afectos, eu asseguro-te o
meu coração. Sempre que me deres o teu corpo, eu desvendo-te os
meus segredos.
O verdadeiro amor não se planeia ou elabora, guiado pelo pendor da consciência, longe da pureza dos momentos. O verdadeiro amor desabrocha de uma forma natural, bem dentro do coração, impelido por um gesto, um olhar, um sorriso sincero ou um simples instante de sorte. Mas, e tal qual as flores dos prados aceitam receber na sua intimidade a incauta abelha, para que esta dê azo ao seu destino, o homem deve deixar-se possuir pela real dimensão do amor e esperar que as nascentes não percam a sua dimensão cristalina e a aragem continue a guiar o rumo das aves.
Alberto nunca pensou que aquela praça granítica, cravada numas das zonas mais emblemáticas de Braga, espaço onde muitas histórias tiveram o seu ocaso, fosse o começar de uma vida plena de confidências, partilhas e futuros sempre a cimentar. De certeza que os caminhos que o trouxeram até ali sabiam o que ia acontecer. Se assim não fosse, a noite não estaria tão amena e as estrelas só viriam mais tarde.
Provavelmente, aquele olhar trémulo que Maria deixou escapar, naquele mês de Maio que o tempo gravou na correnteza dos tempos, não era destinado a Alberto. Mas isso não teve qualquer importância, pois os anjos desceram à terra e desviaram a sua trajectória.
Tiveste sorte, meu rapaz!
O poeta diz, e com razão, que o coração nem sempre obedece aos desígnios da razão. Ainda bem que assim é, pois, caso contrário, as flores só mostrariam o seu encanto na Primavera e os dias cairiam num enfado sem novidade.
Para quem pensava regressar às terras donde nasceu, lá para os lados do Marão, no reino encantado de Trás-os-Montes, depois de concluir o seu curso na Faculdade de Filosofia, aquele encontro ocasional de Alberto e Maria inverteu o curso de um sonho de anos. A ideia de voltar como professor aos espaços da sua infância criava em Alberto uma alegria compreensível, aguçada aqui e ali pelo capricho de poder passar por esses espaços numa outra condição, arrancada a ferros de uma existência de vários anos, na companhia de muitos livros e noites mal dormidas. Mas, e tal qual a ave da ribeira descasca as bagas do zimbro, ajudada pela ingenuidade de um movimento, o olhar não intencional daquela esbelta rapariga apagou uma vontade que parecia inquebrável, e acendeu uma estrela que, e depois de muitos anos, ainda dura e, de certeza, continuará a brilhar, até que os deuses a cubram com o seu manto.
Para bem dos caminhos encurvados que levam os que procuram, e aprazimento daqueles instantes que decoram os anseios dos homens, é bom saber que ainda há corações crentes em olhares sem mágoa e pudores inocentes pregados a rostos com nome, impelidos por lágrimas que nem sempre se mostram. É em torno destas circunstâncias estendidas sobre paisagens de muitas formas, e de janelas expostas à luz, que o amor aparece e, num tom de excelência, deixa bem claro que não deseja esfumar-se em restos de nada.
Só é de lamentar, e se calhar a culpa é do vento, constantemente embrulhado na indefinição da direcção da sua força, que muitos compromissos se quebrem, justificados por vozes e atitudes que, geralmente, deixam muito a desejar.
Não, não me acusem de ser um desenraizado dos tempos, e muito menos de um prosador sem plano, ou até de um ser qualquer que se emociona quando saboreia os sonetos de Camões.
Não, não me mandem escrever rimas soltas na poeira do chão, sempre que está para chover.
As minhas certezas e o meu acérrimo acreditar na força viva do amor têm todos os ingredientes necessários para contaram com a bênção do perfume das rosas amarelas, ainda antes de serem cortadas por mãos sem jeito. E sabem porquê?
Porque conheço, e muito bem, as linhas com que se entrelaça o amor do Alberto e da Maria, em véspera do dia dos namorados, não questionem o atrevimento de vos deixar nas linhas desta história alguns versos que roubei a um breve momento de inspiração:
Sonhos de água…
Sonhos de água…
Se me pedires a clareza de um olhar,
O meu peito abrir-se-á de par em par
E nos rostos que nos definem
Nascerão mil vontades de ousadias cobertas de cor e fantasias!
Depois, de certezas férteis semeadas nas almas,
Erguer-se-á, leve, a ternura das fontes e o céu esperará por nós!
Água salubre, escorrida de nuvens feitas de carícias,
Gotejará do roçar consentido dos nossos corpos,
Unidos por linhas que o tempo tecerá,
Antes das madrugadas começarem a acordar!
Carlos Afonso
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Um pardal na neve (histórias da minha infância)*
Lembro-me
como se fosse hoje…
Era
sábado.
Os sábados
em Trás-os-Montes, no Inverno, às vezes, têm neve. Naquele sábado, tudo era
neve. Neve a sério. Neve e neve e neve…
Se não
estou enganado, naquela altura, eu não tinha mais de dez anos e estava de
férias na minha aldeia de Parada, concelho de Alfândega da Fé. Digo de férias,
porque, e como é habitual ainda hoje, as crianças estão de férias nas vésperas
de Natal. Eu estudava no seminário de Vinhais…
-Filho,
hoje não saias de casa, ouviste?
Claro que
eu ouvi, mas não obedeci. Quem me avisava de uma forma tão assertiva e
preocupada era a minha madrinha Antoninha.
Sem que
ninguém me visse, saí porta fora, caminhei a custo por ruas cheias de neve,
encostado a todo um casario coberto de neve. E, quando dei por ela, já estava
fora da aldeia com os meus passos enterrados na neve, e quase até aos
joelhos, neve essa que se espalhava com força por todo o caminho dos «Espoios».
Meio
ofuscado pela clareza branca do horizonte que me cercava, enrodilhado em
milhares de farrapinhos frios que esvoaçavam por todo o lado, reparei num remexer
aflito por entre a neve, em tons de morte, encostado a uma parede já velha. E
porque queria perceber o que se estava a passar, aproximei-me.
Coitado! É
um pobre pardal!
Com algum
engenho e cuidado, retirei o pardal do sítio que o escondia por entre a neve, e
que o iria matar, e acolhi-o dentro da minha casaca castanha. Voltei para casa,
outro vez envolto por uma neve que continuava a cair sem descanso. Já no quarto,
vislumbrei uma caixa vazia de sapatos, debaixo da cama, puxei-a a custo, abri-a,
fiz-lhe uns buracos pequenos e coloquei lá o pardal. Depois, desci à adega,
retirei uns grãos de trigo de um saco e ofereci-os ao pequeno pássaro que, sem
se fazer rogado, os debicou e ficou saciado. Na manhã seguinte, o céu já estava
azul, mas cá em baixo, na terra dos homens, tudo continuava pintado de um
branco cor de neve. Coloquei a caixa na varanda, retirei-lhe a tampa e o pardal
voltou a ser um pardal a sério, enquanto o meu coração me dava os parabéns pela
minha atitude de bom menino, apesar de não obedecido às ordens de minha
madrinha.
Eu sei que
os pássaros não pensam. Mas aquele pardal pensava ou, então, tinha um dom
especial que me levava a julgá-lo dessa maneira. Na verdade, o bendito pardal, e
depois do ocorrido, todos os dias, e enquanto as férias duraram, ele vinha
visitar-me. Pousava na varanda, chilreava com alguma sonoridade, como que a
chamar-me, depois saltava para dentro da caixa, que eu lá havia deixado ficar,
assim como um punhado de grãos de trigo, que ele comia com agrado. Passado pouco
tempo, talvez dois minutos, abria as asas, chilreava mais um bocadinho e
voltava para donde viera. Os espaços eram o seu reino.
As aulas recomeçaram
e eu voltei para o Seminário de Vinhais. Não tive tempo de me despedir do
pardal e ninguém me soube dar notícias do mesmo, durante as largas semanas de
estudo que se seguiram.
O Carnaval
chegou e as férias, ainda que pequenas, também.
Mal
cheguei à minha aldeia, cumprimentei os que amavam, corri para a varanda e vi o
que nunca imaginara encontrar.
A caixa de
sapatos, ainda aberta, lá estava e, dentro dela, o que restava da pobre
avezinha!
Depois desse
dia, e ainda hoje, e durante todos estes anos, tenho por hábito, sempre que vou
à minha querida Parada, lá no reino encantado de Trás-os-Montes, o reino onde
os pardais gostam de morar, subir à dita varanda, agora com novo rosto e forma,
olhar o céu e procurar, para além do mundo dos homens, o pardal que encontrara
na neve.
Pode não acreditar,
amigo leitor, mas não só o reencontro como costumo partilhar com ele o seu magnífico
voar.
*(Esta história é dedicada ao meu filho mais
novo, Carlos Manuel, e aos seus colegas de turma, Carolina, Alexandre e José
Nuno, que me inspiraram a escrevê-la, no preciso instante em que me pediram
ajuda quando estudavam as «Memórias», conteúdo obrigatório da disciplina de
Português.)
Carlos
Afonso
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
O gato da mulher que conheceu o seu “home” no comboio de Fafe
Ainda não
eram quatro horas da tarde e já o dia dava indícios de se querer acabar,
circunstância que era fortalecida pelo cinzento carregado que varria o
horizonte em redor. De vez em quando, muitos pingos de chuva faziam-se mostrar,
mas só às vezes, independentemente de serem desejados ou não.
No momento exato em que tudo aconteceu, e na totalidade
da hora que se lhe seguiu, do céu apenas escorregaram uma luz baça e húmida e
um ou outro pássaro meio incomodado.
E eu que até pensava que andava sozinho nesse
meu passeio pela cidade de Fafe!
Muitos são os pormenores, bons ou
maus, que me fazem parar quando ando nestas minhas demandas pela cidade. Na
verdade, gosto de sentir o que me
rodeia, nem que para isso tenha de demorar horas a percorrer centenas de metros
ou ainda menos. São opções, nada mais. Mas que me tornam mais completo e
interventivo. Lá virá o dia em que a idade
ou outro pormenor qualquer me impedirá de ver, ouvir, cheirar, provar e tocar.
Nessa tarde de janeiro, foi a antiga
estação de comboio ou, melhor dizendo, o que resta dela, que me fez parar.
Meu Deus, a que estado ela chegou!
Bem, o edifício principal ainda continua digno, embora noutras funções, mas os
outros acrescentos, que noutros tempos tinham tanta serventia e vida, hoje não
passam de um aglomerado de restos e coisas mortas, em final de linha! E foi
nesse meu visualizar de desgraças, angústias e acentuadas nostalgias, apesar de
não ter o privilégio de ter conhecido esse outrora com comboios cheios de vida,
e agora findo, que um gato me saltou para o entendimento e bem para a frente
dos meus olhos.
Era um gato acinzentado e com uma
fina coleira de onde se dependurava um refinado guiso. Que gato lindo! E que rapidez!
Num ápice, e tal e qual como quem o costuma fazer muitas vezes, o esbelto animal
passou por mim a correr, saltou quase em claro o gradeado, em forma de portão,
que separa o fora do dentro do que resta da antiga estação. Curioso! Não é que o
bendito bicho, trepou ao que sobrava de um carro abandonado, no meio de outros,
e saltou para o chão. Sem querer parar, contornou, sem ignorar, uns amontoados
de pedra de calçada, misturada com terra e areia, e, na sua correria, foi posicionar-se
bem na minha frente como que a desafiar-me não sei bem para quê. Ou sei?
- Raio do gato, lá anda ele outra vez
com as suas maluqueiras! Qualquer dia…
Quem assim dizia era uma velha
senhora, meia despenteada, cosida a um casaco bem castanho e com um guarda-chuva
preto na mão. Era a dona do gato.
- Sabe,
senhor, o meu gato é meio esquisito, de vez em quando, prega-me estas partidas.
Foge de casa e vem para aqui. Não quer o amigo saber que sempre que chego onde
agora estou, ele lá está, precisamente naquela postura. Está ver? Qualquer dia…
- adiantou-me, sem papas na língua, a velha senhora.
Mas o que o
é que ela quereria dizer com tão estranha expressão e sempre incompleta? «Qualquer
dia…»
-Sabe – e sem
que eu lhe perguntasse nada – eu ainda me lembro de como tudo isto era…Gente a
partir, gente a chegar… Este comboio era uma riqueza, uma festa. Agora só há
para aqui restos. Qualquer dia…
- A senhora
mora aqui perto! – Perguntei-lhe eu.
- Moro ali
mais abaixo, mas venho muitas vezes aqui, pois o raio do gato… Sabe, foi neste
comboio de Fafe que conheci o meu “home”. Eu vinha de Guimarães, eu tinha lá
uma irmã… ela já morreu, mas ainda lá tenho dois familiares e… eu acho que era
uma sexta e calhou sentar-me no banco do lado esquerdo… não. Era do direito.
Não interessa. O que eu sei é que ao meu lado estava um rapaz um pouco mais
velho do que eu e… Não desfazendo, era um belo rapaz! A vida tem destas coisas.
Só sei que cinco meses depois eu já era a mulher dele. Coitado, já morreu há dois anos. Morreu ele,
morreu o comboio e qualquer dia morro eu. Não quer você saber que o primeiro
presente que ele me deu foi um gato igualzinho a este. Este malandrete, que
anda sempre “prá`qui” a fugir é descendente desse gato que o meu “home” me deu.
Eu às vezes até tenho medo que…
E mais uma
vez a velha senhora não acabou o que ia a dizer. Pois, e mal o gato correu na
nossa direção e, com certeza voltava para donde viera, ela apressou-se a
segui-lo. Ao longe, ainda consegui escutar de uma forma bem clara, o que já
havia dito e redito:
- Qualquer
dia…
Ora bem! Se
o gato foi para casa e a velha senhora também, na altura, pensei para com os
meus botões que estava na hora de regressar. É que da estação até ao sítio onde
moro ainda era um bom pedaço.
E porque a
história não podia acabar assim, apenas acrescento que seria de bom agrado que se
olhasse para o que resta da antiga estação e se desse por acabado todo aquele
retrato incompreensível. Está na hora de dar melhores vistas a um espaço que já
foi uma porta de excelência de Fafe. Uma porta que trazia o mundo a Fafe e que levava
Fafe para o mundo.
Por que não implantar naquele lugar tão
emblemático para Fafe uma locomotiva pedagógica ou um museu temático ou algo de
parecido… Vá lá, nem que seja em homenagem ao “home” da velha senhora e ao amor
que um dia o comboio de Fafe ajudou a nascer.
Senão… qualquer dia…
Para finalizar, e juro que não digo
mais nada, amigo leitor, peço uma atenção para um excerto que, num belo dia de
1911, o “Almanaque Ilustrado de Fafe” publicou:
«Como
é bom recordar! Parece que foi hontem e já lá vão três annos! Transcrevemos
para aqui parte do que sobre tão grato motivo dissemos no nº 749 do Desforço de
1907 (…)
A
CHEGADA
Aos
primeiros silvos das locomotivas, tudo rejubila. São duas, conjugadas, que se
denominam «Porto» nº 5 e «Negrellos» nº 2, a rebocarem 17 vehiculos. Ao
apparecimento, na ultima curva, quando os silvos redobram e o penacho de fumo
se torna mais intenso, a alegria é então dilerante, chega ao seu auge o
contentamento!
E’
uma hora e 20 minutos quando o comboio entra nas agulhas da estação por entre
filas de povo. O enthusiasmo, a esta hora feliz para Fafe, é indescritível!
Aquelle
acenar de lenços, aquella animação, aquella vivacidade, aquellas acclamações,
tudo aquillo que se não pôde anotar, oh! Era sublime!!
Sublime,
sim!!
Nós,
que fomos uns pugnadores do caminho de ferro para Fafe, que temos anciado para
o nosso torrão natal esse melhoramento indispensável, ao ver chegar o comboio
inaugural, fomos apossados de tanta alegria, que quasi se nos estonteia o
espírito! Ah! É que víamos triumphar uma das nossa maiores aspirações!
E
as bandas fazendo ouvir os seus sons musicais, vibrantes, pareciam exprimir o
que nos ia n’alma; o dynamite, estralejando nos ares, annunciou ao longe o
nosso enorme contentamento.
No
comboio inaugural vinha um grande numero de convidados, de que os jornaes
diários teem dado nota e que por isso achamos supérfluo aqui reproduzir.
As
locomotivas chegaram adornadas com bandeiras e tropheus, a gosto.
A
da vanguarda, a nº 5, trazia a dirigi-la o engenheiro sr. Francisco Ferreira de
Lima, que trajava de machinista, e o chefe de tracção e officinas sr. Joaquim
Lopes.
Acompanhava
o comboio uma banda de musica.
Na
cauda vinha uma carruagem-salão, em que tomaram logar, alem do pessoal superior
da Companhia e outros cavalheiros, a commissão das festas, que daqui foi a Paçô
fazer a espera.
Ao
apeiaren-se, o sr. Conselheiro Florencio Monteiro foi o que iniciou os vivas,
que proseguiram, correspondidos sempre com ardor.
Em
seguida, no estrado, onde permanecia a câmara, depois de trocados muitos
cumprimentos, discursa o director da Companhia sr. Reis Porto, que, fazendo o
elogio da nossa terra declara aberta á exploração a linha férrea.
Termina
por levantar vivas a Fafe e ao seu povo.
Seguiu-se-lhe
o presidente da câmara sr. Dr. João Leite de Castro, que discursa sobre os
benefícios da linha trazidos a Fafe, melhoramento que há muito todos nós
aspiramos, e attribue esse melhoramento á boa vontade do sr. Conde de Paçô
Vieira e do extinto Soares Velloso, e simultaneamente, á intelligencia e
actividade do sr. Reis Porto. Concluindo, saúda o povo de Fafe.
E’
depois lido o auto inaugural pelo guarda-livros da Companhia sr. Francisco
Garrido Monteiro, que, cavalheiros de Fafe, Guimarães, Porto we Graga,
assignam.
Depois
disto, partiu a comissão das festas, pessoal da Companhia e convidados,
seguidos por duas bandas de musica, para a villa. Os vivas, que tinham sido
levantados no estrado, proseguem – ao sr. Reis Porto, á Companhia do Caminho de
Ferro, engenheiro Lima, aos hospedes de Fafe, e outras individualidades, - que
são correspondidos com indiscrptivel enthusiasmo. Immediatamente marcha a
corporação dos bombeiros com a sua banda, que tinha feito a guarda d’honra.
Muito
povo acompanha»
Às vezes, não entendo progresso! São coisas...
Às vezes, não entendo progresso! São coisas...
Carlos Afonso
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