quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O FANTASMA DO PALACETE DE FAFE..









     Aquele dia de outubro estava apático, cinzento e a ameaçar chuva. Na cidade, os hábitos eram os mesmos e os carros seguiam consoante as intenções dos seus donos. Era uma segunda-feira de manhã e eu vinha da piscina municipal, espaço bem definido de Fafe, e onde costumo ir às segundas e sextas, das onze ao meio dia, mais ou menos, fazer o exercício necessário. Ao passar junto do Palacete encostado ao Centro de Emprego, algo me impeliu para ver e escutar o que agora lhe conto, caro leitor, num tom ainda de encantamento. Acrescento, desde já, que nem tudo o que vou gravar nesta história aconteceu tal e qual, mas um decoro mais ficcional e a condizer fica sempre bem em qualquer enredo, principalmente quando mora no seu íntimo uma moralidade clara.
    Determinado a chegar a casa o mais rápido possível, saí da piscina e emprestei aos meus passos uma dinâmica mais ágil e esclarecida, pormenor que esbarrou, sem eu querer, numa vontade estranha de parar e de me encostar ao muro do Palacete para o poder mirar mais em pormenor e ver não sei o quê. Juro, amigo leitor, que este meu gesto não estava nos meus intentos iniciais. Surgiu bem ali, naquela hora, num a segunda de manhã.
     A casa de que estou a falar foi mandada construir por Manuel Rodrigues Alves, natural do Porto, casado com Soledade Summavielle Soares, neta paterna do "brasileiro" José Florêncio Soares e de Maria Teresa da Costa, no princípio do Séc. XX. Depois de passar por outros donos, hoje pertence ao estado e encontra-se devoluta e em avançado estado de degradação. No contexto das casas brasileiras de Fafe é, e em razão também da data da sua construção, a única casa com predominância de elementos arte nova. Segundo outras informações que me foram prestadas, o edifício terá sido construído a partir de uma planta importada de França. 
    O problema é que hoje em dia o aspeto estragado do exterior do Palacete, e de certeza que acontece o mesmo com o interior, causa-nos uma angústia no olhar e nos sentimentos. Não entendo como se deixam arruinar as memórias de todo um povo! Se calhar foi por causa disso que tudo aconteceu.
Apegado ao muro, e no preciso instante em que tentava esforçadamente ver as paredes com suas cores desbotadas e as janelas que nada deixavam ver, que uma voz feminina se fincou nos meus ouvidos e disse claramente:
    - Está ver o mesmo que eu?
    - Como disse? – Acrescentei eu, ao mesmo tempo que lhe atirava com a minha atenção.
   - Está ver ao que as coisas chegam? Isto está a precisar de um empurrão, senão, qualquer dia, tudo desaparece. Desculpe, posso roubar algum do seu tempo?
    Claro que eu estava a ver. Claro que aquela voz feminina tinha dono e tinha toda a razão do mundo. Claro que ela me podia roubar algum do meu tempo. A idade de quem me falava já era muita, mas de uma lucidez perfeita.
    A senhora que falava comigo estava de branco vestida e os seus olhos não tinham cor. As mãos estendiam-se e movimentavam-se de acordo com as frases proferidas. O rosto mostrava algumas rugas, mas não muitas. A cor do cabelo era quase cinzenta. Minto. Era quase branca.
    A conversa entre mim e a dita senhora, senhora esta que me apareceu ali de repente e me confidenciou o que de seguida vos transmitirei, durou o tempo suficiente para que dos seus lábios pálidos, pudesse derivar o relato de um sonho que já a perseguia há algum tempo, e que, desde essa altura me persegue a mim. Eu digo sonho, mas ele é muito mais do que isso. Ai isso é que é.
     E o sonho era assim… e continua a ser assim:
De dentro do dormir daquela senhora, e agora de dentro do meu dormir, à mesma hora, assinalada pelo mesmo relógio antigo, preso a uma mesma parede que nunca se mostrou, surge, bem na frente de quem o enxerga, um menino que brinca ininterruptamente com uma bola, fazendo-a bater nas paredes do Palacete de que vos falei. No sonho, as paredes estão pintadas de um preto feio como a noite mais feia. O menino, em calções e descalço, e ao mesmo tempo que atira com a bola que depois volta a agarrar, soluça um soluçar melancólico e monocórdico. As suas faces não se conseguem enxergar, mas as suas mãos estão sujas de um sujo também ele escuro. E, depois de alguns minutos passarem, um estremecer súbito das vidraças cerradas do Palacete fazem com que o menino pare de atirar a bola e comece a esgravatar na direção dos alicerces do edifício. Desde o início de todo este quadro que um frio insuportável cerca o menino, sem que a sua forma de vestir o estranhe. E esgravata e continua a esgravatar, sem parar de soluçar, até ao instante em que todo o edifício desaparece, engolido pelo buraco que o menino cavou. Assim, e sem mais nada, o sítio do palacete desaparece e com ele o menino, restando apenas, preso a um punhado de ervas secas, que ali nasceram do nada, uma bola, um livro, que ainda não tinha aparecido no sonho, e o soluçar do menino. Na capa do livro, e muito a custo, veem-se apenas duas palavras meias gastas, parecendo faltar uma outra, presentemente ilegível, apagada não sei por quem ou porquê. Com esforço para quem tenta ler com os olhos cerrados que alimentam os sonhos de qualquer dormir, lá se vai vislumbrando as palavras «Fafe dos…», e mais nada. Depois, um grito mais audível da criança, vindo não sei de onde, acorda quem sonha e… a noite continua acordada…
    Depois, primeiro a senhora e agora eu, com os olhos bem abertos, questionamos: Que sonho é este?      Que fantasma é aquele? Porquê a bola? E o livro? Qual é a palavra que falta?
   Ainda não consegui obter respostas nem entender o significado de tantas perguntas. Se o leitor deduzir o sentido de tudo isto, por favor esclareça-me, para ver se o sossego retorna ao meu dormir e ao da senhora de branco vestida.
   Bem! Pelo menos, quanto à palavra… eu penso que sei qual é a que está em falta. Deve ser... ou não… «Brasileiros». É isso: «Fafe dos Brasileiros». Tal qual como o Miguel Monteiro a escreveu um dia. Soa bem e tem todo o sentido. Mas por que motivo não está visível?

Carlos Afonso 

domingo, 3 de novembro de 2013

PARA ONDE VAIS, MEU PORTUGAL? (El Rei Dom Sebastião regressou do meio dos cardos.)


Nessa sexta-feira de Outubro, a noite não estava para brincadeiras. A chuva caía forte, o vento varria tudo à sua passagem e uma neblina insistente associava-se à escuridade da noite, quase que impedindo que os persistentes candeeiros da rua, com o seu alumiar amarelado e gasto, dessem um ar da sua graça. Dos meus olhos, escondidos por detrás da vidraça do quarto, derivava uma curiosidade esforçada, procurando aqui e ali um ponto de referência que amenizasse um pouco aquele quadro desengraçado. Perdi o meu tempo.
Ainda antes de dormir, ou porque o arfar assustadiço do temporal que vinha lá de fora não dava tréguas, nem mesmo dentro do quarto, ou porque ainda não era hora de embarcar no sono merecido, um diálogo a dois puxou-me para outras certezas.
Depois de um breve desfiar de ocorrências da véspera, que tanto eu como a minha esposa trouxemos para aquele momento de aparente insónia, uma história, ou melhor, uma conversa que ela havia tido com uma colega nossa, na escola, nessa manhã, veio relembrar-me o que já há muito tempo sei. O país parece que não consegue desenvencilhar-se da corda que lhe aperta o fôlego, e um certo desnorte começa a embrenhar-se por entre o nosso acreditar. Não admira, por isso, que a nossa colega tenha dito à minha esposa, com uma voz algo atarantada e sem remédio, que, provavelmente, teria de despedir a empregada, porque o dinheiro do seu vencimento já não chegaria para esse encargo.
Já agora, sabem o porquê desta aflição toda? Eu conto, mas juro-vos que não vai apanhar ninguém de surpresa. O nosso governo, num gesto pouco original e sem provas dadas, desenterrou do meio da rispidez que cobre Portugal uma solução que irá, em princípio, perfumar este jardim à beira mar plantado. Isto é, decidiu aumentar aos impostos e subtrair aos ordenados, sem se esquecer, também, de cortar algumas regalias que apenas eram sentidas por alguns.
Ora bem! Esta jogada de mestre, no entender de quem a arquitectou, provavelmente, irá salvar o país. Espero bem que todos estes sacrifícios exigidos não acabem por encher alguns sacos errados e que as coisas continuem na mesma. Convém não esquecer que até o caminho mais íngreme tem sempre um ponto de chegada
Só um aparte. Como é que fica a situação da empregada da minha colega, no meio disto tudo? Quem é que irá zelar pelos suas obrigações e vontades, se a desgraçada tiver de ser despedida, para que a pátria se possa erguer do nevoeiro onde a mergulharam?
Coitada! A corda quebra-se sempre do lado do mais fraco. Ai vida, vida! Talvez um dia as coisas mudem e a água deixe de correr só porque o rio a leva.
Nessa noite de temporal e de algumas angústias à flor da pele, onde não faltou o relembrar de todo um rol de negatividades que têm vindo a afectar os portugueses, até os discursos sérios e preocupados dos nossos políticos vieram à tona.
Reconheço que esta conversa entre mim e a minha esposa, à partida, não seria a melhor solução para quem precisava de uma noite bem dormida, mas o que é que se havia de fazer? Às vezes, os assuntos nem sempre são os que mais nos convêm, mas o facto é que eles surgem.
Apesar de tudo, o sono sempre acabou por chegar, arrancando-me daquelas constatações nuas e cruas, e conduzindo-me para um sonho que me afastou da clareza do óbvio.
Das profundezas do meu dormir, vi emergir do fundo dum imenso mar de cor verde, repleto de cardos sem flor, uma nau com as velas desfraldadas, e onde se podia ver, no seu interior, um homem ainda jovem, que aparentava ser uma figura importante, talvez um rei. As suas mãos estavam presas ao leme e o seu olhar estendia-se pelo horizonte. De repente, duas gaivotas, vindas do nada, desceram a pique sobre a embarcação e poisaram nos ombros de tão estranho e altivo marinheiro e um vento suave começou a fazer-se sentir, enquanto uma névoa gélida envolveu os espaços. Quase de seguida, o ribombar dum trovão assustou as aves que, num repentino esvoaçar, mergulharam por entre os cardos e desapareceram. A névoa tornou-se, ainda, mais baça. Num gesto determinado, o tal homem despegou os olhos do horizonte, apontou numa direcção precisa e a nau começou a movimentar-se nesse mesmo sentido.
Numa força concertada, os cardos começaram a remexer-se, enrodilhando-se, por vezes, uns nos outros, como que querendo impedir que a nau seguisse o seu rumo. Não lhes valeu de nada, porque uma força maior guiava o querer daquele homem que continuava com o dedo apontado numa direcção precisa.
A dada altura, a névoa, como que num gesto de magia, dissipou-se e uns quantos relâmpagos começaram a cruzar tudo em redor. Como que vinda não sei de onde, uma voz estridente e firme começou a ouvir-se:

«Levando a bordo El-Rei Dom Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto, o pendão
Do Império,
A última nau, ao sol da esperança
Regressa às praias de Portugal,
Na ânsia de erguer da noite
Um povo com alma
E que quer voltar a ser grande.»

Num esvoaçar aflito, as gaivotas assomaram à tona da água, ergueram-se no ar e seguiram o balouçar determinado da nau, ladeando-a, numa postura que mais parecia a de uma guarda de honra.
Meu Deus! Nessa altura um só pensamento me surgiu: «Afinal o nosso fatídico rei, não morreu nos campos de batalha de Alcácer-Quibir! Isto quer dizer que os bruxos, os adivinhos e o nosso grande poeta, que escreveu o seu livro “… à beira mágoa”, sempre tiveram razão, quando diziam que ele havia de regressar numa manhã de nevoeiro, para salvar Portugal.»
Sem que a minha vontade o desejasse, uma música descontextualizada trouxe-me para a realidade do quarto, fazendo com que o sonho que me envolvia se desvanecesse. Era o previdente despertador.
Reparei nas horas, levantei-me, abri a persiana e olhei o exterior. Da chuva diluviana da noite, apenas o molhado da vegetação em redor o indiciava, porque o amanhecer azulado do céu dava a entender que o dia iria trazer outro esplendor.
Ainda absorto no que advinha do meu dormir, não deixei de reparar no que os olhos me traziam lá do fundo daquele horizonte que acabara de acordar: uma nuvem em forma de barco, ladeada de duas aves que, num movimente lento, se moviam na minha direcção.
Claro que, na altura, da minha cabeça só podiam ter discorrido aquelas palavras, e que ainda guardo no entendimento: «Que estranho! Será que é o que estou a pensar?
Talvez a empregada da minha colega esteja com sorte.»

Carlos Afonso

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

500 ANOS COM 500 POEMAS (Fafe no coração)




            No dia 5 de novembro de 2013 comemoram-se os «500 anos do Foral de Monte Longo» concedido pelo rei D. Manuel I, data que os alunos e professores de Literatura Portuguesa da Escola Secundária de Fafe não querem deixar passar em claro. Assim, e porque Fafe o merece, ao longo do dia 5 de novembro, promovem o evento “500 anos com 500 poemas”.
            A partir do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (poeta, cronista e cortesão na corte de D. Manuel I), Ruy Monte, Soledade Summavielle e de outros poetas fafenses, os alunos de Literatura e respetivos professores convidam toda a população a aderir a esta causa poética e viver, de uma forma diferente, uma data tão importante para Fafe.
Em iniciativas organizadas ou em momentos mais íntimos, pegue num poema do Cancioneiro Geral ou de um poeta fafense à sua escolha, leia-o e deixe-se levar pela verdadeira SAUDADE portuguesa, igual à que se expressa na poesia palaciana que se segue, poesia da época em que D. Manuel I concedeu o Foral ao Concelho de Monte Longo:

Senhora partem tam tristes.
Meus olhos por vós, meu bem, 
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
Tam doentes da partida,
Tam cansados, tam chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida. 

Partem tam tristes os tristes,
Tam fora d’esperar bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

João Ruiz de Castelo Branco

**

(Nota: Se aderiu a esta maneira diferente de vivenciar uma data, e se achar por bem, diga-nos alguma coisa. Obrigado)




Carlos Afonso



domingo, 27 de outubro de 2013

E O CÉU FICOU AZUL PARA MARISA…



            Em todas as histórias que se vivem neste mundo de Deus, há sempre destinos e cores bem definidos para cada caminho traçado, independentemente das metas que se venham a atingir. Na verdade, cada ser humano é constantemente posto à prova, numa espécie de jogo de fim incerto, enrodilhado num permanente aglomerado de fios, gestos e sentimentos que, às vezes, sufocam e doem, mas também libertam. O caso de Marisa é um desses enredos em que o laço apertado do sofrimento foi confrontado de frente pela brisa da solidariedade e o céu ficou azul…
            A história que se segue é apenas o que meu coração sentiu no dia 27 de outubro de 2013, dia em que caminhei por uma causa maior. Dia em que, e já no fim da caminhada, na Capela de Casadela, de joelhos, roguei a Santa Luzia que tingisse de esperança e luz a vida dos que sofrem.
            Pouco passava das oito horas da manhã, e depois de uma noite razoavelmente bem dormida, quando o meu Renault Clio estacionou perto da Capela de Santo Amaro, em Quinchães. O que ali me trazia era o intento de participar numa iniciativa louvável para a ajudar a Marisa. Esta jovem mãe de dois filhos é uma das muitas vítimas que o cancro agarrou e não mais quis largar. A minha presença ali, assim como a da minha esposa que me acompanhava, e de muitas outras dezenas de pessoas, era mais do que um gesto simbólico de solidariedade. Nós estávamos ali para dizer que o nosso coração e pensamento estavam com Marisa.
            Em meu redor, as falas estavam em crescendo. As motas, bicicletas e jipes arribavam sem sessar. Uma música vinda do local da concentração expressava-se à sua maneira. Em bancas improvisadas, homens e mulheres de boa vontade faziam o melhor que sabiam para orientar quem chegava. Tudo parecia de acordo com o previsível.
Tudo não… Só céu estava apegado a uma cor cinzenta e triste, circunstância chata que incomodava os presentes e me fez carregar um impermeável durante toda a caminhada.  Ora bem! Se as nuvens denotavam uma melancolia indesculpável, a vontade de quem chegava, e cada vez eram mais, não esmorecia. Havia um objetivo a cumprir, acontecesse o que acontecesse.
Num começo de rua, num lugar alto que todos viam, uma facha de azul pintado, salpicado de um branco bem conseguido e algum preto, lia-se: Ajudar a Marisa. Era uma espécie de princípio de meta. Por todo o lado também eram visíveis pequenos prospetos e cartazes do mesmo azul e dizeres.
Quis visitar o interior da Capela de Santo Amaro, mas estava fechada. No meio da concentração, e se calhar poucos repararam, um imponente cruzeiro de granito marcava a sua presença. Naquela hora, e, se calhar, dadas as circunstâncias, olhei em pormenor para a cruz que perfazia o seu topo e lembrei-me do seu verdadeiro sentido. Ali estava ela, digna e sacra, mostrando o verdadeiro significado da vinda de Cristo ao mundo: sofrer para salvar.
            A dada altura, e tal qual um mar de água a quem abriram o correr inverso dos rios, tudo se esvaiu. Os jipes foram por um lado, as motas por outro, as bicicletas também se sumiram e quem ia a pé seguiu em frente.  
            Para quem, como eu, seguiu a pé, os quase seis quilómetros souberam a pouco. Ora pela estrada, ora por caminhos estreitos, ora a descer, ora a subir, os passos levavam cada um, e todos imbuídos pela causa que nos tinha trazido ali. Encontrei muitos conhecidos e outros que nunca tinha visto. Palavras e sorrisos foram trocados, assim como olhares e opiniões. A dada altura reparei numa rapariga que levava às cavalitas uma criança de poucos anos. O que a moveria para tal atitude? De facto o que ela estava a fazer, devia ser bem custoso, pois o seu corpo era demasiado franzino para tal carga…
            E porque é normal os percursos terem metas marcadas, chegámos a Casadela, por volta das onze da manhã, e o adro da capela de Santa Luzia acolheu-nos com sol. Não sei se foi o adro, se calhar foi a Santa, que lá de dentro da Capela, deixou sair a luz e nos ofertou o azul do céu, para que todos os olhos, que por aquele lugar se estendiam, vissem o que ali estava a acontecer!
Agora o céu já era azul! Do mesmo azul que pintava a facha que determinava o início, e agora, o fim da caminhada.
De um dos lados, e após o chamado, a verdadeira Marisa surgiu no meio dos que a esta Capela vieram por sua causa. De olhar agradecido e vago, aproximou-se de um dos homens que esteve na origem desta jornada de solidariedade. Este homem chama-se Alcides e, pelo que o mesmo contou, tudo começara quando o amigo Júlio Leite, e depois de este saber do que estava a acontecer com esta jovem mãe de Quinchães, o havia questionado:
- Não vamos fazer nada?
-Claro que vamos – respondeu de imediato, na altura, o Alcides, que tal como o Júlio, faz também o favor de ser meu amigo.
Das mãos do Alcides, e de outras mãos que se soltaram da multidão, Marisa recebeu as provas de um sentido gesto de partilha. O dinheiro que foi angariado para esta bela jovem poderá não ser o suficiente para lhe apagar a doença, mas, de certeza, irá contribuir para que os seus dias sejam mais azuis…
O casaco de Marisa também era azul…

Carlos Afonso










quinta-feira, 24 de outubro de 2013

UM POEMA PARA MARISA (cultura solidária)


Meu Deus!
A tarde está fria!

Não… não fiques triste!
Eu não entrego os passos a qualquer caminho
Que me queira afastar de ti…

Eu sei…
Que as tuas  lágrimas escorrem amargas
Nesse teu rosto de sorrisos…
Rosto que  sempre amei
Com estes olhos
 Que  veem em ti
As cores que sempre tiveste
E nunca me negaste!

Não… não escutes o destino das aves…
Não acredito…
Eles não sabem tudo…
Eles nem imaginam que amanhã começa a nossa primavera…
A primavera de todas as flores!

Carlos Afonso


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A CULTURA FAFENSE (da metáfora à realidade ou da realidade à metáfora)



            No caminhar dos dias de qualquer mortal há sempre uma tarde de outono chuvosa, e se for uma sexta ainda melhor, mais propícia para que nos sentemos no sofá da sala a ler o role de páginas, com mais ou menos atenção, que um jornal nos empresta. Como não podia ser de outra maneira, há sempre aquelas notícias que nos despertam uma atenção redobrada, principalmente se a matéria apresentada apela à nossa preocupação. E assim sendo, não admira que uma matéria desenvolvida no Notícias de Fafe, do dia 18 de outubro, me tenha obrigado a escrever estas linhas. O que por lá se dizia está relacionada com a cultura fafense e da desconfiança que um projeto em concreto, desenvolvido por uma força cultural da cidade, está a causar nos demais agentes culturais do concelho.
            Bem! E porque há sempre um ponto de partida, imediatamente se me desenharam no entendimento duas ou três questões e umas outras tantas respostas, “de mim para mim mesmo”, a condizer com a ocasião:
            - Já que gostas tanto de metáforas, emprega uma que, no teu entendimento, possa definir a face acertada da cultura a implementar em Fafe?
            - Um arranjo floral de beleza única, dentro da sua diversidade e cores.
            -Como?
            - Eu explico, já de seguida, em discurso indireto livre…
            Ora bem! Para quem anda nos meandros da cultura que se estende a nossos olhos por estas terras do Minho, imediatamente se apercebe que no concelho de Fafe há todo um conjunto de pessoas, instituições, organismos e associações com uma forte sensibilidade e engenho cultural. Uma sensibilidade e engenho que se denotam nas múltiplas e diversas atividades sonhadas e concretizadas em prol da preservação e divulgação da cultura fafense. Assim sendo, e independentemente de se morar na aldeia ou na cidade, no outeiro ou no vale, no bairro ou na praça mais arranjada, é clara uma vivência cultural forte e tingida de um amor bem fafense. Independentemente da forma mais ingénua ou profissional, do gosto mais erudito ou popular, do coração ou da razão, é visível um apego aos valores deste afincado pedaço de Portugal de verde granítico vestido. O problema, é que, às vezes, se vislumbram algumas atrapalhações e indefinições que impedem que toda esta grandeza cultural se mostre de igual forma e jeito, unida pelo mesmo sol e calor. Até parece que há uma certa ilegitimidade de nascença, intencional ou não, que não deixa mostrar tudo o que há para ver.
            Sempre que temos o prazer de olhar para a beleza de um arranjo floral, engalanado num misto de flores silvestres e de flores com nome, encostadas a verdes colhidos na hora ou secos de véspera, fascinamo-nos pela sua completude e diferença. A beleza que à nossa frente se mostra assenta na totalidade dos elementos que compõem o arranjo, sem que a intelectualidade da orquídea se sobreponha à leveza da papoila, ou o perfume da rosa ofusque a cor da bonina.
            Falando da cultura, convém que se diga que todas as vontades de desenvolver a cultura em Fafe são necessárias e recomendadas para o bom nome da nossa terra. Criem-se ou acrescentem-se termos em forma adjetival ou nominal, Fafe está sempre primeiro. Chame-se «Fafe, Cidade das Artes» ou «Fafe dos Brasileiros», Fafe será sempre o motor essencial que rege toda uma alma e um coração que palpitam e querem viver. Todos somos bem-vindos para uma tarefa maior: FAFE.
            É preciso unir as diversas flores do arranjo floral que é Fafe, dando visibilidade igual a todos os canteiros donde a cultura fafense se eleva. Haja a capacidade e a vontade de o conseguir, para o bem de uma terra que todos amamos, independentemente do lugar onde se nasce, pois o amor não se herda, conquista-se, e precisa, constantemente, de ser alimentado.
            Todos juntos chegaremos muito longe, neste jardim em pleno Minho plantado, que espera, ansioso, por uma primavera plena e amena, e uma ação concertada dos seus jardineiros.
Parafraseando o meu amigo J.J.Silva, e em forma de conclusão: «A melhor forma de existir é fazer», para que o manhã seja, em todas as horas, o fim da noite e o início de uma confiança a realizar.

Carlos Afonso



           

            

domingo, 13 de outubro de 2013

O MISTÉRIO DO ESPIGUEIRO DE VÁRZEA COVA...




            Nos muitos lugares que povoam a província do Minho, em Portugal, acontecem coisas de uma realidade tão misteriosa que, muitas vezes, se transformam em histórias sem tempo, que a sabedoria do nosso povo considera suas e guarda-as com muita fé. E porque o que acabei de dizer tem sentido, vou contar-vos o que aconteceu há poucos anos atrás, numa tarde de outono, em Várzea Cova, freguesia do concelho de Fafe, perto de um dos espigueiros mais belos que conheço. Convém também acrescentar que, em todos os outonos, e desde essa altura, que costumo reviver o sucedido, pois faço questão de ali me deslocar faça sol ou não.
            Tenho quase a certeza que era de manhã, quando a minha amiga Fátima Caldeira me telefonou para saber se eu queria participar na Rota da Desfolhada, organizada pelos Restauradores da Granja. Depois de me explicar por alto do que é que constava o dito evento, imediatamente acedi em participar. Como as minhas palavras do segundo período do primeiro parágrafo já indiciaram, esta conversa de amigos passou-se há uns anos atrás, penso que em 2011.
Como o outono ainda não de despegara do verão tardio, o sol bem temperadinho permitiu que eu usufruísse de todos os segundos desse dia, dia da Rota da Desfolhada: quer fosse pelos caminhos da rota, estendidos pelo denso carvalhal; quer fosse bem dentro das ruelas, encostadas ou apegadas ao eterno casario granítico de Bastelo; quer fosse já junto do tal espigueiro, habitante pedra e madeira construído de uma antiga quinta, bem no coração de Várzea Cova.
Para quem não tenha na memória, um espigueiro, também chamado canastro, ou caniço, é uma estrutura normalmente de pedra e madeira, existindo no entanto alguns inteiramente de pedra, com a função de secar o milho grosso através das fissuras laterais, e ao mesmo tempo impedir a destruição do mesmo por roedores através da elevação deste. Como o milho requer que seja colhido no outono, este precisa de estar o mais arejado possível para secar numa estação tão adversa como o Inverno.
Voltando à história, e para que o leitor não se perca, acrescento que estava eu já a deliciar-me com a recriação da desfolhada por parte do Rancho Folclórico de Fafe, e depois de usufruir do vasto merendeiro dos caminheiros de Estorãos, quando, de repente, escuto:
- Professor, se não se importa, eu queria apresentar-lhe a minha prima. Ela aprecia muito a poesia e gostaria de lhe declamar um poema.
Claro que eu não me importei…
Uma forte emoção fez-me engolir a última gota de um verde branco que ainda se agarrava à minha garganta. Bem ao meu lado, um imponente espigueiro apercebeu-se da minha admiração e estendeu-me um pouco da sua sombra. Sem mais, escutei…
A menina tinha apenas cinco anos, ainda não andava na escola primária, chamava-se Inês Alves e declamou um e depois outro poema de uma maneira tão acertada e ingénua, como eu nunca havia escutado! Os seus olhos eram vivos como a aragem que costuma varrer aqueles sítios! Os seus cabelos eram da cor do sol! O seu sorriso era lindo! A sua atitude era traquina e florida! E um dos poemas era de Fernando Pessoa! Meu Deus, que emoção e verdade!
Acabada a exposição desta douta criancinha, tingida de um brilho de tempo fino bem outonal, o atento espigueiro deu-me mais um pouco da sua sombra, chamou-me para si e segredou-me, também ele, algo que eu jamais esquecerei tanto nesta vida como na outra que, julgo eu, há de vir.
Se as poesias que a Inês Leite foram escutadas por mais ouvidos, o que o espigueiro de Várzea Cova me contou, ninguém mais escutara.
E ele, como qualquer bom contador de histórias, narrou assim:   
«Era uma vez um grande rio que desaguava todas as horas num mar imenso. Das muitas belezas de que esse rio se gabava sempre que alguém ou alguma coisa o questionava acerca do seu papel como alimentador de mares, ele respondia numa voz húmida, soberba e clara:
- Tenho um grande caudal. As minhas margens são acertadas. Os navios que nelas navegam são belos e luxuosos. Nas minhas entranhas passeiam-se saborosos peixes de prata. Em meu redor crescem cidades de muitos homens e…
Nunca, e em nenhuma ocasião, esse rio se orgulhou da singela e pura nascente que lhe dera a vida inicial ou dos seus pequenos e anónimos afluentes.
            Um dia, Deus, já farto de tanta gabarrice e orgulhos egoístas, decidiu secar-lhe a nascente e desviar-lhe os afluentes para outros sítios.
Coitado do grande rio! Morreu à sede e caiu no esquecimento.»
Amigos leitores, a mensagem que esta pequena história, contada bem ali por um espigueiro que sabia falar, pareceu-me um mistério no início, mas que, passado um bocado, eu entendi na perfeição. Na verdade o que ele me quis passar para as mãos enquadra-se perfeitamente na vivência dos homens, caso estes se esqueçam de olhar na direção de onde vieram.
            O que será de um país dito desenvolvido, quase todo online, rodeado de muito alcatrão, repleto de mentes praticamente brilhantes, frangos congelados e outros enfeites importados diretamente da China, se ignora as suas raízes? De certeza que agoniza e apodrece, enrodilhado em cheiros de plástico, pois até o esterco perderá o seu perfume.
O verdadeiro país é aquele que trepa as escadas do futuro sem se desprender das nascentes que o trouxeram ao mundo. O verdadeiro país é aquele que ainda sabe que a broa autêntica não prescinde da farinha milha e o arroz de feijão combina, na perfeição, com um bom naco de carne de porco cozida, daquela entremeada e previamente salgada.
E foi assim, e depois de escutar o que o espigueiro deixou escapar bem de dentro das suas paredes, que a minha sina me levou a tentar fazer das Jornadas Literárias de Fafe um marco bem para além da poesia e das palavras escritas por poetas com nome.
E foi assim, e depois de escutar o que o espigueiro deixou escapar bem de dentro das suas paredes, que a minha sina me levou a pedir ajuda a todas as pessoas que amam a nossa tradição e memórias, e construir nesta terra bendita, onde gosto de morar, algo, ou muito mais do que isso, que engrandeça as verdadeiras nascentes e afluentes das terras de Fafe de hoje e FAZER DO PASSADO A FORÇA VIVA DE UM PRESENTE FUTURO.

(Nota: Todos os anos, em todos os outonos, vou a Várzea Cova, freguesia de Fafe, no dia da Rota da Desfolhada, organizada pelos incansáveis Restauradores da Granja, partilhar confidências com o espigueiro que fala, e que só eu escuto…)


Carlos Afonso