domingo, 13 de outubro de 2013

O MISTÉRIO DO ESPIGUEIRO DE VÁRZEA COVA...




            Nos muitos lugares que povoam a província do Minho, em Portugal, acontecem coisas de uma realidade tão misteriosa que, muitas vezes, se transformam em histórias sem tempo, que a sabedoria do nosso povo considera suas e guarda-as com muita fé. E porque o que acabei de dizer tem sentido, vou contar-vos o que aconteceu há poucos anos atrás, numa tarde de outono, em Várzea Cova, freguesia do concelho de Fafe, perto de um dos espigueiros mais belos que conheço. Convém também acrescentar que, em todos os outonos, e desde essa altura, que costumo reviver o sucedido, pois faço questão de ali me deslocar faça sol ou não.
            Tenho quase a certeza que era de manhã, quando a minha amiga Fátima Caldeira me telefonou para saber se eu queria participar na Rota da Desfolhada, organizada pelos Restauradores da Granja. Depois de me explicar por alto do que é que constava o dito evento, imediatamente acedi em participar. Como as minhas palavras do segundo período do primeiro parágrafo já indiciaram, esta conversa de amigos passou-se há uns anos atrás, penso que em 2011.
Como o outono ainda não de despegara do verão tardio, o sol bem temperadinho permitiu que eu usufruísse de todos os segundos desse dia, dia da Rota da Desfolhada: quer fosse pelos caminhos da rota, estendidos pelo denso carvalhal; quer fosse bem dentro das ruelas, encostadas ou apegadas ao eterno casario granítico de Bastelo; quer fosse já junto do tal espigueiro, habitante pedra e madeira construído de uma antiga quinta, bem no coração de Várzea Cova.
Para quem não tenha na memória, um espigueiro, também chamado canastro, ou caniço, é uma estrutura normalmente de pedra e madeira, existindo no entanto alguns inteiramente de pedra, com a função de secar o milho grosso através das fissuras laterais, e ao mesmo tempo impedir a destruição do mesmo por roedores através da elevação deste. Como o milho requer que seja colhido no outono, este precisa de estar o mais arejado possível para secar numa estação tão adversa como o Inverno.
Voltando à história, e para que o leitor não se perca, acrescento que estava eu já a deliciar-me com a recriação da desfolhada por parte do Rancho Folclórico de Fafe, e depois de usufruir do vasto merendeiro dos caminheiros de Estorãos, quando, de repente, escuto:
- Professor, se não se importa, eu queria apresentar-lhe a minha prima. Ela aprecia muito a poesia e gostaria de lhe declamar um poema.
Claro que eu não me importei…
Uma forte emoção fez-me engolir a última gota de um verde branco que ainda se agarrava à minha garganta. Bem ao meu lado, um imponente espigueiro apercebeu-se da minha admiração e estendeu-me um pouco da sua sombra. Sem mais, escutei…
A menina tinha apenas cinco anos, ainda não andava na escola primária, chamava-se Inês Alves e declamou um e depois outro poema de uma maneira tão acertada e ingénua, como eu nunca havia escutado! Os seus olhos eram vivos como a aragem que costuma varrer aqueles sítios! Os seus cabelos eram da cor do sol! O seu sorriso era lindo! A sua atitude era traquina e florida! E um dos poemas era de Fernando Pessoa! Meu Deus, que emoção e verdade!
Acabada a exposição desta douta criancinha, tingida de um brilho de tempo fino bem outonal, o atento espigueiro deu-me mais um pouco da sua sombra, chamou-me para si e segredou-me, também ele, algo que eu jamais esquecerei tanto nesta vida como na outra que, julgo eu, há de vir.
Se as poesias que a Inês Leite foram escutadas por mais ouvidos, o que o espigueiro de Várzea Cova me contou, ninguém mais escutara.
E ele, como qualquer bom contador de histórias, narrou assim:   
«Era uma vez um grande rio que desaguava todas as horas num mar imenso. Das muitas belezas de que esse rio se gabava sempre que alguém ou alguma coisa o questionava acerca do seu papel como alimentador de mares, ele respondia numa voz húmida, soberba e clara:
- Tenho um grande caudal. As minhas margens são acertadas. Os navios que nelas navegam são belos e luxuosos. Nas minhas entranhas passeiam-se saborosos peixes de prata. Em meu redor crescem cidades de muitos homens e…
Nunca, e em nenhuma ocasião, esse rio se orgulhou da singela e pura nascente que lhe dera a vida inicial ou dos seus pequenos e anónimos afluentes.
            Um dia, Deus, já farto de tanta gabarrice e orgulhos egoístas, decidiu secar-lhe a nascente e desviar-lhe os afluentes para outros sítios.
Coitado do grande rio! Morreu à sede e caiu no esquecimento.»
Amigos leitores, a mensagem que esta pequena história, contada bem ali por um espigueiro que sabia falar, pareceu-me um mistério no início, mas que, passado um bocado, eu entendi na perfeição. Na verdade o que ele me quis passar para as mãos enquadra-se perfeitamente na vivência dos homens, caso estes se esqueçam de olhar na direção de onde vieram.
            O que será de um país dito desenvolvido, quase todo online, rodeado de muito alcatrão, repleto de mentes praticamente brilhantes, frangos congelados e outros enfeites importados diretamente da China, se ignora as suas raízes? De certeza que agoniza e apodrece, enrodilhado em cheiros de plástico, pois até o esterco perderá o seu perfume.
O verdadeiro país é aquele que trepa as escadas do futuro sem se desprender das nascentes que o trouxeram ao mundo. O verdadeiro país é aquele que ainda sabe que a broa autêntica não prescinde da farinha milha e o arroz de feijão combina, na perfeição, com um bom naco de carne de porco cozida, daquela entremeada e previamente salgada.
E foi assim, e depois de escutar o que o espigueiro deixou escapar bem de dentro das suas paredes, que a minha sina me levou a tentar fazer das Jornadas Literárias de Fafe um marco bem para além da poesia e das palavras escritas por poetas com nome.
E foi assim, e depois de escutar o que o espigueiro deixou escapar bem de dentro das suas paredes, que a minha sina me levou a pedir ajuda a todas as pessoas que amam a nossa tradição e memórias, e construir nesta terra bendita, onde gosto de morar, algo, ou muito mais do que isso, que engrandeça as verdadeiras nascentes e afluentes das terras de Fafe de hoje e FAZER DO PASSADO A FORÇA VIVA DE UM PRESENTE FUTURO.

(Nota: Todos os anos, em todos os outonos, vou a Várzea Cova, freguesia de Fafe, no dia da Rota da Desfolhada, organizada pelos incansáveis Restauradores da Granja, partilhar confidências com o espigueiro que fala, e que só eu escuto…)


Carlos Afonso

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

PROMOVER E VIVER A CULTURA É UMA OBRIGAÇÃO DE TODOS NÓS…



Numa das minhas caminhadas pela cidade de Fafe, terra que me fascina pela sua grandiosidade humana, paisagem, casario, história, tradições e sentido hospitaleiro, encontrei um velho amigo que, e a partir da nossa conversa atenta e demorada, me fez olhar bem longe e partilhar com ele o que eu gostaria de ajudar a promover, culturalmente, em Fafe, nos próximos tempos. A tarde com alguma chuva e uma ceta nebelina não muito incomodativa, levou-nos até ao Café Arcada e colocou-nos à vontade. Dois cafés, um para cada um, claro está, foram o princípio de tudo. Depois foi falar, confidenciar e partilhar vivências. O que eu vou contar ao amigo leitor é apenas uma pequena parte do montão de palavras que utilizamos.
Todos nós sabemos que em Fafe há uma grande dinámica cultural, graças ao engenho, visão e capacidade organizativa das nossas associações, instituições, freguesias e município. Não admira, por isso, que esta terra tenha sido, ao longo dos anos, palco de iniciativas culturais de relevo. Ora bem, se assim é, e principalmente quando a alma fafense se une em torno de causas maiores, tudo vai mais longe e as flores não precisam da primavera para florescer.
Depois de assuntos variados e como que introdutórios, a dada altura, uma pergunta mais direta do meu companheiro de mesa, fez com que eu parasse um pouco para pensar, para, logo de seguida, lhe responder com bastante convicção.  O que ele me perguntou, de uma forma tão afouta e intencional, fez com que eu sorrisse um pouco e decorasse toda a frase, pormenor que nem sempre acontece.
“- Ó Carlos, quais são as iniciativas culturais que este ano ou no próximo gostarias de organizar?”
E eu respondi:
“- Meu amigo, como tu sabes, a minha forma de ver a cultura e o fervor com que me apego ao seu significado, conduzem-me, constantemente, por águas não muito profundas, águas que não me impedem de passar de um lado para o outro de quaisquer margens.
O ser membro efetivo de algumas associações do concelho e relacionar-me bem com as outras, o ser professor de alunos empenhados e tão sonhadores como eu e o partilhar anseios culturais com muitos amigos com quem privo todos os dias, como é o teu caso, fazem com que te diga de viva voz o que te quero, desde já dizer.
Eu sei que alguns eventos serão mais viáveis de concretizar do que outros, devido a muitas circunstâncias, mas como é só para de dizer o que gostaria  de fazer e mais nada, aqui vai:
- organizar uma antologia literária dos escritores fafenses; promover eventos centrados em autores da nossa terra; criar uma revista cultural alinhada com os interesses culturais fafenses; favorecer um concurso de poesia entre escolas; fazer das Jornadas Literárias de Fafe um marco literário reginal e nacional; dar asas a Fafe dos Brasileiros (inspirado no nosso saudoso Miguel Monteiro), em que a nossa etnografia e memórias fizessem com que o sol da cultura aquecesse todo o concelho e trouxesse muitos milhares de visitantes a Fafe, situação ideal para revitalizar espaços materiais e imateriais; dar a azo a que o roteiro camiliano (Camilo Castelo Branco) se materializasse de vez e os caminhos por onde o escritor andou ganhassem mais vida; contribuir positivamente para que em Fafe de definisse um programa cultural geral e comum, que desse oportunidades iguais a todos a sassociações e demais agentes culturais do concelho e …
- Não achas que estás a exagerar? Como é que achas que conseguirias ir tão longe? Onde é que arranjarias tempo e forças para tanta coisa? Quem é que alinharia nesse teu montão de vontades? – argumentou o meu parceiro de conversa, impedindo, assim, de eu continuasse a desfiar o meu rosário de iniciativas sonhadas e ansiadas.
- Sei lá – respondi eu, depois de pensar um pouco. - Bem, pelo memos podiamos concretizar algumas destas ações, bastando apenas a vontade e o acreditar das forças vivas do nosso concelho, e um grande espírito de união e força. E como tu já viste nos anos anteriores, em alguns momentos, isso foi possível…
- Na verdade …”
A nossa conversa à mesa do Café Arcada ainda continuou por mais algum tempo, mas vou ficar por aqui, porque o meu querido leitor, com certeza, tem mais que fazer. No entanto, só um pedido sincero, Leiam outra vez o que eu acabei de escrever e reflitam na mensagem que podem deduzir da ousadia destas minhas palavras… Afinal, o sonho é o princípio de tudo, principalmente quando se mora numa terra que ama a cultura e em que a paisagem que a decorra é da mesma cor da esperança…


Carlos Afonso

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O POVO E A FÉ



Em Parada, Alfândega da Fé, a terra onde nasci, aconteceu algo de extraordinário e único. Pela primeira vez, em mais de 200 anos, não se realizou a tradicional festa de Santo Antão da Barca, na Ermida de Santo Antão, porque, neste momento, está a ser transladada para um outro lugar por causa da barragem do Baixo Sabor. Assim sendo, o festa anual decorreu na aldeia de Parada, porque a fé em santo Antão, Nossa Senhora dos Remédios e o Divino Senhor da Barca é sentida por todo um povo que habita aquelas paragens. Foi uma festa linda, diferente e muito emotiva.
Eu estive presente e vivi o momento com intensidade.
E porque o rio Sabor, rio que para mim é o rio mais belo, vai ser desconfigurado por causa da barragem, deixo aqui um simples poema de amor a tão grandioso rio.

Ó Rio da Minha Memória

Nasceste nos Montes de León
E seguiste o sonho de ser um rio,
Igual a esses heróis sem medo, 
Desenhados pelas garras afiadas dum destino,
Que no Verão te empresta as sedes das ribeiras,
E no Inverno as enxurradas e o frio.

Ó rio da minha memória, 
Como as minhas mãos tremem,
Quando o rosmaninho florido das ladeiras
Lhes conta que te querem roubar as margens,
E esconder-te em estranhos recantos
Que não fazem parte da tua história! 

Eu sei que eles são mais fortes do que o vento desvairado
E que os seus interesses não cabem 
Debaixo desse fraguedo com importância, 
Que sempre te olhou amplo de inveja.
Mas… não chores!
Mostra-lhes que os rios não morrem
E que és o dono da minha alada infância!

Para mim, serás sempre o rio da minha aldeia,
O passado que não quero olvidar,
O caminho que conduz o tropeçar gasto dos meus passos,
E a vida que continua a florescer 
À tona molhada do teu eterno desaguar.

Meu Sabor, digam o que disserem e façam o que fizerem,
Serás, sempre: livre e leve como as aves a quem deste de beber;
Agreste e doce como os montes que embalaste;
Esbelto e luzidio como os peixes que em ti cresceram,
Verdadeiro e franco como os luares que no teu leito se deitaram
E em ti, num martírio meigo, se afogaram,
Quando as noites mais escuras não os quiseram Acordar.

Carlos Afonso.

sábado, 24 de agosto de 2013

NO REINO DO FOGO








(Este conto baseia-se em factos reais e escrevi-o com o objetivo de homenagear o espírito heróico e altruísta dos bombeiros que, na sua luta com o fogo, muitas vezes sacrificam as suas próprias vidas.)

                                                           “Por cada soldado romano que caia em combate, um outro imediatamente de alista. É esta a nossa força”
      General romano

            Ana Luísa nasceu numa vila de província e em criança idealizara ser bombeira (para poder apagar fogos – dizia ela), sonho que nunca se efetivou, porque os seus pais não partilhavam dessa vontade. Os anos foram passando, e agora com vinte e quatro anos, e estudante bem-sucedida de medicina, a jovem já quase não se lembrava do que quisera ser no passado. Mas, e porque o destino já tinha sido marcado há muito, um sonho arrebatador fez com que algo mudasse. Era agosto, do ano de 2013, e a praga dos incêndios massacrava Portugal. (…)
            Ana Luísa, com o caminhar dos anos, e com o sonho de ser bombeira para apagar fogos a desvanecer-se, foi desenvolvendo toda uma capacidade humana de acordo com o espírito da solidariedade e entreajuda, e que fazia dela uma rapariga amada por todos. Gostava de ajudar nos peditórios a favor dos mais desfavorecidos, era escuteira e, na sua paróquia do Minho interior, era catequista. Nossa Senhora de Fátima era a sua entidade sagrada mais querida.
Possuidora de um corpo esbelto, feminino e bem atlético, a natação era um dos seus desportos favoritos. Na verdade, ela era uma nadadora de excelência, pormenor importante que contribuiu, há dois anos atrás, para o salvamento de dois irmãos, numa praia de Vila do Conde, quando, e sem qualquer medo, se lançou às águas e humilhou a fúria repentina do grande oceano Atlântico. O obrigado comovido da família dos jovens irmãos salvos e o sorriso de quem por ali estava foram a sua paga. Ela, com os seus olhos cor de mar, claro está, achou que não fizera mais do que a sua obrigação.
É nesta cidade, onde o rio Ave se entrega ao mar, a toda a hora que passa, que Ana Luísa costuma passar as suas férias de verão. E foi também nesta terra de terra, vento e mar que conheceu o amor da sua vida, o José Luís, um rapaz de Guimarães e estudante de engenharia. Os dois viviam uma relação de namorados felizes e amantes de maresia.
            Ora bem, voltando atrás nesta história, e principalmente ao final do primeiro parágrafo, dizia eu que um sonho inquietante fez com que a vida de Ana Luísa mudasse. Como também acrescentava que estávamos em agosto, do ano de 2013, e que a praga dos incêndios massacrava Portugal.
Nessa noite de agosto a jovem até não se deitara tarde, mas algo de estranho aconteceu. Envolvida num sono profundo, um sonho soltou-se-lhe da existência e mostrou-lhe uma outra realidade que, por sinal, não lhe era totalmente estranha. Assim, e sem saber bem porquê, viu-se, na companhia de um grupo de colegas bombeiros, a digladiarem-se ferozmente contra um mar de chamas na encosta de uma serra do centro de Portugal. A dada altura, e porque o vento é um dos inimigos mais inconstantes dos bombeiros, uma mudança súbita da sua trajetória, fez com que o grupo de bombeiros ficasse cercado e tomados de um descontrole natural. Parecia mesmo que estavam no reino do fogo. O fumo era imenso, a fome das labaredas lambiam tudo à sua passagem e, de repente, Ana Luísa perdeu o contacto com os companheiros. Tomada pelo pânico ainda tentou gritar, mas a voz não lhe saiu da garganta e tudo ficou da cor do inferno e da morte. Num último ânimo, lembrou-se de Nossa Senhora e os seus olhos, como por milagre, abriram-se e… afinal tudo estava bem. Tudo não passara de um sonho bem do tamanho de um pesadelo. Levantou-se da cama, foi para o quarto de banho e meteu-se debaixo do chuveiro de água fria, como que para pagar a angústia que ainda há pouco a queimava em plena serra, rodeado de fogo e de aflição por todo o lado.
Mas como é que se pode explicar este sonho da jovem estudante de medicina? Qual será o seu real significado? Uma coisa é certa, em criança, Ana Rita quisera ser bombeira, mas os pais não lho permitiram e a ideia havia-se-lhe varrido da lembrança. Porquê agora isto?
Já recomposta do que havia acontecido durante a noite, as horas seguintes foram mais calmas, mas uma notícia da televisão, proferida por uma locutora ansiosa, fez com que Ana Luísa se erguesse repentinamente do sofá e ficasse a tremer como varas verdes.
- «Mais uma morte de um bombeiro. Desta vez foi na serra do Caramulo. Apanhados por uma mudança súbita do vento, um grupo de bombeiros viu-se rodeada pelas chamas e uma jovem bombeira da corporação de Alcabideche perdeu a vida. O seu nome era Ana Rita e…»
- Minha Nossa Senhora de Fátima, parece igual ao meu sonho. Mas o que é que está a acontecer? E a bombeira também se chama Ana, tal como eu e tem a minha idade, vinte e quatro anos – acudiu, em tom de aflição, a jovem estudante de medicina, quase petrificada com tão absurda coincidência.
Dois dias passaram, e durante a tarde, no quartel de bombeiros do seu concelho, a Ana Luísa pede licença para entrar, para quase de seguida perguntar se se pode inscrever como bombeira voluntária. O senhor que a recebera, um homem com alguma idade que, na altura estava a ouvir com uma atenção redobrada na rádio a informação do funeral da tal rapariga bombeira que havia morrido na serra do Caramulo, com um semblante entristecido, perguntou-lhe, instintivamente:
- Qual o seu nome e qual a sua idade?
- Chamo-me Ana e tenho vinte e quatro anos.
Meio confuso, o homem olhou para o rádio donde advinha a notícia do funeral, depois olhou para a candidata a bombeiro, e depois de repetir os movimentos do seu olhar vezes sem conta, ora para o rádio ora para a rapariga que estava à sua frente, deu dois passos e abraçou Ana Luísa. Com as lágrimas a banhar-lhe o rosto, disse de uma forma comovida e quase feliz:
- Seja bem-vinda, Ana. Este quartel é seu…

Carlos Afonso

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Desfile de «Traje de Palha» para promover uma das maiores tradições de Fafe…

Desde sempre que o homem sabe que a sua sobrevivência passa pelo preservar das suas raízes, pois, se assim não fosse, há muito tempo que o futuro havia perdido a noção do seu passado. Quer isto dizer que um povo com memória é um povo com horizontes definidos no amanhã. E é por isso mesmo que em Travassós, uma das freguesias mais antigas de Fafe, uma feliz ideia, única em Portugal, está a ser trabalhada para que a tradição ancestral de trabalhar a palha não caia em desuso. Assim, um original e criativo concurso/desfile de traje de palha, na noite de sexta-feira, dia 23 de agosto, inserida nas festividades da Senhora da Graça, está a atrair todas as atenções. Não nos podemos esquecer que Travassós é famosa pela tradição na confeção dos chapéus de palha. O concelho de Fafe já foi fértil em produções artesanais de artigos variados, onde a palha assumiu uma importância maior. Fafe já o maior produtor e exportador de chapéus de palha do país. Infelizmente, os artesãos foram envelhecendo, desaparecendo, muitos deles, cansados de não verem a sua arte devidamente reconhecida e muito menos compensada financeiramente. E é o que estava acontecer com a arte de trabalhar a palha, situação que as gentes de Travassós querem combater. Não só querem fomentar a produção de chapéus, como anseiam criar novos produtos, como, por exemplo, variadas roupas feitas a partir da palha. Antigamente, era usual ver as mulheres a fazer a trança de palha, enquanto caminhavam de um lugar para o outro, aproveitando para fazer recados ou até simplesmente conversar, ou então nos serões das suas casas, enquanto os seus dedos ágeis entrelaçavam as palheiras. Nas terras de Fafe, os chapéus de homem tinham uma aba e uma fita azul, os das mulheres do campo tinham uma aba larga e eram rematados com a trança de “repenic” e não tinham nenhum adorno, o objetivo destes chapéus, era simplesmente proteger do sol a cara e a cabeça das pessoas que andavam na lida do campo. Para as meninas, haviam de vários tipos, desde o mais simples ao mais trabalhado. A palha para os chapéus, e agora para novas criações que estão na forja, vem da“ ferrã do centeio”. Depois de cortada, a palha é posta às faixas ou aos molhos. O passo seguinte é o corte, o qual vai dividir a palha em “adições “que são: «A da ponta, a do elo, a de nylon, a de repenic, a peixeira, o trancelim e a de renda. A trança de renda que é feita com 6 palheiras, a trança peixeira é feita com 7 palheiras, a de trancelim é feita com 5 palheiras, a de nylon é feita com 3 palheiras e a de repenic com três. E ainda se faz trança com 9, 7 e de 11 palheiras. As tranças são feitas sempre em número ímpar com exceção da trança de renda. A palha depois de cortada é demolhada, para ficar maleável para mais facilmente ser trabalhada.» Sem sombra de dúvida que a iniciativa cultural de promover um concurso/desfile de «Traje de palha» é uma forma muito interessante de preservar a tradição de trabalhar a palha, assim como uma nova maneira de recriar e adaptar às novas realidades todo um passado ainda vivo. O turismo e a nova visão da palha podem, assim, surgir unidos em favor de Fafe, com o sentido posto no mundo. Pessoalmente, terei muito gosto em estar presente, e espero que as forças vivas do concelho também o façam, pois é do progresso de Fafe que estamos a falar.

 Carlos Afonso

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

ABOIM, O OLHAR SINCERO DO MINHO








Na passada noite, do dia 8 de agosto, o centro da aldeia de Aboim, em Fafe, engalanou-se festivamente para receber a apresentação da monografia «Santa Maria de Aboim, o Olhar Sincero do Minho».
Com coordenação do professor Carlos Afonso, a monografia deu-se a conhecer a muitas dezenas de aboinenses e outros tantos visitantes que fizeram questão de estar presentes.
«Santa Maria de Aboim, o olhar sincero do Minho» apresenta toda uma estrutura inovadora, tendo em conta que se está a falar de uma monografia. Na verdade, toda a dinâmica da obra mostra a história, a paisagem, as memórias, as tradições, a ficção e variados testemunhos em primeira pessoa interligados de uma forma perfeita. Prefaciada pelo Presidente da Câmara, Dr. José Ribeiro, a publicação resulta de uma coautoria de vários autores de Fafe. Assim, a nível da história, conta com os investigadores Daniel Bastos, Artur Leite e Artur Coimbra. A nível da antropologia, monumentos e arqueologia, encontram-se trabalhos do Dr. Jorge Miranda e de Jesus Martinho. Quanto à imagem e fotografia, Jesus Martinho, Manuel Meira e António Novais mostram o que de bom existe naquelas terras. No que diz respeito à narrativa, e para além de vários testemunhos de vida em primeira pessoa, uma novela do escritor Carlos Afonso espraia-se por grande parte do livro, sempre interligada com o que se vai desenvolvendo. Também o trabalho dos jovens João Marques e Hugo Novais, no âmbito da técnica e investigação enriquecem a monografia. A paginação e impressão estiveram a cargo de Manuel Carneiro da Gráfica do Norte – Amarante. A edição é da Junta de Freguesia e conta com o apoio da Câmara Municipal de Fafe.
A noite de 8 de agosto, para além da apresentação do livro, contou com um interessante e participado evento cultural, todo ele construído com a população da freguesia de Aboim, sob orientação técnica dos jovens Hugo Novais e João Marques, a partir de um guião assinado por Carlos Afonso. De cariz religioso e profano, todo o acontecimento cultural se centrou nas tradições, usos e memórias de um povo que habita estas paragens, fazendo-se, assim, a evocação de um passado, ainda bem presente. O misticismo da Senhora das Neves, a fé em Santa Maria, a música das concertinas, os cantares ao desafio, as recriações e testemunhos de vida foram os itens essenciais parta tamanho sucesso.
Para todos os presentes, a noite de quinta-feira foi mágica e única, prova evidente de que uma cultura participada e genuína, em comunhão com as populações, instituições, associações, juntas e município é um caminho útil a seguir.
Parabéns a todos os participantes nestas manifestações culturais, principalmente à Junta de Freguesia de Aboim que muito tem feito pelo futuro do Minho profundo.


Carlos Afonso