quarta-feira, 11 de setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O POVO E A FÉ
Em Parada, Alfândega da Fé, a terra onde nasci, aconteceu algo de extraordinário e único. Pela primeira vez, em mais de 200 anos, não se realizou a tradicional festa de Santo Antão da Barca, na Ermida de Santo Antão, porque, neste momento, está a ser transladada para um outro lugar por causa da barragem do Baixo Sabor. Assim sendo, o festa anual decorreu na aldeia de Parada, porque a fé em santo Antão, Nossa Senhora dos Remédios e o Divino Senhor da Barca é sentida por todo um povo que habita aquelas paragens. Foi uma festa linda, diferente e muito emotiva.
Eu estive presente e vivi o momento com intensidade.
E porque o rio Sabor, rio que para mim é o rio mais belo, vai ser desconfigurado por causa da barragem, deixo aqui um simples poema de amor a tão grandioso rio.
Ó Rio da Minha Memória
Nasceste nos Montes de León
E seguiste o sonho de ser um rio,
Igual a esses heróis sem medo,
Desenhados pelas garras afiadas dum destino,
Que no Verão te empresta as sedes das ribeiras,
E no Inverno as enxurradas e o frio.
Ó rio da minha memória,
Como as minhas mãos tremem,
Quando o rosmaninho florido das ladeiras
Lhes conta que te querem roubar as margens,
E esconder-te em estranhos recantos
Que não fazem parte da tua história!
Eu sei que eles são mais fortes do que o vento desvairado
E que os seus interesses não cabem
Debaixo desse fraguedo com importância,
Que sempre te olhou amplo de inveja.
Mas… não chores!
Mostra-lhes que os rios não morrem
E que és o dono da minha alada infância!
Para mim, serás sempre o rio da minha aldeia,
O passado que não quero olvidar,
O caminho que conduz o tropeçar gasto dos meus passos,
E a vida que continua a florescer
À tona molhada do teu eterno desaguar.
Meu Sabor, digam o que disserem e façam o que fizerem,
Serás, sempre: livre e leve como as aves a quem deste de beber;
Agreste e doce como os montes que embalaste;
Esbelto e luzidio como os peixes que em ti cresceram,
Verdadeiro e franco como os luares que no teu leito se deitaram
E em ti, num martírio meigo, se afogaram,
Quando as noites mais escuras não os quiseram Acordar.
Carlos Afonso.
sábado, 24 de agosto de 2013
NO REINO DO FOGO
(Este conto baseia-se em factos reais e escrevi-o com o
objetivo de homenagear o espírito heróico e altruísta dos bombeiros que, na sua
luta com o fogo, muitas vezes sacrificam as suas próprias vidas.)
“Por cada soldado romano que caia em
combate, um outro imediatamente de alista. É esta a nossa força”
General romano
Ana Luísa nasceu numa vila de província e em criança idealizara ser bombeira (para poder apagar
fogos – dizia ela), sonho que nunca se efetivou, porque os seus pais não
partilhavam dessa vontade. Os anos foram passando, e agora com vinte e quatro
anos, e estudante bem-sucedida de medicina, a jovem já quase não se lembrava do
que quisera ser no passado. Mas, e porque o destino já tinha sido marcado há
muito, um sonho arrebatador fez com que algo mudasse. Era agosto, do ano de
2013, e a praga dos incêndios massacrava Portugal. (…)
Ana Luísa,
com o caminhar dos anos, e com o sonho de ser bombeira para apagar fogos a
desvanecer-se, foi desenvolvendo toda uma capacidade humana de acordo com o
espírito da solidariedade e entreajuda, e que fazia dela uma rapariga amada por
todos. Gostava de ajudar nos peditórios a favor dos mais desfavorecidos, era
escuteira e, na sua paróquia do Minho interior, era catequista. Nossa Senhora
de Fátima era a sua entidade sagrada mais querida.
Possuidora de um corpo esbelto,
feminino e bem atlético, a natação era um dos seus desportos favoritos. Na
verdade, ela era uma nadadora de excelência, pormenor importante que
contribuiu, há dois anos atrás, para o salvamento de dois irmãos, numa praia de
Vila do Conde, quando, e sem qualquer medo, se lançou às águas e humilhou a
fúria repentina do grande oceano Atlântico. O obrigado comovido da família dos
jovens irmãos salvos e o sorriso de quem por ali estava foram a sua paga. Ela, com
os seus olhos cor de mar, claro está, achou que não fizera mais do que a sua
obrigação.
É nesta cidade, onde o rio Ave se
entrega ao mar, a toda a hora que passa, que Ana Luísa costuma passar as suas
férias de verão. E foi também nesta terra de terra, vento e mar que conheceu o
amor da sua vida, o José Luís, um rapaz de Guimarães e estudante de engenharia.
Os dois viviam uma relação de namorados felizes e amantes de maresia.
Ora bem,
voltando atrás nesta história, e principalmente ao final do primeiro parágrafo,
dizia eu que um sonho inquietante fez com que a vida de Ana Luísa mudasse. Como
também acrescentava que estávamos em agosto, do ano de 2013, e que a praga dos
incêndios massacrava Portugal.
Nessa noite de agosto a jovem até não
se deitara tarde, mas algo de estranho aconteceu. Envolvida num sono profundo,
um sonho soltou-se-lhe da existência e mostrou-lhe uma outra realidade que, por
sinal, não lhe era totalmente estranha. Assim, e sem saber bem porquê, viu-se, na
companhia de um grupo de colegas bombeiros, a digladiarem-se ferozmente contra
um mar de chamas na encosta de uma serra do centro de Portugal. A dada altura,
e porque o vento é um dos inimigos mais inconstantes dos bombeiros, uma mudança
súbita da sua trajetória, fez com que o grupo de bombeiros ficasse cercado e
tomados de um descontrole natural. Parecia mesmo que estavam no reino do fogo. O
fumo era imenso, a fome das labaredas lambiam tudo à sua passagem e, de
repente, Ana Luísa perdeu o contacto com os companheiros. Tomada pelo pânico
ainda tentou gritar, mas a voz não lhe saiu da garganta e tudo ficou da cor do
inferno e da morte. Num último ânimo, lembrou-se de Nossa Senhora e os seus
olhos, como por milagre, abriram-se e… afinal tudo estava bem. Tudo não passara
de um sonho bem do tamanho de um pesadelo. Levantou-se da cama, foi para o
quarto de banho e meteu-se debaixo do chuveiro de água fria, como que para
pagar a angústia que ainda há pouco a queimava em plena serra, rodeado de fogo
e de aflição por todo o lado.
Mas como é que se pode explicar este
sonho da jovem estudante de medicina? Qual será o seu real significado? Uma
coisa é certa, em criança, Ana Rita quisera ser bombeira, mas os pais não lho
permitiram e a ideia havia-se-lhe varrido da lembrança. Porquê agora isto?
Já recomposta do que havia acontecido
durante a noite, as horas seguintes foram mais calmas, mas uma notícia da televisão,
proferida por uma locutora ansiosa, fez com que Ana Luísa se erguesse
repentinamente do sofá e ficasse a tremer como varas verdes.
- «Mais uma morte de um bombeiro.
Desta vez foi na serra do Caramulo. Apanhados por uma mudança súbita do vento,
um grupo de bombeiros viu-se rodeada pelas chamas e uma jovem bombeira da corporação
de Alcabideche perdeu a vida. O seu nome era Ana Rita e…»
- Minha Nossa Senhora de Fátima,
parece igual ao meu sonho. Mas o que é que está a acontecer? E a bombeira
também se chama Ana, tal como eu e tem a minha idade, vinte e quatro anos –
acudiu, em tom de aflição, a jovem estudante de medicina, quase petrificada com
tão absurda coincidência.
Dois dias passaram, e durante a tarde,
no quartel de bombeiros do seu concelho, a Ana Luísa pede licença para entrar,
para quase de seguida perguntar se se pode inscrever como bombeira voluntária. O
senhor que a recebera, um homem com alguma idade que, na altura estava a ouvir com
uma atenção redobrada na rádio a informação do funeral da tal rapariga bombeira
que havia morrido na serra do Caramulo, com um semblante entristecido, perguntou-lhe,
instintivamente:
- Qual o seu nome e qual a sua idade?
- Chamo-me Ana e tenho vinte e
quatro anos.
Meio confuso, o homem olhou para o
rádio donde advinha a notícia do funeral, depois olhou para a candidata a bombeiro,
e depois de repetir os movimentos do seu olhar vezes sem conta, ora para o
rádio ora para a rapariga que estava à sua frente, deu dois passos e abraçou
Ana Luísa. Com as lágrimas a banhar-lhe o rosto, disse de uma forma comovida e
quase feliz:
- Seja bem-vinda, Ana. Este
quartel é seu…
Carlos Afonso
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Desfile de «Traje de Palha» para promover uma das maiores tradições de Fafe…
Desde sempre que o homem sabe que a sua sobrevivência passa pelo preservar das suas raízes, pois, se assim não fosse, há muito tempo que o futuro havia perdido a noção do seu passado. Quer isto dizer que um povo com memória é um povo com horizontes definidos no amanhã. E é por isso mesmo que em Travassós, uma das freguesias mais antigas de Fafe, uma feliz ideia, única em Portugal, está a ser trabalhada para que a tradição ancestral de trabalhar a palha não caia em desuso. Assim, um original e criativo concurso/desfile de traje de palha, na noite de sexta-feira, dia 23 de agosto, inserida nas festividades da Senhora da Graça, está a atrair todas as atenções. Não nos podemos esquecer que Travassós é famosa pela tradição na confeção dos chapéus de palha.
O concelho de Fafe já foi fértil em produções artesanais de artigos variados, onde a palha assumiu uma importância maior. Fafe já o maior produtor e exportador de chapéus de palha do país. Infelizmente, os artesãos foram envelhecendo, desaparecendo, muitos deles, cansados de não verem a sua arte devidamente reconhecida e muito menos compensada financeiramente. E é o que estava acontecer com a arte de trabalhar a palha, situação que as gentes de Travassós querem combater. Não só querem fomentar a produção de chapéus, como anseiam criar novos produtos, como, por exemplo, variadas roupas feitas a partir da palha.
Antigamente, era usual ver as mulheres a fazer a trança de palha, enquanto caminhavam de um lugar para o outro, aproveitando para fazer recados ou até simplesmente conversar, ou então nos serões das suas casas, enquanto os seus dedos ágeis entrelaçavam as palheiras.
Nas terras de Fafe, os chapéus de homem tinham uma aba e uma fita azul, os das mulheres do campo tinham uma aba larga e eram rematados com a trança de “repenic” e não tinham nenhum adorno, o objetivo destes chapéus, era simplesmente proteger do sol a cara e a cabeça das pessoas que andavam na lida do campo. Para as meninas, haviam de vários tipos, desde o mais simples ao mais trabalhado.
A palha para os chapéus, e agora para novas criações que estão na forja, vem da“ ferrã do centeio”. Depois de cortada, a palha é posta às faixas ou aos molhos. O passo seguinte é o corte, o qual vai dividir a palha em “adições “que são: «A da ponta, a do elo, a de nylon, a de repenic, a peixeira, o trancelim e a de renda. A trança de renda que é feita com 6 palheiras, a trança peixeira é feita com 7 palheiras, a de trancelim é feita com 5 palheiras, a de nylon é feita com 3 palheiras e a de repenic com três. E ainda se faz trança com 9, 7 e de 11 palheiras. As tranças são feitas sempre em número ímpar com exceção da trança de renda. A palha depois de cortada é demolhada, para ficar maleável para mais facilmente ser trabalhada.»
Sem sombra de dúvida que a iniciativa cultural de promover um concurso/desfile de «Traje de palha» é uma forma muito interessante de preservar a tradição de trabalhar a palha, assim como uma nova maneira de recriar e adaptar às novas realidades todo um passado ainda vivo. O turismo e a nova visão da palha podem, assim, surgir unidos em favor de Fafe, com o sentido posto no mundo.
Pessoalmente, terei muito gosto em estar presente, e espero que as forças vivas do concelho também o façam, pois é do progresso de Fafe que estamos a falar.
Carlos Afonso
Carlos Afonso
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
ABOIM, O OLHAR SINCERO DO MINHO
Na passada noite, do dia 8 de agosto,
o centro da aldeia de Aboim, em Fafe, engalanou-se festivamente para receber a
apresentação da monografia «Santa Maria de Aboim, o Olhar Sincero do Minho».
Com coordenação do professor Carlos
Afonso, a monografia deu-se a conhecer a muitas dezenas de aboinenses e outros
tantos visitantes que fizeram questão de estar presentes.
«Santa Maria de Aboim, o olhar
sincero do Minho» apresenta toda uma estrutura inovadora, tendo em conta que se
está a falar de uma monografia. Na verdade, toda a dinâmica da obra mostra a
história, a paisagem, as memórias, as tradições, a ficção e variados
testemunhos em primeira pessoa interligados de uma forma perfeita. Prefaciada
pelo Presidente da Câmara, Dr. José Ribeiro, a publicação resulta de uma
coautoria de vários autores de Fafe. Assim, a nível da história, conta com os investigadores
Daniel Bastos, Artur Leite e Artur Coimbra. A nível da antropologia, monumentos
e arqueologia, encontram-se trabalhos do Dr. Jorge Miranda e de Jesus Martinho.
Quanto à imagem e fotografia, Jesus Martinho, Manuel Meira e António Novais
mostram o que de bom existe naquelas terras. No que diz respeito à narrativa, e
para além de vários testemunhos de vida em primeira pessoa, uma novela do
escritor Carlos Afonso espraia-se por grande parte do livro, sempre interligada
com o que se vai desenvolvendo. Também o trabalho dos jovens João Marques e
Hugo Novais, no âmbito da técnica e investigação enriquecem a monografia. A
paginação e impressão estiveram a cargo de Manuel Carneiro da Gráfica do Norte
– Amarante. A edição é da Junta de Freguesia e conta com o apoio da Câmara
Municipal de Fafe.
A noite de 8 de agosto, para além da
apresentação do livro, contou com um interessante e participado evento
cultural, todo ele construído com a população da freguesia de Aboim, sob
orientação técnica dos jovens Hugo Novais e João Marques, a partir de um guião
assinado por Carlos Afonso. De cariz religioso e profano, todo o acontecimento
cultural se centrou nas tradições, usos e memórias de um povo que habita estas
paragens, fazendo-se, assim, a evocação de um passado, ainda bem presente. O
misticismo da Senhora das Neves, a fé em Santa Maria, a música das concertinas,
os cantares ao desafio, as recriações e testemunhos de vida foram os itens
essenciais parta tamanho sucesso.
Para todos os presentes, a noite de
quinta-feira foi mágica e única, prova evidente de que uma cultura participada
e genuína, em comunhão com as populações, instituições, associações, juntas e
município é um caminho útil a seguir.
Parabéns a todos os participantes
nestas manifestações culturais, principalmente à Junta de Freguesia de Aboim
que muito tem feito pelo futuro do Minho profundo.
Carlos Afonso
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
EM ABOIM HÁ TODO UM MUNDO POR DESCOBRIR...
No dia 8 de agosto, quinta-feira, pelas 21h, Aboim é o palco perfeito para um
singular evento cultural repleto de tradição, alma, coração, pureza, esperança
e povo.
Nesta grande noite para a freguesia de Aboim e para Fafe,
dois são os argumentos mais que suficientes para que esta bela aldeia serrana
seja o ponto de chegada de todos os que amam o Minho profundo e sincero.
Primeiramente, será apresentada a Monografia «Santa Maria de Aboim, o olhar sincero do
Minho», para de seguida se assistir a um acontecimento especial e único,
onde a realidade, o misticismo, a força do povo e a ficção se mostram na sua
plenitude.
No que diz
respeito à monografia «Santa Maria de
Aboim, o olhar sincero do Minho», coordenada pelo professor Carlos Afonso, é
de salientar a originalidade e a variedade de títulos deste livro prefaciado
pelo senhor Presidente da Câmara, Dr. José Ribeiro. Para além da história da
Freguesia, o leitor poderá encontrar várias experiências de vida em primeira
pessoa, paisagem, etnografia, lendas e outros ingredientes, perfeitamente
guiados por uma bela história de amor que duas personagens intemporais vivem.
Nesta construção, em que vários livros se abrem dentro de um outro livro, poder-se-á
constatar que não há apenas um autor, mas sim uma coautoria, onde se podem
vislumbrar vários criadores fafenses, ligados a diferente áreas.
No âmbito da História, é de assinalar
a participação dos historiadores e investigadores Daniel Bastos (Emigração para
o Brasil), Artur Leite (Contributos para a história de Aboim) e Artur Coimbra
(Emigração para França). A nível da antropologia, monumentos e arqueologia,
encontram-se trabalhos do Dr. Jorge Miranda e de Jesus Martinho. Quanto à
imagem e fotografia, Jesus Martinho, Manuel Meira e António Novais mostram o
que de bom existe naquelas terras. No que diz respeito à narrativa, e para além
de vários testemunhos de vida em primeira pessoa, uma novela de Carlos Afonso
espraia-se por grande parte do livro, sempre interligada com o que se vai
desenvolvendo. Também o trabalho dos jovens João Marques e Hugo Novais, no âmbito
da técnica e investigação, contribuíram, e em muito, para a totalidade
construtiva da monografia. A paginação e impressão estiveram a cargo do
experiente Manuel Carneiro da Gráfica do Norte – Amarante. A edição é da Junta
de Freguesia e conta com o apoio da Câmara Municipal de Fafe.
No que diz
respeito ao segundo momento da noite, o evento «A nossa terra e a nossa gente», imbuído na máxima «Aboim, todo um mundo para descobrir», todos
os presentes poderão viajar no tempo e no espaço, de mãos dadas com um povo
resistente e genuíno. O alinhamento do que vai acontecer junto à igreja de
Aboim, está escrito nas estrelas, na espontaneidade e na vivência das muitas
personagens participantes. Este momento de cultura e de amor ao que é nosso só
poderá ser verdadeiramente entendido se for vivenciado no local.
Esta noite
especial para as terras de Aboim, Lagoa, Mós, Figueiró, Barbeira e Fafe está a
ser preparada por toda uma população qua ama o que é seu, ajudada por muitos
amigos.
Na noite de
8 de agosto, vá a Aboim, redescubra memórias e certezas que ainda permanecem
dentro de cada um de nós e fascine-se com as surpresas naturais que por lá irá
encontrar.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Os desgostos de um estudante em férias...
(Dedico
esta história ao José, um rapaz de Fafe que encontrei lá para os lados de
Ribeira de Pena)
Costuma
dizer-se, neste mundo de Deus, que os gostos não são todos iguais e que cada um
é cada qual. Pois bem, e uma vez que o que acabei de dizer deve estar certo ou,
pelo menos, não suscita muitas dúvidas, amigo leitor, hoje, neste última noite
julho, quero contar-lhe uma pequena história que tem na sua raiz um ocasional encontro,
numa caminhada organizada pelos Restauradores da Granja em terras de Ribeira de
Pena.
Tudo aconteceu num domingo, dia 28 de
Julho, e que apesar da chuva, que de vez em quando se fazia sentir, dezenas de
caminheiros, vindos de muitos lados do país, e, claro está, também de Fafe, arribaram
a Ribeira de Pena para percorrer os Caminhos do escritor Camilo Castelo Branco
e participar numa excelente recriação histórica, concretamente no que dizia
respeito ao seu primeiro casamento e outras peripécias a ele ligadas.
A louvável
iniciativa foi preparada pelo caminheiro Jorge Ribeiro do Porto, e contou com a
organização experiente dos Restauradores da Granja e com o apoio da Câmara
Municipal de Ribeira de Pena. Desta forma, todos os participantes tiveram o
privilégio de percorrer os caminhos de Camilo e interligar-se com uma fase do
grande escritor romântico, a paisagem e a literatura.
Depois de se
assistir à recriação do casamento de Camilo Castelo Branco com a sua primeira
mulher, Joaquina de França, na Igreja de São Salvador em Ribeira de Pena, onde
a chuva e as pétalas de rosa se abraçaram, colorindo e refrescando tão
importante momento, os caminheiros lançaram-se pelo percurso definido e foram
até Friúme, aldeia onde moravam os pais da esposa de Camilo, e assistir ao vivo
ao primeiro beijo de Camilo e outros pormenores bem curiosos. Várias recriações
se seguiram, respeitando-se, quase na íntegra toda uma fase do escritor. Ainda
em Friúme, houve a possibilidade de conhecer o boticário Afonso, que tive a honra
de encarnar, homem bem curioso e que ensinou muito ao jovem Camilo.
Continuando
a percorrer percurso literário, repleto de farta paisagem e encantos, os
caminheiros eram abordados, constantemente, por fragmentos da vida e da ficção
de Camilo. Em cada encruzilhada da antiga estrada Real que ligava
Trás-os-Montes ao Minho, algumas personagens das Novelas do Minho ganharam
vida e o rio Tâmega apontou, a quem para ele olhou, o sítio exato onde a
personagem Maria Moisés, a personagem principal de uma das suas novelas, foi retirada
das águas.
Sempre a
caminhar e à espera do que podia acontecer, a Igreja da Granja velha abriu-se
da par em par para que todos vissem com os olhos que a terra há de comer a
figura imponente do padre Manuel da Lixa, a quem o sogro de Camilo pediu que
ensinasse o jovem recém-casado a aprofundar o seu latim.
Ora bem, caro leitor, foi já depois da Granja Velha e meia
dúzia de quilómetros, e depois de uma carrega de água bem forte, que encharcou
tudo e todos, que me deparo com uma jovem mãe e o seu filho José, também eles
caminheiros de tão singular percurso. Conversa puxa conversa, vim a saber que tínhamos
amigos comuns, que o filho José conhecia o meu filho mais novo, que o pai do
rapaz já trabalhara em Alfândega da Fé, e que a avó do José gostava de ler as
histórias que costumo escrever.
Feitos os conhecimentos possíveis, e depois de
mais algumas perguntas e outras tantas respostas, apercebi-me de que o jovem
José não ia muito satisfeito. A sua cara mostrava cansaço e o seu sorriso não
era visível. A mãe, uma simpática e esbelta mulher de Fafe, confidenciou-me que
o rapaz não estava a achar piada nenhuma ao seu domingo. Na verdade, ele estava
farto de tanta chuva, e que já havia dito mais que uma vez de que era bem
melhor ter ficado em casa.
É evidente
que esta reação do moço era mais natural, tendo em conta circunstâncias tão
adversas. Se, ao menos, estivesse sol, a situação, se calhar, era capaz de ser
outra. Mas, o mais curioso foi o que a mãe me foi acrescentando. Ela deixou bem
claro que o facto de o filho estar na caminhada era um ato mais que correto,
pois um passeio pelas belas terras de Ribeira de Pena e um contacto mais de
perto com a realidade literária de Camilo Castelo Branco só faziam bem. E, mais
a mais, se ficasse em casa, com toda a certeza, passaria o dia a jogar no
computador ou a ver televisão.
Claro que eu concordei com tão sábia mãe. Se
calhar, se todas as mães tivessem a visão e a determinação desta, os filhos percorreriam
caminhos bem mais direitos e puros!
Tentei, também, animar o rapaz,
confidenciando-lhe que aquela era uma caminhada que lhe iria ficar na memória e
que, no futuro, ainda lhe poderia ser útil, pois, quem sabe, quando
frequentasse os estudos secundários, ainda poderia estudar Camilo Castelo
Branco.
Pelo que me pareceu, e após uma boa quantidade
de palavras a rimarem com otimismo e esperança, o rapaz ficou bem mais animado,
e com outro ar!
Chegados ao ponto de partida, a
Igreja de São Salvador de Ribeira de Pena, a chuva fez uma pausa e foi nos dado
a conhecer ou a relembrar o porquê da fuga de Camilo daquelas terras, para
nunca mais ali voltar, deixando para trás a sua esposa Joaquina que,
entretanto, engravidara. Para quem o não sabe, foi por causa de um poema
encomendado, que o jovem Camilo escreveu sem medir as consequências, a dizer
mal de um mancebo da terra, e que foi afixado na porta da Igreja, que o pobre
Camilo teve de fugir para não ser severamente punido.
Quanto ao José, ele, mal chegou à
vila transmontana, regressou logo a Fafe, pois a chuva deixara toda a família
encharcada.
Espero, um dia, voltar a encontrar o
meu jovem amigo José, para falarmos mais de camilo Castelo Branco, sem nos
importarmos com os impedimentos da chuva, ou outros que nos queiram atrapalhar.
Pode ser que ele venha a ser meu aluno na Escola Secundária de Fafe, quem sabe?
Um grande abraço, José, e nunca te
esqueças que a vida nem sempre nos empresta a sua melhor cara. Às vezes, temos
de experimentar momentos, aparentemente, mais enfadonhos, para, depois,
sentirmos a verdadeira luz com outros olhos!
Carlos Afonso
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