sábado, 24 de agosto de 2013

NO REINO DO FOGO








(Este conto baseia-se em factos reais e escrevi-o com o objetivo de homenagear o espírito heróico e altruísta dos bombeiros que, na sua luta com o fogo, muitas vezes sacrificam as suas próprias vidas.)

                                                           “Por cada soldado romano que caia em combate, um outro imediatamente de alista. É esta a nossa força”
      General romano

            Ana Luísa nasceu numa vila de província e em criança idealizara ser bombeira (para poder apagar fogos – dizia ela), sonho que nunca se efetivou, porque os seus pais não partilhavam dessa vontade. Os anos foram passando, e agora com vinte e quatro anos, e estudante bem-sucedida de medicina, a jovem já quase não se lembrava do que quisera ser no passado. Mas, e porque o destino já tinha sido marcado há muito, um sonho arrebatador fez com que algo mudasse. Era agosto, do ano de 2013, e a praga dos incêndios massacrava Portugal. (…)
            Ana Luísa, com o caminhar dos anos, e com o sonho de ser bombeira para apagar fogos a desvanecer-se, foi desenvolvendo toda uma capacidade humana de acordo com o espírito da solidariedade e entreajuda, e que fazia dela uma rapariga amada por todos. Gostava de ajudar nos peditórios a favor dos mais desfavorecidos, era escuteira e, na sua paróquia do Minho interior, era catequista. Nossa Senhora de Fátima era a sua entidade sagrada mais querida.
Possuidora de um corpo esbelto, feminino e bem atlético, a natação era um dos seus desportos favoritos. Na verdade, ela era uma nadadora de excelência, pormenor importante que contribuiu, há dois anos atrás, para o salvamento de dois irmãos, numa praia de Vila do Conde, quando, e sem qualquer medo, se lançou às águas e humilhou a fúria repentina do grande oceano Atlântico. O obrigado comovido da família dos jovens irmãos salvos e o sorriso de quem por ali estava foram a sua paga. Ela, com os seus olhos cor de mar, claro está, achou que não fizera mais do que a sua obrigação.
É nesta cidade, onde o rio Ave se entrega ao mar, a toda a hora que passa, que Ana Luísa costuma passar as suas férias de verão. E foi também nesta terra de terra, vento e mar que conheceu o amor da sua vida, o José Luís, um rapaz de Guimarães e estudante de engenharia. Os dois viviam uma relação de namorados felizes e amantes de maresia.
            Ora bem, voltando atrás nesta história, e principalmente ao final do primeiro parágrafo, dizia eu que um sonho inquietante fez com que a vida de Ana Luísa mudasse. Como também acrescentava que estávamos em agosto, do ano de 2013, e que a praga dos incêndios massacrava Portugal.
Nessa noite de agosto a jovem até não se deitara tarde, mas algo de estranho aconteceu. Envolvida num sono profundo, um sonho soltou-se-lhe da existência e mostrou-lhe uma outra realidade que, por sinal, não lhe era totalmente estranha. Assim, e sem saber bem porquê, viu-se, na companhia de um grupo de colegas bombeiros, a digladiarem-se ferozmente contra um mar de chamas na encosta de uma serra do centro de Portugal. A dada altura, e porque o vento é um dos inimigos mais inconstantes dos bombeiros, uma mudança súbita da sua trajetória, fez com que o grupo de bombeiros ficasse cercado e tomados de um descontrole natural. Parecia mesmo que estavam no reino do fogo. O fumo era imenso, a fome das labaredas lambiam tudo à sua passagem e, de repente, Ana Luísa perdeu o contacto com os companheiros. Tomada pelo pânico ainda tentou gritar, mas a voz não lhe saiu da garganta e tudo ficou da cor do inferno e da morte. Num último ânimo, lembrou-se de Nossa Senhora e os seus olhos, como por milagre, abriram-se e… afinal tudo estava bem. Tudo não passara de um sonho bem do tamanho de um pesadelo. Levantou-se da cama, foi para o quarto de banho e meteu-se debaixo do chuveiro de água fria, como que para pagar a angústia que ainda há pouco a queimava em plena serra, rodeado de fogo e de aflição por todo o lado.
Mas como é que se pode explicar este sonho da jovem estudante de medicina? Qual será o seu real significado? Uma coisa é certa, em criança, Ana Rita quisera ser bombeira, mas os pais não lho permitiram e a ideia havia-se-lhe varrido da lembrança. Porquê agora isto?
Já recomposta do que havia acontecido durante a noite, as horas seguintes foram mais calmas, mas uma notícia da televisão, proferida por uma locutora ansiosa, fez com que Ana Luísa se erguesse repentinamente do sofá e ficasse a tremer como varas verdes.
- «Mais uma morte de um bombeiro. Desta vez foi na serra do Caramulo. Apanhados por uma mudança súbita do vento, um grupo de bombeiros viu-se rodeada pelas chamas e uma jovem bombeira da corporação de Alcabideche perdeu a vida. O seu nome era Ana Rita e…»
- Minha Nossa Senhora de Fátima, parece igual ao meu sonho. Mas o que é que está a acontecer? E a bombeira também se chama Ana, tal como eu e tem a minha idade, vinte e quatro anos – acudiu, em tom de aflição, a jovem estudante de medicina, quase petrificada com tão absurda coincidência.
Dois dias passaram, e durante a tarde, no quartel de bombeiros do seu concelho, a Ana Luísa pede licença para entrar, para quase de seguida perguntar se se pode inscrever como bombeira voluntária. O senhor que a recebera, um homem com alguma idade que, na altura estava a ouvir com uma atenção redobrada na rádio a informação do funeral da tal rapariga bombeira que havia morrido na serra do Caramulo, com um semblante entristecido, perguntou-lhe, instintivamente:
- Qual o seu nome e qual a sua idade?
- Chamo-me Ana e tenho vinte e quatro anos.
Meio confuso, o homem olhou para o rádio donde advinha a notícia do funeral, depois olhou para a candidata a bombeiro, e depois de repetir os movimentos do seu olhar vezes sem conta, ora para o rádio ora para a rapariga que estava à sua frente, deu dois passos e abraçou Ana Luísa. Com as lágrimas a banhar-lhe o rosto, disse de uma forma comovida e quase feliz:
- Seja bem-vinda, Ana. Este quartel é seu…

Carlos Afonso

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Desfile de «Traje de Palha» para promover uma das maiores tradições de Fafe…

Desde sempre que o homem sabe que a sua sobrevivência passa pelo preservar das suas raízes, pois, se assim não fosse, há muito tempo que o futuro havia perdido a noção do seu passado. Quer isto dizer que um povo com memória é um povo com horizontes definidos no amanhã. E é por isso mesmo que em Travassós, uma das freguesias mais antigas de Fafe, uma feliz ideia, única em Portugal, está a ser trabalhada para que a tradição ancestral de trabalhar a palha não caia em desuso. Assim, um original e criativo concurso/desfile de traje de palha, na noite de sexta-feira, dia 23 de agosto, inserida nas festividades da Senhora da Graça, está a atrair todas as atenções. Não nos podemos esquecer que Travassós é famosa pela tradição na confeção dos chapéus de palha. O concelho de Fafe já foi fértil em produções artesanais de artigos variados, onde a palha assumiu uma importância maior. Fafe já o maior produtor e exportador de chapéus de palha do país. Infelizmente, os artesãos foram envelhecendo, desaparecendo, muitos deles, cansados de não verem a sua arte devidamente reconhecida e muito menos compensada financeiramente. E é o que estava acontecer com a arte de trabalhar a palha, situação que as gentes de Travassós querem combater. Não só querem fomentar a produção de chapéus, como anseiam criar novos produtos, como, por exemplo, variadas roupas feitas a partir da palha. Antigamente, era usual ver as mulheres a fazer a trança de palha, enquanto caminhavam de um lugar para o outro, aproveitando para fazer recados ou até simplesmente conversar, ou então nos serões das suas casas, enquanto os seus dedos ágeis entrelaçavam as palheiras. Nas terras de Fafe, os chapéus de homem tinham uma aba e uma fita azul, os das mulheres do campo tinham uma aba larga e eram rematados com a trança de “repenic” e não tinham nenhum adorno, o objetivo destes chapéus, era simplesmente proteger do sol a cara e a cabeça das pessoas que andavam na lida do campo. Para as meninas, haviam de vários tipos, desde o mais simples ao mais trabalhado. A palha para os chapéus, e agora para novas criações que estão na forja, vem da“ ferrã do centeio”. Depois de cortada, a palha é posta às faixas ou aos molhos. O passo seguinte é o corte, o qual vai dividir a palha em “adições “que são: «A da ponta, a do elo, a de nylon, a de repenic, a peixeira, o trancelim e a de renda. A trança de renda que é feita com 6 palheiras, a trança peixeira é feita com 7 palheiras, a de trancelim é feita com 5 palheiras, a de nylon é feita com 3 palheiras e a de repenic com três. E ainda se faz trança com 9, 7 e de 11 palheiras. As tranças são feitas sempre em número ímpar com exceção da trança de renda. A palha depois de cortada é demolhada, para ficar maleável para mais facilmente ser trabalhada.» Sem sombra de dúvida que a iniciativa cultural de promover um concurso/desfile de «Traje de palha» é uma forma muito interessante de preservar a tradição de trabalhar a palha, assim como uma nova maneira de recriar e adaptar às novas realidades todo um passado ainda vivo. O turismo e a nova visão da palha podem, assim, surgir unidos em favor de Fafe, com o sentido posto no mundo. Pessoalmente, terei muito gosto em estar presente, e espero que as forças vivas do concelho também o façam, pois é do progresso de Fafe que estamos a falar.

 Carlos Afonso

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

ABOIM, O OLHAR SINCERO DO MINHO








Na passada noite, do dia 8 de agosto, o centro da aldeia de Aboim, em Fafe, engalanou-se festivamente para receber a apresentação da monografia «Santa Maria de Aboim, o Olhar Sincero do Minho».
Com coordenação do professor Carlos Afonso, a monografia deu-se a conhecer a muitas dezenas de aboinenses e outros tantos visitantes que fizeram questão de estar presentes.
«Santa Maria de Aboim, o olhar sincero do Minho» apresenta toda uma estrutura inovadora, tendo em conta que se está a falar de uma monografia. Na verdade, toda a dinâmica da obra mostra a história, a paisagem, as memórias, as tradições, a ficção e variados testemunhos em primeira pessoa interligados de uma forma perfeita. Prefaciada pelo Presidente da Câmara, Dr. José Ribeiro, a publicação resulta de uma coautoria de vários autores de Fafe. Assim, a nível da história, conta com os investigadores Daniel Bastos, Artur Leite e Artur Coimbra. A nível da antropologia, monumentos e arqueologia, encontram-se trabalhos do Dr. Jorge Miranda e de Jesus Martinho. Quanto à imagem e fotografia, Jesus Martinho, Manuel Meira e António Novais mostram o que de bom existe naquelas terras. No que diz respeito à narrativa, e para além de vários testemunhos de vida em primeira pessoa, uma novela do escritor Carlos Afonso espraia-se por grande parte do livro, sempre interligada com o que se vai desenvolvendo. Também o trabalho dos jovens João Marques e Hugo Novais, no âmbito da técnica e investigação enriquecem a monografia. A paginação e impressão estiveram a cargo de Manuel Carneiro da Gráfica do Norte – Amarante. A edição é da Junta de Freguesia e conta com o apoio da Câmara Municipal de Fafe.
A noite de 8 de agosto, para além da apresentação do livro, contou com um interessante e participado evento cultural, todo ele construído com a população da freguesia de Aboim, sob orientação técnica dos jovens Hugo Novais e João Marques, a partir de um guião assinado por Carlos Afonso. De cariz religioso e profano, todo o acontecimento cultural se centrou nas tradições, usos e memórias de um povo que habita estas paragens, fazendo-se, assim, a evocação de um passado, ainda bem presente. O misticismo da Senhora das Neves, a fé em Santa Maria, a música das concertinas, os cantares ao desafio, as recriações e testemunhos de vida foram os itens essenciais parta tamanho sucesso.
Para todos os presentes, a noite de quinta-feira foi mágica e única, prova evidente de que uma cultura participada e genuína, em comunhão com as populações, instituições, associações, juntas e município é um caminho útil a seguir.
Parabéns a todos os participantes nestas manifestações culturais, principalmente à Junta de Freguesia de Aboim que muito tem feito pelo futuro do Minho profundo.


Carlos Afonso



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

EM ABOIM HÁ TODO UM MUNDO POR DESCOBRIR...



            No dia 8 de agosto, quinta-feira, pelas 21h, Aboim é o palco perfeito para um singular evento cultural repleto de tradição, alma, coração, pureza, esperança e povo.
Nesta grande noite para a freguesia de Aboim e para Fafe, dois são os argumentos mais que suficientes para que esta bela aldeia serrana seja o ponto de chegada de todos os que amam o Minho profundo e sincero.
 Primeiramente, será apresentada a Monografia «Santa Maria de Aboim, o olhar sincero do Minho», para de seguida se assistir a um acontecimento especial e único, onde a realidade, o misticismo, a força do povo e a ficção se mostram na sua plenitude.
            No que diz respeito à monografia «Santa Maria de Aboim, o olhar sincero do Minho», coordenada pelo professor Carlos Afonso, é de salientar a originalidade e a variedade de títulos deste livro prefaciado pelo senhor Presidente da Câmara, Dr. José Ribeiro. Para além da história da Freguesia, o leitor poderá encontrar várias experiências de vida em primeira pessoa, paisagem, etnografia, lendas e outros ingredientes, perfeitamente guiados por uma bela história de amor que duas personagens intemporais vivem. Nesta construção, em que vários livros se abrem dentro de um outro livro, poder-se-á constatar que não há apenas um autor, mas sim uma coautoria, onde se podem vislumbrar vários criadores fafenses, ligados a diferente áreas.
No âmbito da História, é de assinalar a participação dos historiadores e investigadores Daniel Bastos (Emigração para o Brasil), Artur Leite (Contributos para a história de Aboim) e Artur Coimbra (Emigração para França). A nível da antropologia, monumentos e arqueologia, encontram-se trabalhos do Dr. Jorge Miranda e de Jesus Martinho. Quanto à imagem e fotografia, Jesus Martinho, Manuel Meira e António Novais mostram o que de bom existe naquelas terras. No que diz respeito à narrativa, e para além de vários testemunhos de vida em primeira pessoa, uma novela de Carlos Afonso espraia-se por grande parte do livro, sempre interligada com o que se vai desenvolvendo. Também o trabalho dos jovens João Marques e Hugo Novais, no âmbito da técnica e investigação, contribuíram, e em muito, para a totalidade construtiva da monografia. A paginação e impressão estiveram a cargo do experiente Manuel Carneiro da Gráfica do Norte – Amarante. A edição é da Junta de Freguesia e conta com o apoio da Câmara Municipal de Fafe.
            No que diz respeito ao segundo momento da noite, o evento «A nossa terra e a nossa gente», imbuído na máxima «Aboim, todo um mundo para descobrir», todos os presentes poderão viajar no tempo e no espaço, de mãos dadas com um povo resistente e genuíno. O alinhamento do que vai acontecer junto à igreja de Aboim, está escrito nas estrelas, na espontaneidade e na vivência das muitas personagens participantes. Este momento de cultura e de amor ao que é nosso só poderá ser verdadeiramente entendido se for vivenciado no local.
            Esta noite especial para as terras de Aboim, Lagoa, Mós, Figueiró, Barbeira e Fafe está a ser preparada por toda uma população qua ama o que é seu, ajudada por muitos amigos.
            Na noite de 8 de agosto, vá a Aboim, redescubra memórias e certezas que ainda permanecem dentro de cada um de nós e fascine-se com as surpresas naturais que por lá irá encontrar.


            

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os desgostos de um estudante em férias...



                           (Dedico esta história ao José, um rapaz de Fafe que encontrei lá para os lados de Ribeira de Pena)

            Costuma dizer-se, neste mundo de Deus, que os gostos não são todos iguais e que cada um é cada qual. Pois bem, e uma vez que o que acabei de dizer deve estar certo ou, pelo menos, não suscita muitas dúvidas, amigo leitor, hoje, neste última noite julho, quero contar-lhe uma pequena história que tem na sua raiz um ocasional encontro, numa caminhada organizada pelos Restauradores da Granja em terras de Ribeira de Pena.
Tudo aconteceu num domingo, dia 28 de Julho, e que apesar da chuva, que de vez em quando se fazia sentir, dezenas de caminheiros, vindos de muitos lados do país, e, claro está, também de Fafe, arribaram a Ribeira de Pena para percorrer os Caminhos do escritor Camilo Castelo Branco e participar numa excelente recriação histórica, concretamente no que dizia respeito ao seu primeiro casamento e outras peripécias a ele ligadas.
            A louvável iniciativa foi preparada pelo caminheiro Jorge Ribeiro do Porto, e contou com a organização experiente dos Restauradores da Granja e com o apoio da Câmara Municipal de Ribeira de Pena. Desta forma, todos os participantes tiveram o privilégio de percorrer os caminhos de Camilo e interligar-se com uma fase do grande escritor romântico, a paisagem e a literatura.
            Depois de se assistir à recriação do casamento de Camilo Castelo Branco com a sua primeira mulher, Joaquina de França, na Igreja de São Salvador em Ribeira de Pena, onde a chuva e as pétalas de rosa se abraçaram, colorindo e refrescando tão importante momento, os caminheiros lançaram-se pelo percurso definido e foram até Friúme, aldeia onde moravam os pais da esposa de Camilo, e assistir ao vivo ao primeiro beijo de Camilo e outros pormenores bem curiosos. Várias recriações se seguiram, respeitando-se, quase na íntegra toda uma fase do escritor. Ainda em Friúme, houve a possibilidade de conhecer o boticário Afonso, que tive a honra de encarnar, homem bem curioso e que ensinou muito ao jovem Camilo.
            Continuando a percorrer percurso literário, repleto de farta paisagem e encantos, os caminheiros eram abordados, constantemente, por fragmentos da vida e da ficção de Camilo. Em cada encruzilhada da antiga estrada Real que ligava Trás-os-Montes ao Minho, algumas personagens das Novelas do Minho ganharam vida e o rio Tâmega apontou, a quem para ele olhou, o sítio exato onde a personagem Maria Moisés, a personagem principal de uma das suas novelas, foi retirada das águas.
            Sempre a caminhar e à espera do que podia acontecer, a Igreja da Granja velha abriu-se da par em par para que todos vissem com os olhos que a terra há de comer a figura imponente do padre Manuel da Lixa, a quem o sogro de Camilo pediu que ensinasse o jovem recém-casado a aprofundar o seu latim.
Ora bem, caro leitor, foi já depois da Granja Velha e meia dúzia de quilómetros, e depois de uma carrega de água bem forte, que encharcou tudo e todos, que me deparo com uma jovem mãe e o seu filho José, também eles caminheiros de tão singular percurso. Conversa puxa conversa, vim a saber que tínhamos amigos comuns, que o filho José conhecia o meu filho mais novo, que o pai do rapaz já trabalhara em Alfândega da Fé, e que a avó do José gostava de ler as histórias que costumo escrever.
 Feitos os conhecimentos possíveis, e depois de mais algumas perguntas e outras tantas respostas, apercebi-me de que o jovem José não ia muito satisfeito. A sua cara mostrava cansaço e o seu sorriso não era visível. A mãe, uma simpática e esbelta mulher de Fafe, confidenciou-me que o rapaz não estava a achar piada nenhuma ao seu domingo. Na verdade, ele estava farto de tanta chuva, e que já havia dito mais que uma vez de que era bem melhor ter ficado em casa.
            É evidente que esta reação do moço era mais natural, tendo em conta circunstâncias tão adversas. Se, ao menos, estivesse sol, a situação, se calhar, era capaz de ser outra. Mas, o mais curioso foi o que a mãe me foi acrescentando. Ela deixou bem claro que o facto de o filho estar na caminhada era um ato mais que correto, pois um passeio pelas belas terras de Ribeira de Pena e um contacto mais de perto com a realidade literária de Camilo Castelo Branco só faziam bem. E, mais a mais, se ficasse em casa, com toda a certeza, passaria o dia a jogar no computador ou a ver televisão.
 Claro que eu concordei com tão sábia mãe. Se calhar, se todas as mães tivessem a visão e a determinação desta, os filhos percorreriam caminhos bem mais direitos e puros!
Tentei, também, animar o rapaz, confidenciando-lhe que aquela era uma caminhada que lhe iria ficar na memória e que, no futuro, ainda lhe poderia ser útil, pois, quem sabe, quando frequentasse os estudos secundários, ainda poderia estudar Camilo Castelo Branco.
 Pelo que me pareceu, e após uma boa quantidade de palavras a rimarem com otimismo e esperança, o rapaz ficou bem mais animado, e com outro ar!
Chegados ao ponto de partida, a Igreja de São Salvador de Ribeira de Pena, a chuva fez uma pausa e foi nos dado a conhecer ou a relembrar o porquê da fuga de Camilo daquelas terras, para nunca mais ali voltar, deixando para trás a sua esposa Joaquina que, entretanto, engravidara. Para quem o não sabe, foi por causa de um poema encomendado, que o jovem Camilo escreveu sem medir as consequências, a dizer mal de um mancebo da terra, e que foi afixado na porta da Igreja, que o pobre Camilo teve de fugir para não ser severamente punido.
Quanto ao José, ele, mal chegou à vila transmontana, regressou logo a Fafe, pois a chuva deixara toda a família encharcada.
Espero, um dia, voltar a encontrar o meu jovem amigo José, para falarmos mais de camilo Castelo Branco, sem nos importarmos com os impedimentos da chuva, ou outros que nos queiram atrapalhar. Pode ser que ele venha a ser meu aluno na Escola Secundária de Fafe, quem sabe?
Um grande abraço, José, e nunca te esqueças que a vida nem sempre nos empresta a sua melhor cara. Às vezes, temos de experimentar momentos, aparentemente, mais enfadonhos, para, depois, sentirmos a verdadeira luz com outros olhos!

Carlos Afonso

domingo, 14 de julho de 2013

Ó MINHA NOSSA SENHORA! (A mulher que pediu ajuda à Senhora da Misericórdia



            A história que hoje, dia 14 de julho de 2013 e dia da Senhora de Antime, surgiu de uma ocorrência verdadeira que se me deparou a meu olhos e que muito me emocionou.
            Como todo o Minho sabe, as festividades da Senhora de Antime, em Fafe, são muito intensas e participadas, em que as grandiosas procissões de Antime para Fafe e vice-versa assumem o seu ponto mais alto. É curioso este ritual tão próprio, derivado em lenda e tradição, pormenores que fazem com que a Senhora da Misericórdia visite Fafe por um dia. Pela manhã, carregada por valentes rapazes desloca-se festivamente, acompanhada por milhares de fiéis, para depois, ao final da tarde, regressar à sua morada santa, na Igreja Paroquial de Antime E foi na procissão de regresso que aconteceu o que gostaria de vos contar.  
            Como de costume, e porque o povo ama os ensinamentos que derivam do seu acreditar, a procissão de regresso tem por hábito fazer uma paragem no Lombo, um lugar bem pertinho do rio Ferro e onde eu moro. Assim, este dia de julho, um dia quente de verão, mas que ao cair da noite foi abençoado com uma farta rega vinda dos céus, permitiu-me ver e sentir uma cena comovente e bem próprio de um contexto quase de milagre, acredito eu.
            Já parado no meio da multidão que aguardava a chegada da Senhora, lancei o olhar e a alma em meu redor e foi-me permitido vislumbrar gentes de vários feitios e rostos, mas todas elas com o propósito mergulhado na fé, uma fé que, e porque assim acreditarmos, nos pode salvar. A dada altura, bem ao meu lado, e no mesmo instante em que a Senhora da Misericórdia chegava, ouço a voz baixa, tingida de um gritar abafado e repetido, de uma senhora de escuro vestido:
            - Ó minha Nossa Senhora! Ó minha Nossa Senhora!
            Atento, e com o coração apreensivo, voltei-me para quem implorava e escutei outra vez as mesmas palavras, agora com um acrescento a registar:
            - Ó minha Nossa Senhora, guia o meu filho!
            Em redor, os cânticos ecoavam nos céus, milhares de “papeizinhos”, esvoaçam, a Senhora da Misericórdia com o filho ao colo, com a sua postura calma, contemplava lá do alto os seus devotos, enquanto a charola seguia devagar e a mulher de escuro vestida repetia a sua súplica. Só que, a dada altura, as suas palavras começaram a enfraquecer e a ser cada vez mais angustiadas. E, pouco depois, a suplicante mulher desmaiava, deixando-se cair, amparada pelas pessoas que a circundavam. Já no chão, e enquanto a aflição tomava conta dos que àquela cena assistiam, ouço uma outra voz:
            - Coitada, o filho partiu para Angola na sexta. Ele foi trabalhar para lá… Ela não aguentou da emoção e desmaiou. Coitada, estava a pedir ajuda à Virgem!
            Pouco depois, os bombeiros chegaram e uns tantos procedimentos foram tomados, até à altura em que a mulher de negro vestida foi levada para o hospital.
            Amigo leitor, digam o que disserem, mas para mim foi tudo muito claro. A mulher de negro vestida, ferida pela ausência do filho, pediu ajuda e proteção à Virgem e o milagre aconteceu.
De certeza que, por momentos, a mulher pedinte cerrou os olhos para a realidade de Fafe e foi visitar o seu filho a Angola, para ver, com a sua alma, como ele estava. A Senhora da Misericórdia, também Ela uma Mulher que sofreu por causa do seu filho tão amado, achou por bem atender àquele rogo tão aflito.
Só um pormenor, no momento em que era levada pelos bombeiros, reparei que os olhos da mulher suplicante já estavam abertos, tingidos, agora, de uma calma de mãe sossegada. Afinal o seu filho estava bem e em paz.
“Ave-Maria, cheia de graça!
O Senhor é convosco
Bendita sois vós entre as mulheres
E Bendito é o Fruto do vosso ventre, Jesus
Santa Maria Mãe de Deus,
Rogai por nós os pecadores
Agora e na hora de nossa morte. Amém”



Carlos Afonso

sábado, 6 de julho de 2013

SENHORA DE ANTIME, ZELA POR NÓS



Vir a Fafe no segundo Domingo de Julho e não participar na majestosa procissão de Nossa Senhora de Antime, é perder um momento único e autêntico, onde a fé envolve uma multidão imensa, que embebida numa crença fervorosa, roga à virgem que atenda aos seus anseios e ilumine a sua jornada.
É emocionante aproximarmo-nos, silenciosamente, da igreja onde habita a Senhora, ouvir a santa missa e rezar. Depois, sob o olhar devoto de um sol, que nessa manhã parece sempre mais brilhante, e de olhos postos na imagem, que do alto esparge calmas e afetos, abrirmos o nosso coração peregrino e bebermos a paz que discorre dos céus.
Apoiados na mão da esperança e rodeados pelos cânticos que ecoam pelos ares, é comovente acompanhar o andor, que num passo lento e pesado, vai deslizando pelas ruas engalanadas, apoiado em ombros varonis.
Chegados à ponte onde Antime e Fafe se abraçam, a Senhora de Antime é recebida pela Senhora da Misericórdia, que, num tom dorido e hospitaleiro, se desloca ao local para lhe dar as boas vindas. As Senhoras granjeiam-se, o povo canta, os foguetes atroam os ares, as pombas esvoaçam, os anjos cantam, as lágrimas refrescam as faces, as águas do Ferro soluçam e a fé acrescenta-se à maré de emoção que brota das entranhas dos espíritos...
Para quem ainda não usufruiu desta verdadeira prova de ligação ao altíssimo, é imperioso que o faça, independentemente das suas crenças, para que perceba que a fé é uma torrente, que indiferente aos caprichos dos homens, continua a alimentar a alma de muita e boa gente do Minho.

A Senhora de Antime, Mãe de Deus,
Rogamos muitos favores,
Pois nós somos filhos seus
E entregamos-lhe os nossos temores.


Carlos Afonso