Desde sempre que o homem sabe que a sua sobrevivência passa pelo preservar das suas raízes, pois, se assim não fosse, há muito tempo que o futuro havia perdido a noção do seu passado. Quer isto dizer que um povo com memória é um povo com horizontes definidos no amanhã. E é por isso mesmo que em Travassós, uma das freguesias mais antigas de Fafe, uma feliz ideia, única em Portugal, está a ser trabalhada para que a tradição ancestral de trabalhar a palha não caia em desuso. Assim, um original e criativo concurso/desfile de traje de palha, na noite de sexta-feira, dia 23 de agosto, inserida nas festividades da Senhora da Graça, está a atrair todas as atenções. Não nos podemos esquecer que Travassós é famosa pela tradição na confeção dos chapéus de palha.
O concelho de Fafe já foi fértil em produções artesanais de artigos variados, onde a palha assumiu uma importância maior. Fafe já o maior produtor e exportador de chapéus de palha do país. Infelizmente, os artesãos foram envelhecendo, desaparecendo, muitos deles, cansados de não verem a sua arte devidamente reconhecida e muito menos compensada financeiramente. E é o que estava acontecer com a arte de trabalhar a palha, situação que as gentes de Travassós querem combater. Não só querem fomentar a produção de chapéus, como anseiam criar novos produtos, como, por exemplo, variadas roupas feitas a partir da palha.
Antigamente, era usual ver as mulheres a fazer a trança de palha, enquanto caminhavam de um lugar para o outro, aproveitando para fazer recados ou até simplesmente conversar, ou então nos serões das suas casas, enquanto os seus dedos ágeis entrelaçavam as palheiras.
Nas terras de Fafe, os chapéus de homem tinham uma aba e uma fita azul, os das mulheres do campo tinham uma aba larga e eram rematados com a trança de “repenic” e não tinham nenhum adorno, o objetivo destes chapéus, era simplesmente proteger do sol a cara e a cabeça das pessoas que andavam na lida do campo. Para as meninas, haviam de vários tipos, desde o mais simples ao mais trabalhado.
A palha para os chapéus, e agora para novas criações que estão na forja, vem da“ ferrã do centeio”. Depois de cortada, a palha é posta às faixas ou aos molhos. O passo seguinte é o corte, o qual vai dividir a palha em “adições “que são: «A da ponta, a do elo, a de nylon, a de repenic, a peixeira, o trancelim e a de renda. A trança de renda que é feita com 6 palheiras, a trança peixeira é feita com 7 palheiras, a de trancelim é feita com 5 palheiras, a de nylon é feita com 3 palheiras e a de repenic com três. E ainda se faz trança com 9, 7 e de 11 palheiras. As tranças são feitas sempre em número ímpar com exceção da trança de renda. A palha depois de cortada é demolhada, para ficar maleável para mais facilmente ser trabalhada.»
Sem sombra de dúvida que a iniciativa cultural de promover um concurso/desfile de «Traje de palha» é uma forma muito interessante de preservar a tradição de trabalhar a palha, assim como uma nova maneira de recriar e adaptar às novas realidades todo um passado ainda vivo. O turismo e a nova visão da palha podem, assim, surgir unidos em favor de Fafe, com o sentido posto no mundo.
Pessoalmente, terei muito gosto em estar presente, e espero que as forças vivas do concelho também o façam, pois é do progresso de Fafe que estamos a falar.
Carlos Afonso
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
ABOIM, O OLHAR SINCERO DO MINHO
Na passada noite, do dia 8 de agosto,
o centro da aldeia de Aboim, em Fafe, engalanou-se festivamente para receber a
apresentação da monografia «Santa Maria de Aboim, o Olhar Sincero do Minho».
Com coordenação do professor Carlos
Afonso, a monografia deu-se a conhecer a muitas dezenas de aboinenses e outros
tantos visitantes que fizeram questão de estar presentes.
«Santa Maria de Aboim, o olhar
sincero do Minho» apresenta toda uma estrutura inovadora, tendo em conta que se
está a falar de uma monografia. Na verdade, toda a dinâmica da obra mostra a
história, a paisagem, as memórias, as tradições, a ficção e variados
testemunhos em primeira pessoa interligados de uma forma perfeita. Prefaciada
pelo Presidente da Câmara, Dr. José Ribeiro, a publicação resulta de uma
coautoria de vários autores de Fafe. Assim, a nível da história, conta com os investigadores
Daniel Bastos, Artur Leite e Artur Coimbra. A nível da antropologia, monumentos
e arqueologia, encontram-se trabalhos do Dr. Jorge Miranda e de Jesus Martinho.
Quanto à imagem e fotografia, Jesus Martinho, Manuel Meira e António Novais
mostram o que de bom existe naquelas terras. No que diz respeito à narrativa, e
para além de vários testemunhos de vida em primeira pessoa, uma novela do
escritor Carlos Afonso espraia-se por grande parte do livro, sempre interligada
com o que se vai desenvolvendo. Também o trabalho dos jovens João Marques e
Hugo Novais, no âmbito da técnica e investigação enriquecem a monografia. A
paginação e impressão estiveram a cargo de Manuel Carneiro da Gráfica do Norte
– Amarante. A edição é da Junta de Freguesia e conta com o apoio da Câmara
Municipal de Fafe.
A noite de 8 de agosto, para além da
apresentação do livro, contou com um interessante e participado evento
cultural, todo ele construído com a população da freguesia de Aboim, sob
orientação técnica dos jovens Hugo Novais e João Marques, a partir de um guião
assinado por Carlos Afonso. De cariz religioso e profano, todo o acontecimento
cultural se centrou nas tradições, usos e memórias de um povo que habita estas
paragens, fazendo-se, assim, a evocação de um passado, ainda bem presente. O
misticismo da Senhora das Neves, a fé em Santa Maria, a música das concertinas,
os cantares ao desafio, as recriações e testemunhos de vida foram os itens
essenciais parta tamanho sucesso.
Para todos os presentes, a noite de
quinta-feira foi mágica e única, prova evidente de que uma cultura participada
e genuína, em comunhão com as populações, instituições, associações, juntas e
município é um caminho útil a seguir.
Parabéns a todos os participantes
nestas manifestações culturais, principalmente à Junta de Freguesia de Aboim
que muito tem feito pelo futuro do Minho profundo.
Carlos Afonso
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
EM ABOIM HÁ TODO UM MUNDO POR DESCOBRIR...
No dia 8 de agosto, quinta-feira, pelas 21h, Aboim é o palco perfeito para um
singular evento cultural repleto de tradição, alma, coração, pureza, esperança
e povo.
Nesta grande noite para a freguesia de Aboim e para Fafe,
dois são os argumentos mais que suficientes para que esta bela aldeia serrana
seja o ponto de chegada de todos os que amam o Minho profundo e sincero.
Primeiramente, será apresentada a Monografia «Santa Maria de Aboim, o olhar sincero do
Minho», para de seguida se assistir a um acontecimento especial e único,
onde a realidade, o misticismo, a força do povo e a ficção se mostram na sua
plenitude.
No que diz
respeito à monografia «Santa Maria de
Aboim, o olhar sincero do Minho», coordenada pelo professor Carlos Afonso, é
de salientar a originalidade e a variedade de títulos deste livro prefaciado
pelo senhor Presidente da Câmara, Dr. José Ribeiro. Para além da história da
Freguesia, o leitor poderá encontrar várias experiências de vida em primeira
pessoa, paisagem, etnografia, lendas e outros ingredientes, perfeitamente
guiados por uma bela história de amor que duas personagens intemporais vivem.
Nesta construção, em que vários livros se abrem dentro de um outro livro, poder-se-á
constatar que não há apenas um autor, mas sim uma coautoria, onde se podem
vislumbrar vários criadores fafenses, ligados a diferente áreas.
No âmbito da História, é de assinalar
a participação dos historiadores e investigadores Daniel Bastos (Emigração para
o Brasil), Artur Leite (Contributos para a história de Aboim) e Artur Coimbra
(Emigração para França). A nível da antropologia, monumentos e arqueologia,
encontram-se trabalhos do Dr. Jorge Miranda e de Jesus Martinho. Quanto à
imagem e fotografia, Jesus Martinho, Manuel Meira e António Novais mostram o
que de bom existe naquelas terras. No que diz respeito à narrativa, e para além
de vários testemunhos de vida em primeira pessoa, uma novela de Carlos Afonso
espraia-se por grande parte do livro, sempre interligada com o que se vai
desenvolvendo. Também o trabalho dos jovens João Marques e Hugo Novais, no âmbito
da técnica e investigação, contribuíram, e em muito, para a totalidade
construtiva da monografia. A paginação e impressão estiveram a cargo do
experiente Manuel Carneiro da Gráfica do Norte – Amarante. A edição é da Junta
de Freguesia e conta com o apoio da Câmara Municipal de Fafe.
No que diz
respeito ao segundo momento da noite, o evento «A nossa terra e a nossa gente», imbuído na máxima «Aboim, todo um mundo para descobrir», todos
os presentes poderão viajar no tempo e no espaço, de mãos dadas com um povo
resistente e genuíno. O alinhamento do que vai acontecer junto à igreja de
Aboim, está escrito nas estrelas, na espontaneidade e na vivência das muitas
personagens participantes. Este momento de cultura e de amor ao que é nosso só
poderá ser verdadeiramente entendido se for vivenciado no local.
Esta noite
especial para as terras de Aboim, Lagoa, Mós, Figueiró, Barbeira e Fafe está a
ser preparada por toda uma população qua ama o que é seu, ajudada por muitos
amigos.
Na noite de
8 de agosto, vá a Aboim, redescubra memórias e certezas que ainda permanecem
dentro de cada um de nós e fascine-se com as surpresas naturais que por lá irá
encontrar.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Os desgostos de um estudante em férias...
(Dedico
esta história ao José, um rapaz de Fafe que encontrei lá para os lados de
Ribeira de Pena)
Costuma
dizer-se, neste mundo de Deus, que os gostos não são todos iguais e que cada um
é cada qual. Pois bem, e uma vez que o que acabei de dizer deve estar certo ou,
pelo menos, não suscita muitas dúvidas, amigo leitor, hoje, neste última noite
julho, quero contar-lhe uma pequena história que tem na sua raiz um ocasional encontro,
numa caminhada organizada pelos Restauradores da Granja em terras de Ribeira de
Pena.
Tudo aconteceu num domingo, dia 28 de
Julho, e que apesar da chuva, que de vez em quando se fazia sentir, dezenas de
caminheiros, vindos de muitos lados do país, e, claro está, também de Fafe, arribaram
a Ribeira de Pena para percorrer os Caminhos do escritor Camilo Castelo Branco
e participar numa excelente recriação histórica, concretamente no que dizia
respeito ao seu primeiro casamento e outras peripécias a ele ligadas.
A louvável
iniciativa foi preparada pelo caminheiro Jorge Ribeiro do Porto, e contou com a
organização experiente dos Restauradores da Granja e com o apoio da Câmara
Municipal de Ribeira de Pena. Desta forma, todos os participantes tiveram o
privilégio de percorrer os caminhos de Camilo e interligar-se com uma fase do
grande escritor romântico, a paisagem e a literatura.
Depois de se
assistir à recriação do casamento de Camilo Castelo Branco com a sua primeira
mulher, Joaquina de França, na Igreja de São Salvador em Ribeira de Pena, onde
a chuva e as pétalas de rosa se abraçaram, colorindo e refrescando tão
importante momento, os caminheiros lançaram-se pelo percurso definido e foram
até Friúme, aldeia onde moravam os pais da esposa de Camilo, e assistir ao vivo
ao primeiro beijo de Camilo e outros pormenores bem curiosos. Várias recriações
se seguiram, respeitando-se, quase na íntegra toda uma fase do escritor. Ainda
em Friúme, houve a possibilidade de conhecer o boticário Afonso, que tive a honra
de encarnar, homem bem curioso e que ensinou muito ao jovem Camilo.
Continuando
a percorrer percurso literário, repleto de farta paisagem e encantos, os
caminheiros eram abordados, constantemente, por fragmentos da vida e da ficção
de Camilo. Em cada encruzilhada da antiga estrada Real que ligava
Trás-os-Montes ao Minho, algumas personagens das Novelas do Minho ganharam
vida e o rio Tâmega apontou, a quem para ele olhou, o sítio exato onde a
personagem Maria Moisés, a personagem principal de uma das suas novelas, foi retirada
das águas.
Sempre a
caminhar e à espera do que podia acontecer, a Igreja da Granja velha abriu-se
da par em par para que todos vissem com os olhos que a terra há de comer a
figura imponente do padre Manuel da Lixa, a quem o sogro de Camilo pediu que
ensinasse o jovem recém-casado a aprofundar o seu latim.
Ora bem, caro leitor, foi já depois da Granja Velha e meia
dúzia de quilómetros, e depois de uma carrega de água bem forte, que encharcou
tudo e todos, que me deparo com uma jovem mãe e o seu filho José, também eles
caminheiros de tão singular percurso. Conversa puxa conversa, vim a saber que tínhamos
amigos comuns, que o filho José conhecia o meu filho mais novo, que o pai do
rapaz já trabalhara em Alfândega da Fé, e que a avó do José gostava de ler as
histórias que costumo escrever.
Feitos os conhecimentos possíveis, e depois de
mais algumas perguntas e outras tantas respostas, apercebi-me de que o jovem
José não ia muito satisfeito. A sua cara mostrava cansaço e o seu sorriso não
era visível. A mãe, uma simpática e esbelta mulher de Fafe, confidenciou-me que
o rapaz não estava a achar piada nenhuma ao seu domingo. Na verdade, ele estava
farto de tanta chuva, e que já havia dito mais que uma vez de que era bem
melhor ter ficado em casa.
É evidente
que esta reação do moço era mais natural, tendo em conta circunstâncias tão
adversas. Se, ao menos, estivesse sol, a situação, se calhar, era capaz de ser
outra. Mas, o mais curioso foi o que a mãe me foi acrescentando. Ela deixou bem
claro que o facto de o filho estar na caminhada era um ato mais que correto,
pois um passeio pelas belas terras de Ribeira de Pena e um contacto mais de
perto com a realidade literária de Camilo Castelo Branco só faziam bem. E, mais
a mais, se ficasse em casa, com toda a certeza, passaria o dia a jogar no
computador ou a ver televisão.
Claro que eu concordei com tão sábia mãe. Se
calhar, se todas as mães tivessem a visão e a determinação desta, os filhos percorreriam
caminhos bem mais direitos e puros!
Tentei, também, animar o rapaz,
confidenciando-lhe que aquela era uma caminhada que lhe iria ficar na memória e
que, no futuro, ainda lhe poderia ser útil, pois, quem sabe, quando
frequentasse os estudos secundários, ainda poderia estudar Camilo Castelo
Branco.
Pelo que me pareceu, e após uma boa quantidade
de palavras a rimarem com otimismo e esperança, o rapaz ficou bem mais animado,
e com outro ar!
Chegados ao ponto de partida, a
Igreja de São Salvador de Ribeira de Pena, a chuva fez uma pausa e foi nos dado
a conhecer ou a relembrar o porquê da fuga de Camilo daquelas terras, para
nunca mais ali voltar, deixando para trás a sua esposa Joaquina que,
entretanto, engravidara. Para quem o não sabe, foi por causa de um poema
encomendado, que o jovem Camilo escreveu sem medir as consequências, a dizer
mal de um mancebo da terra, e que foi afixado na porta da Igreja, que o pobre
Camilo teve de fugir para não ser severamente punido.
Quanto ao José, ele, mal chegou à
vila transmontana, regressou logo a Fafe, pois a chuva deixara toda a família
encharcada.
Espero, um dia, voltar a encontrar o
meu jovem amigo José, para falarmos mais de camilo Castelo Branco, sem nos
importarmos com os impedimentos da chuva, ou outros que nos queiram atrapalhar.
Pode ser que ele venha a ser meu aluno na Escola Secundária de Fafe, quem sabe?
Um grande abraço, José, e nunca te
esqueças que a vida nem sempre nos empresta a sua melhor cara. Às vezes, temos
de experimentar momentos, aparentemente, mais enfadonhos, para, depois,
sentirmos a verdadeira luz com outros olhos!
Carlos Afonso
domingo, 14 de julho de 2013
Ó MINHA NOSSA SENHORA! (A mulher que pediu ajuda à Senhora da Misericórdia
A história
que hoje, dia 14 de julho de 2013 e dia da Senhora de Antime, surgiu de uma ocorrência
verdadeira que se me deparou a meu olhos e que muito me emocionou.
Como todo o Minho sabe, as
festividades da Senhora de Antime, em Fafe, são muito intensas e participadas,
em que as grandiosas procissões de Antime para Fafe e vice-versa assumem o seu
ponto mais alto. É curioso este ritual tão próprio, derivado em lenda e
tradição, pormenores que fazem com que a Senhora da Misericórdia visite Fafe
por um dia. Pela manhã, carregada por valentes rapazes desloca-se festivamente,
acompanhada por milhares de fiéis, para depois, ao final da tarde, regressar à
sua morada santa, na Igreja Paroquial de Antime E foi na procissão de regresso
que aconteceu o que gostaria de vos contar.
Como de
costume, e porque o povo ama os ensinamentos que derivam do seu acreditar, a
procissão de regresso tem por hábito fazer uma paragem no Lombo, um lugar bem
pertinho do rio Ferro e onde eu moro. Assim, este dia de julho, um dia quente
de verão, mas que ao cair da noite foi abençoado com uma farta rega vinda dos
céus, permitiu-me ver e sentir uma cena comovente e bem próprio de um contexto
quase de milagre, acredito eu.
Já parado no
meio da multidão que aguardava a chegada da Senhora, lancei o olhar e a alma em
meu redor e foi-me permitido vislumbrar gentes de vários feitios e rostos, mas
todas elas com o propósito mergulhado na fé, uma fé que, e porque assim
acreditarmos, nos pode salvar. A dada altura, bem ao meu lado, e no mesmo instante
em que a Senhora da Misericórdia chegava, ouço a voz baixa, tingida de um
gritar abafado e repetido, de uma senhora de escuro vestido:
- Ó minha
Nossa Senhora! Ó minha Nossa Senhora!
Atento, e
com o coração apreensivo, voltei-me para quem implorava e escutei outra vez as
mesmas palavras, agora com um acrescento a registar:
- Ó minha
Nossa Senhora, guia o meu filho!
Em redor, os
cânticos ecoavam nos céus, milhares de “papeizinhos”, esvoaçam, a Senhora da Misericórdia
com o filho ao colo, com a sua postura calma, contemplava lá do alto os seus
devotos, enquanto a charola seguia devagar e a mulher de escuro vestida repetia
a sua súplica. Só que, a dada altura, as suas palavras começaram a enfraquecer
e a ser cada vez mais angustiadas. E, pouco depois, a suplicante mulher
desmaiava, deixando-se cair, amparada pelas pessoas que a circundavam. Já no
chão, e enquanto a aflição tomava conta dos que àquela cena assistiam, ouço uma
outra voz:
- Coitada, o
filho partiu para Angola na sexta. Ele foi trabalhar para lá… Ela não aguentou
da emoção e desmaiou. Coitada, estava a pedir ajuda à Virgem!
Pouco
depois, os bombeiros chegaram e uns tantos procedimentos foram tomados, até à
altura em que a mulher de negro vestida foi levada para o hospital.
Amigo leitor,
digam o que disserem, mas para mim foi tudo muito claro. A mulher de negro
vestida, ferida pela ausência do filho, pediu ajuda e proteção à Virgem e o
milagre aconteceu.
De certeza que, por momentos, a
mulher pedinte cerrou os olhos para a realidade de Fafe e foi visitar o seu
filho a Angola, para ver, com a sua alma, como ele estava. A Senhora da Misericórdia,
também Ela uma Mulher que sofreu por causa do seu filho tão amado, achou por
bem atender àquele rogo tão aflito.
Só um pormenor, no momento em que era
levada pelos bombeiros, reparei que os olhos da mulher suplicante já estavam
abertos, tingidos, agora, de uma calma de mãe sossegada. Afinal o seu filho
estava bem e em paz.
“Ave-Maria, cheia de graça!
O Senhor é convosco
Bendita sois vós entre as mulheres
E Bendito é o Fruto do vosso ventre,
Jesus
Santa Maria Mãe de Deus,
Rogai por nós os pecadores
Agora e na hora de nossa morte. Amém”
Carlos
Afonso
sábado, 6 de julho de 2013
SENHORA DE ANTIME, ZELA POR NÓS
Vir a Fafe no
segundo Domingo de Julho e não participar na majestosa procissão de Nossa
Senhora de Antime, é perder um momento único e autêntico, onde a fé envolve uma
multidão imensa, que embebida numa crença fervorosa, roga à virgem que atenda
aos seus anseios e ilumine a sua jornada.
É emocionante
aproximarmo-nos, silenciosamente, da igreja onde habita a Senhora, ouvir a
santa missa e rezar. Depois, sob o olhar devoto de um sol, que nessa manhã
parece sempre mais brilhante, e de olhos postos na imagem, que do alto esparge
calmas e afetos, abrirmos o nosso coração peregrino e bebermos a paz que
discorre dos céus.
Apoiados na
mão da esperança e rodeados pelos cânticos que ecoam pelos ares, é comovente
acompanhar o andor, que num passo lento e pesado, vai deslizando pelas ruas
engalanadas, apoiado em ombros varonis.
Chegados à
ponte onde Antime e Fafe se abraçam, a Senhora de Antime é recebida pela
Senhora da Misericórdia, que, num tom dorido e hospitaleiro, se desloca ao
local para lhe dar as boas vindas. As Senhoras granjeiam-se, o povo canta, os
foguetes atroam os ares, as pombas esvoaçam, os anjos cantam, as lágrimas
refrescam as faces, as águas do Ferro soluçam e a fé acrescenta-se à maré de
emoção que brota das entranhas dos espíritos...
Para quem
ainda não usufruiu desta verdadeira prova de ligação ao altíssimo, é imperioso
que o faça, independentemente das suas crenças, para que perceba que a fé é uma
torrente, que indiferente aos caprichos dos homens, continua a alimentar a alma
de muita e boa gente do Minho.
A Senhora de Antime, Mãe de Deus,
Rogamos muitos favores,
Pois nós somos filhos seus
E entregamos-lhe os nossos temores.
Carlos Afonso
domingo, 30 de junho de 2013
FAFE, UMA TERRA DE TRABALHO, FÉ, ALEGRIA, CULTURA E TRADIÇÃO
Uma das maiores alegrias que cobrem
a minha existência é o facto de morar em Fafe e conviver com o povo maravilhoso
e sábio que mora nestas paragens. E porque o que estou a dizer é tão verdadeiro
e sentido, quero-vos, amigo leitor, contar um pouco do meu fim de semana.
Depois de uma semana
bastante agitada e trabalhosa, procurei, no fim de semana, uma vivência
diferente, onde o religioso e o profano se misturaram. Assim, e porque o
destino assim quis, e Deus ajudou, os meus passos levaram-me até Fátima, ao São
Pedro da Granja e ao parque de merendas da Senhora da Ajuda, em Estorãos.Toda
esta minha caminhada foi feita ao de muitos amigos e familiares.
Na companhia do bom povo de Aboim fui a Fátima, no seu passeio anual,
organizada pela Junta local, no sábado, dia 29 de junho. Chegado a casa, e
depois de regar o meu farto quintal, corri apressado até ao São Pedro da Granja,
onde os meus amigos Restauradores estiveram magníficos na organização (partilha
e alegria), de um grande evento de cultura bem pintado das cores do povo. No
domingo, e depois de alguns compromissos familiares e religiosos, a boa gente de Estorãos recebeu-me de coração
aberto no parque de Merendas da Senhora da Ajuda, numa iniciativa que muito me tocou
e onde, mais uma vez, a minha amiga Fátima Caldeira esteve imensa.
Amigo leitor, o mais curioso disto tudo é que toda esta gente com quem
compartilhei momentos únicos, entrelaçados pela fé, o convívio, o tipicismo, as
tradições, música e a boa gastronomia, estão também de alma e coração no grande
projeto cultural que são as Jornadas Literárias de Fafe. E, por isso mesmo,
muitas das nossas conversas também passaram por aí. Por exemplo, na Senhora da
Ajuda, os amigos de Estorãos organizaram o convívio para comemorar o sucesso
das Jornadas Literárias de Fafe/2013. Como se pode imaginar, eu estava nas
minhas quintas e feliz.
Em todo um fim de semana riquíssimo em conversas e atitudes, muito se
falou do passado, do presente e, claro está, do futuro também.
Se em Fátima o povo de Aboim rezava à Virgem, na Granja, São Pedro zelava
por todos os presentes. Já em Estorãos, a Senhora da Ajuda acolhia aquele
grande grupo de amigos com o seu manto e fé.
Depois dos deveres religiosos, e porque no Minho é assim, a boa
gastronomia da região deu muito que falar, comer e beber. Quanto a beber e sem
detrimento do bom vinho verde que tive o prazer de apreciar, saliento a famosa
«Frize» do Sr. Novais que mais uma vez me ajudou a arrefecer a tarde.
Amigo leitor, o nosso povo é trabalhador, alegre, fascinante, sincero e
repleto de cultura. Meu Deus, como eu me sinto bem no meio deste povo!
Carlos Afonso
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