domingo, 14 de julho de 2013

Ó MINHA NOSSA SENHORA! (A mulher que pediu ajuda à Senhora da Misericórdia



            A história que hoje, dia 14 de julho de 2013 e dia da Senhora de Antime, surgiu de uma ocorrência verdadeira que se me deparou a meu olhos e que muito me emocionou.
            Como todo o Minho sabe, as festividades da Senhora de Antime, em Fafe, são muito intensas e participadas, em que as grandiosas procissões de Antime para Fafe e vice-versa assumem o seu ponto mais alto. É curioso este ritual tão próprio, derivado em lenda e tradição, pormenores que fazem com que a Senhora da Misericórdia visite Fafe por um dia. Pela manhã, carregada por valentes rapazes desloca-se festivamente, acompanhada por milhares de fiéis, para depois, ao final da tarde, regressar à sua morada santa, na Igreja Paroquial de Antime E foi na procissão de regresso que aconteceu o que gostaria de vos contar.  
            Como de costume, e porque o povo ama os ensinamentos que derivam do seu acreditar, a procissão de regresso tem por hábito fazer uma paragem no Lombo, um lugar bem pertinho do rio Ferro e onde eu moro. Assim, este dia de julho, um dia quente de verão, mas que ao cair da noite foi abençoado com uma farta rega vinda dos céus, permitiu-me ver e sentir uma cena comovente e bem próprio de um contexto quase de milagre, acredito eu.
            Já parado no meio da multidão que aguardava a chegada da Senhora, lancei o olhar e a alma em meu redor e foi-me permitido vislumbrar gentes de vários feitios e rostos, mas todas elas com o propósito mergulhado na fé, uma fé que, e porque assim acreditarmos, nos pode salvar. A dada altura, bem ao meu lado, e no mesmo instante em que a Senhora da Misericórdia chegava, ouço a voz baixa, tingida de um gritar abafado e repetido, de uma senhora de escuro vestido:
            - Ó minha Nossa Senhora! Ó minha Nossa Senhora!
            Atento, e com o coração apreensivo, voltei-me para quem implorava e escutei outra vez as mesmas palavras, agora com um acrescento a registar:
            - Ó minha Nossa Senhora, guia o meu filho!
            Em redor, os cânticos ecoavam nos céus, milhares de “papeizinhos”, esvoaçam, a Senhora da Misericórdia com o filho ao colo, com a sua postura calma, contemplava lá do alto os seus devotos, enquanto a charola seguia devagar e a mulher de escuro vestida repetia a sua súplica. Só que, a dada altura, as suas palavras começaram a enfraquecer e a ser cada vez mais angustiadas. E, pouco depois, a suplicante mulher desmaiava, deixando-se cair, amparada pelas pessoas que a circundavam. Já no chão, e enquanto a aflição tomava conta dos que àquela cena assistiam, ouço uma outra voz:
            - Coitada, o filho partiu para Angola na sexta. Ele foi trabalhar para lá… Ela não aguentou da emoção e desmaiou. Coitada, estava a pedir ajuda à Virgem!
            Pouco depois, os bombeiros chegaram e uns tantos procedimentos foram tomados, até à altura em que a mulher de negro vestida foi levada para o hospital.
            Amigo leitor, digam o que disserem, mas para mim foi tudo muito claro. A mulher de negro vestida, ferida pela ausência do filho, pediu ajuda e proteção à Virgem e o milagre aconteceu.
De certeza que, por momentos, a mulher pedinte cerrou os olhos para a realidade de Fafe e foi visitar o seu filho a Angola, para ver, com a sua alma, como ele estava. A Senhora da Misericórdia, também Ela uma Mulher que sofreu por causa do seu filho tão amado, achou por bem atender àquele rogo tão aflito.
Só um pormenor, no momento em que era levada pelos bombeiros, reparei que os olhos da mulher suplicante já estavam abertos, tingidos, agora, de uma calma de mãe sossegada. Afinal o seu filho estava bem e em paz.
“Ave-Maria, cheia de graça!
O Senhor é convosco
Bendita sois vós entre as mulheres
E Bendito é o Fruto do vosso ventre, Jesus
Santa Maria Mãe de Deus,
Rogai por nós os pecadores
Agora e na hora de nossa morte. Amém”



Carlos Afonso

sábado, 6 de julho de 2013

SENHORA DE ANTIME, ZELA POR NÓS



Vir a Fafe no segundo Domingo de Julho e não participar na majestosa procissão de Nossa Senhora de Antime, é perder um momento único e autêntico, onde a fé envolve uma multidão imensa, que embebida numa crença fervorosa, roga à virgem que atenda aos seus anseios e ilumine a sua jornada.
É emocionante aproximarmo-nos, silenciosamente, da igreja onde habita a Senhora, ouvir a santa missa e rezar. Depois, sob o olhar devoto de um sol, que nessa manhã parece sempre mais brilhante, e de olhos postos na imagem, que do alto esparge calmas e afetos, abrirmos o nosso coração peregrino e bebermos a paz que discorre dos céus.
Apoiados na mão da esperança e rodeados pelos cânticos que ecoam pelos ares, é comovente acompanhar o andor, que num passo lento e pesado, vai deslizando pelas ruas engalanadas, apoiado em ombros varonis.
Chegados à ponte onde Antime e Fafe se abraçam, a Senhora de Antime é recebida pela Senhora da Misericórdia, que, num tom dorido e hospitaleiro, se desloca ao local para lhe dar as boas vindas. As Senhoras granjeiam-se, o povo canta, os foguetes atroam os ares, as pombas esvoaçam, os anjos cantam, as lágrimas refrescam as faces, as águas do Ferro soluçam e a fé acrescenta-se à maré de emoção que brota das entranhas dos espíritos...
Para quem ainda não usufruiu desta verdadeira prova de ligação ao altíssimo, é imperioso que o faça, independentemente das suas crenças, para que perceba que a fé é uma torrente, que indiferente aos caprichos dos homens, continua a alimentar a alma de muita e boa gente do Minho.

A Senhora de Antime, Mãe de Deus,
Rogamos muitos favores,
Pois nós somos filhos seus
E entregamos-lhe os nossos temores.


Carlos Afonso

domingo, 30 de junho de 2013

FAFE, UMA TERRA DE TRABALHO, FÉ, ALEGRIA, CULTURA E TRADIÇÃO

            Uma das maiores alegrias que cobrem a minha existência é o facto de morar em Fafe e conviver com o povo maravilhoso e sábio que mora nestas paragens. E porque o que estou a dizer é tão verdadeiro e sentido, quero-vos, amigo leitor, contar um pouco do meu fim de semana.

Depois de uma semana bastante agitada e trabalhosa, procurei, no fim de semana, uma vivência diferente, onde o religioso e o profano se misturaram. Assim, e porque o destino assim quis, e Deus ajudou, os meus passos levaram-me até Fátima, ao São Pedro da Granja e ao parque de merendas da Senhora da Ajuda, em Estorãos.Toda esta minha caminhada foi feita ao de muitos amigos e familiares.

Na companhia do bom povo de Aboim fui a Fátima, no seu passeio anual, organizada pela Junta local, no sábado, dia 29 de junho. Chegado a casa, e depois de regar o meu farto quintal, corri apressado até ao São Pedro da Granja, onde os meus amigos Restauradores estiveram magníficos na organização (partilha e alegria), de um grande evento de cultura bem pintado das cores do povo. No domingo, e depois de alguns compromissos familiares e religiosos,  a boa gente de Estorãos recebeu-me de coração aberto no parque de Merendas da Senhora da Ajuda, numa iniciativa que muito me tocou e onde, mais uma vez, a minha amiga Fátima Caldeira esteve imensa.

Amigo leitor, o mais curioso disto tudo é que toda esta gente com quem compartilhei momentos únicos, entrelaçados pela fé, o convívio, o tipicismo, as tradições, música e a boa gastronomia, estão também de alma e coração no grande projeto cultural que são as Jornadas Literárias de Fafe. E, por isso mesmo, muitas das nossas conversas também passaram por aí. Por exemplo, na Senhora da Ajuda, os amigos de Estorãos organizaram o convívio para comemorar o sucesso das Jornadas Literárias de Fafe/2013. Como se pode imaginar, eu estava nas minhas quintas e feliz.

Em todo um fim de semana riquíssimo em conversas e atitudes, muito se falou do passado, do presente e, claro está, do futuro também.

Se em Fátima o povo de Aboim rezava à Virgem, na Granja, São Pedro zelava por todos os presentes. Já em Estorãos, a Senhora da Ajuda acolhia aquele grande grupo de amigos com o seu manto e fé.

Depois dos deveres religiosos, e porque no Minho é assim, a boa gastronomia da região deu muito que falar, comer e beber. Quanto a beber e sem detrimento do bom vinho verde que tive o prazer de apreciar, saliento a famosa «Frize» do Sr. Novais que mais uma vez me ajudou a arrefecer a tarde.

Amigo leitor, o nosso povo é trabalhador, alegre, fascinante, sincero e repleto de cultura. Meu Deus, como eu me sinto bem no meio deste povo!

Carlos Afonso

 

           

 

sábado, 15 de junho de 2013


Ser Professor…

 

Ser professor é crescer no meio de verdes prados que anseiam pelo sol de Junho!

Ser Professor é caminhar por montes e vales, onde a braveza dos momentos se mistura com os encantos da paisagem!

Ser professor é semear sonhos e estrelas em corações famintos e tenros!

Ser professor é ajudar a construir castelos, onde a areia é mais fina!

Ser professor é saber encontrar certezas onde reinam os silêncios!

Ser professor é palmilhar caminhos difíceis e ir ao encontro do sol!

 

Ser professor é ser pai, mãe, amigo, confidente, resistente, sonhador, ator, orientador, companheiro, lutador, conselheiro, sofredor, acrobata, pintor, escultor, doutor, músico, psicólogo, palhaço, fragmento, ciência, tolerância, ação, guia, rumo, névoa, luz…

 

Ser professor é dar, abrir, erguer, encarar, cuidar, amar, subir, sorrir, encontrar, resistir, viver…

 

Ser professor é ser gente.
 
 
Carlos Afonso

sábado, 1 de junho de 2013

PASSEIOS LITERÁRIOS, uma nova forma de viajar por livros e vidas....




            Desde há uns anos a esta parte que temos vindo a promover em Fafe passeios literários a vários lugares, seguindo sempre um escritor português, e tendo como fonte inspiração um dos seus livros. Este ano, vamos no encalço de Eça de Queirós lá prós lados de Tormes, Baião, seguindo a pista do romance A Cidade e as Serras.

            Vários foram os criadores literários que tem servido de suporte a esta nova forma de ler e sentir um autor. Já estivemos em Mogadouro, com Trindade Coelho, em Sernancelhe, com Aquilino Ribeiro, em Sabrosa, com Miguel Torga e em Ribeira de Pena, com Camilo Castelo Branco. O passeio conta sempre com as entidades culturais e autárquicas das terras por onde andamos, e o sucesso tem sido evidente.

            Sem sombra de dúvida que ao basculharmos a vida de um escritor, para depois pegar num dos seus livros ao acaso e, de seguida, tentar materializar e vivenciar o mais fiel possível o seu imaginário, é fascinante. Tentamos ir ao sítio exato onde o escritor esteve. Procuramos encontrar os objetos que ele tocou. Tentamos falar com as pessoas que o conheceram ou com os seus familiares. Lemos excertos da obra em causa. Fazemos o possível e o impossível para sentir as suas fontes de inspiração e, e porque precisamos de comer para existir, temos o cuidado de saborear as iguarias que o escritor ou as suas personagens apreciavam. Por vezes, e as recriações históricas dão-nos essa possibilidade, até encontramos o mundo imaginário do criador literário ao vivo e tal e qual como se deve fazer. Para tal contamos com a amizade de grupos de teatro e associações capazes de isso e muito mais.

            Ora bem, as terras e lugares também têm muito para ver e sentir, para além do que diz só respeito ao próprio escritor. Assim, e já que vamos caminhar por outros sítios e tocar em realidades diferentes, procuramos ir ao encontro da paisagem, da história, da tradição, das gentes, isto é, de toda a cultura que por lá se nos oferece. São sem sombra de dúvida momentos especiais e únicos.

            Este ano de 2013, no dia 22 de junho, vamos até Tormes, Baião, ao encontro do Jacinto (personagem d`A Cidade e as Serras), e de toda uma circunstância, devidamente organizada. Depois de sairmos de Fafe, vamos olhar de longe Teixeira de Pascoais em Amarante, para, de imediato seguirmos para Baião. Por lá, nos esperam pessoas bem preparadas para nos guiarem por todo um burgo que ama a cultura. Ao almoço, as ementas queirosianas serão o nossos repasto, onde o arroz de favas se fará anunciar a rigor e por quem de direito. Consolados e felizes, pegaremos na vontade e outros afins e vamos até à Casa de Eça de Queirós, onde faremos uma aperfeiçoada visita e onde escutaremos alguém que sabe muito do escritor realista. Se calhar, e porque vem mesmo a calhar, a personagem do romance, o Jacinto, é capaz de nos aparecer por lá e dizer tudo o que sabe acerca do romance onde habita. Claro que muitos outros pormenores irão ser tidos em conta. Já que o rio Douro, anda por ali, é preciso repara nele. E porque o realizador Manoel de Oliveira rodou o seu filme ”Francisca” naquelas bandas, e até sabemos de Camilo Castelo Branco e Agustina Bessa Luís, beberam inspiração naquelas penedias e casario, somos obrigados a esclarecer tudo isso. O leitor não acha que fazemos bem? Mais não digo, porque a surpresa o acaso também são imprescindíveis nestas coisas.

            E é assim, no dia 22 de Junho, Eça estará à nossa espera e nós iremos, com muito agrado, ao seu encontro, pois esta forma de fazer cultura exige esforços de todas as partes. Quando estivermos de volta, contarei o que por lá se passou. Promessa feita…

            Só mais um acrescento, que pode ser útil. Se algum dos caminheiros quiser levar o romance em causa, ou outro qualquer suporte fiável de Eça, para ver se não fugimos muito ao real imaginário do escritor, pode levá-lo à vontade. Se calhar até pode dar jeito. Quem sabe?

Carlos Afonso


sexta-feira, 24 de maio de 2013

AS 4ªs JORNADAS LITERÁRIAS DE FAFE IMPULSIONARAM A CONFRARIA DA VITELA ASSADA À MODA DE FAFE



 

            Seguindo o meu propósito de partilhar com o leitor amigo histórias e momentos que as Jornadas literárias me proporcionaram, quero desta vez contar-vos o verdadeiro motivo de aparecer no programa das Jornadas o ponto «Apresentação da Confraria da Vitela assada  à moda de Fafe», para que os homens de hoje não se esqueçam do sentido da palavra «fundadores».  

            Eu sei que, às vezes, os pequenos instantes podem degenerar em factos de maior monta, consoante o entender de cada um ou conforme o que queremos ver. Ora bem, num final de manhã de domingo frio de novembro, passeava-me sem pressas pela Praça 25 de Abril, em busca dum pouco de bem-estar, pois este espaço maior de Fafe é de um encanto sem par, faça frio ou não, quando algo de curioso aconteceu. Bem ao meu lado, um Citroen de cor acinzentada estacionou, ocorrência que me chamou a atenção, porque um leve toque de buzina foi-me intencionalmente dirigido. O passeio que trilhava, mesmo em frente à Escola Profissional, estava meio húmido e não se importou que eu parasse e esperasse o resultado daquele chamado.

            De dentro do carro acinzentado saiu um casal dos seus trinta anos, jovens na forma de vestir e de sorrir, primeiro ele e depois ela, que, por acaso, se chamava Luísa, pois o marido teve necessidade de pronunciar o seu nome. Digo marido porque ele, quando se me dirigiu, disse o seguinte:

            - Bom dia, eu e a minha esposa precisávamos de uma informação.

            A roupa que Luísa trajava estava adequada à época do ano. Um farto casaco amarelo-torrado condizia na perfeição com a cor dourada dos seus cabelos e o seu rosto ameno. As calças castanhas com um cinto bem visível deixavam transparecer o desenho agradável do seu corpo de mulher jovem. Quanto à forma de vestir do marido, nada a assinalar, pois não reparei devidamente nesse pormenor. O que me despertou a curiosidade foi o que ele me disse de uma forma bem visível, pois até um uma mulher que por ali passava, naquele mesmo momento, parou também para ouvir.

            - Nós moramos em Aveiro e andamos a dar uma volta pelo norte. Estamos hospedados em Guimarães, e hoje resolvemos vir a Fafe. Sabe, o meu avô falava muito da vitela à moda de Fafe. Ele trabalhava nos caminhos-de-ferro e disse-me, algumas vezes, que em Fafe se comia a melhor vitela do Minho. Sabe-me dizer onde posso ir almoçar para provar a tal vitela?

            Meio espantado, não soube dar, de imediato, uma resposta ao meu interlocutor, e quando me preparava para tentar dizer alguma coisa, a mulher que havia parado perto de mim acrescentou logo:

 

            - O seu avô, de certeza que comeu essa vitela na pensão «Zé da Menina», mas esse lugar já fechou há muito.

            -Oh que chatice – acrescentou logo o forasteiro, ao mesmo tempo em que a sua esposa dava um pequeno jeito no seu airoso cabelo - e agora?

            -Mas, cá em Fafe há um outro sítio onde se come boa vitela, mas não sei se está aberto. É na Adega Popular. Quanto a outros sítios… não estou a ver bem…

            Para azar dos visitantes de Aveiro, que haviam feito longos quilómetros para comprovarem e saborearem as verdades de um avô que tinha boas recordações de Fafe, a opção apresentada estava mesmo fechada. Era domingo e a Adega fecha aos domingos. Ainda os conduzimos a um outro restaurante que existia por ali, mas lá só havia bifes vitela com molho de cogumelos. E porque não quiseram saber de mais nada, e talvez desiludidos com a ocorrência, esqueceram a ideia da vitela e decidiram rumar a Cabeceiras de basto, pois alguém lhes tinha falado de um bom cozido que se comia por lá.

            Perante situação tão estranha, comecei a pensar que as certezas do avô do forasteiro não podiam ficar naquela situação tão empalidecida. Por isso, quando cheguei a casa, e porque estava, na altura, a trabalhar no programa as Jornadas Literárias, resolvi colocar no mesmo o seguinte acrescento «Confraria da Vitela assada à moda de Fafe», sem saber se existiriam pernas para caminhar. Pensei eu, na altura, que se calhar seria boa ideia, pois seria importante trazer de volta a todos os restaurantes de Fafe a obrigação de preservarem tão importante repasto. E porque as Jornadas Literárias têm na sua real conceção preservar o que de bom existe na tradição de um povo, e porque a cultura também se evidencia na gastronomia, tudo começou a acontecer.

            Felizmente, a Naturfafe, a entidade por excelência que tinha e tem todas as condições para pegar em tão importante tarefa, juntou-se às Jornadas Literárias e teve a simpatia de confecionar a ideia e trabalhou sabiamente nesse sentido. Pelo que sei e pelo que vi, a «Confraria da vitela assada à moda de Fafe» já está no bom caminho e, muito em breve, tudo será uma realidade feliz.

            Lamento apenas que o nosso forasteiro e esposa não tenham tido a oportunidade e a sorte de saborear a Vitela à moda de Fafe, mas, se calhar, um dia isso pode acontecer.

Carlos Afonso

domingo, 12 de maio de 2013

Pedaços das Jornadas Literárias de Fafe: O ALBATROZ AZUL




Depois de três semanas intensamente vividas em redor das 4ªs Jornadas Literárias, assentes em mais de 150 iniciativas culturais, previamente definidas e realizadas por todo o concelho (escolas, salas de aula, polivalentes, Instituto Superior, livrarias, bibliotecas, museus, multiusos, Teatro-Cinema, Sala Manoel de Oliveira, jardins, praças e casas apalaçadas de Fafe, salões paroquiais, Juntas de Freguesia e no meio da natureza magnífica deste pedaço do Minho), foi visível sentir múltiplas formas de cultura condignamente apresentadas.

            O que aconteceu, mais uma vez, nas Jornadas Literárias de 2013 foi extraordinário. Foram milhares os que trabalharam com vontade e querer nos inúmeros eventos, contribuindo, assim, para a imensa produtividade que daí derivou. O passado, o presente e o futuro mostraram, ao longo destas semanas, a receita acertada que pode ajudar a engrandecer um povo. A partir das nossas crianças de tenra idade até a pessoas de muita idade, mas todos agarradas a definições certas e puras de literatura, cultura, tradição e etnografia, sem terem de apegar-se a frases feitas, foi evidente notar que a grandeza de um rio não está apenas na sua foz. Ela também se vislumbra nos afluentes, margens que o definem e nas suas nascentes.

            Ao longo de toda a dimensão das Jornadas Literárias, uma das suas maiores riquezas foi a capacidade de pegar nas histórias que têm definido os destinos de Fafe e construir, a partir daí, outras histórias. Os livros escritos ou apenas sentidos foram, assim, a literatura das Jornadas. Os poetas e prosadores de Fafe, as lendas, o sotaque e os contos que salpicam a memória do nosso povo, a vontade de voltar a escrever o que já havia sido encontrado fizeram com que caravelas atracassem em Fafe, o comboio regressasse, os emigrantes retornassem da sua viagem, as palavras construíssem enredos completos, os campos mostrassem o seu tipicismo, a música e a dança tropeçassem em poesia, os sonhos de terra e de mar brotassem do interior de muitos livros, fazendo com que o passado se sentisse na obrigação de perspetivar o futuro. E o mais intenso é o que estaria para vir, pois muita literatura  poderá ser edificada a partir do que aconteceu. E porque o que acabei de dizer é verdade, amigos leitores, escutem, agora, um quase crónica, inspirada numa realidade das Jornadas Literárias de Fafe.

            Numa das minhas aulas de Literatura Portuguesa, numa quarta-feira de março, pedi a atenção aos meus alunos para João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores escritores de Língua Portuguesa, descendente de fafenses, a viver no Brasil, e que em 2013 seria o patrono literário das Jornadas. Falei da sua obra, lemos e analisámos alguns excertos do seu romance “O Albatroz Azul” e, porque o Dia Mundial do Livro era uma data para assinalar, lancei o desafio para que em casa partilhassem a obra deste grande homem das letras com as respetivas famílias. No meu entender, seria uma forma interessante de levar Ubaldo Ribeiro ao encontro de outros fafenses. A ideia foi entendida e esta iniciativa das Jornadas ganhou forma e efeito. O mais interessante foi o que aconteceu a partir daí.

Luísa, um nome fictício, depois de ter escutado atentamente as minhas palavras, centradas na novidade de os alunos partilharem literatura com os seus familiares, ao chegar a casa, acomodou a pasta numa cadeira, disposta num dos cantos da sala e correu, sem fazer barulho, para o quarto do seu avô. De setenta e três anos, o avô de Luísa estava acamado há mais de cinco anos e sofria de uma doença incurável. Os médicos já há muito que lhe tinham definido a sua sina. No entanto, a sua vontade havia-o segurado à existência e aos afetos da sua neta.

            - Avô, Avô, tenho aqui um presente para ti. Estás a ouvir-me?

            Claro que o avô a estava a ouvir. Nem sempre os olhos cerrados são sinónimo de ausência.

            -Diz, minha pequena. O que me trazes? Mas antes quero um dos teus beijos.

            - Está bem, avô, - despachada, pousou-lhe no rosto um beijo doce e nas mãos “O Albatroz Azul” de Ubaldo Ribeiro.

            - Olha, avô, comprei este livro e gostaria de te ler alguns excertos, pois sei que gostas muito de ouvir histórias!

            Claro que o avô adorou a ideia, pois, e mesmo incomodado com as dores habituais e incómodos da doença, o fascínio dos livros falou mais alto. Recompôs-se na sua postura e preparou-se para tão solene momento.

            -Posso, avô? Posso? «Sentado na quina da rampa do largo da quitanda, as mãos espalmadas nos joelhos (…).»

            Pelo que me contou, ainda com as lágrimas nos olhos, a minha aluna, ela demorou mais de três dias a ler o livro ao seu avô, e nem a mãe a conseguira impedir com os seus mais que justificados argumentos.

            E porque os leitores desta quase crónica só vão ler mais tarde o romance de Ubaldo Ribeiro, dando, assim, continuidade à dimensão literária das Jornadas, quero dizer-vos que o livro de tão insigne escritor conta uma história interessante, onde a morte e a vida se cruzam. O livro fala de um homem muito velho que, e apesar de possuir muita sabedoria trazida por todos os seus anos de existência, ainda procurava apreender sentidos para a vida. Sabendo que a sua morte estava próxima, uma certa inquietação perturbava-lhe a existência. A dada altura surgiu na sua frente um albatroz azul, um pássaro que não existe, mas que, e tal qual um anjo, o abordou e o conduziu para o paraíso.

            Para finalizar esta minha quase crónica, apenas vos digo que o avô da minha aluna Luísa, um nome fictício, morreu pouco tempo depois de se ter deliciado, no seu sofrimento, com o carinho da neta e o enredo sentido que João Ubaldo Ribeiro lhe ofereceu. Provavelmente, o Albatroz Azul que levara no seu voo o velho homem, o protagonista da narrativa, para o céu, foi o mesmo que abriu as portas do paraíso ao avô da minha aluna.

Digo-vos, também, e porque a minha aluna também gosta de escrever histórias,  que ela fez o favor de me entregar em mãos uma linda e emotiva narrativa, e que em breve publicarei, intitulada “O sorriso azul do meu avô”.  Que título curioso!

(Esta foi apenas a primeira história real, das muitas que tenho necessidade de partilhar com os amigos leitores, inspirada nas 4ªs Jornadas Literárias de Fafe.)

Carlos Afonso