sexta-feira, 5 de abril de 2013

AS VERDADEIRAS CORES DAS JORNADAS LITERÁRIAS DE FAFE


 

 

            Desde há uns anos para cá que em Fafe está a ser construído um projeto cultural, sempre em crescendo, com objetivos claros e dignos, cuja seiva que o vai alimentando advém do suor, sonhos, alma, tempo e coração de muitos fafenses.

            Ainda me lembro a hora e o local como tudo começou. Estávamos em outubro de 2009, numa aula de Literatura Portuguesa, altura em que questionei os meus alunos acerca do que iriamos fazer no Projeto Individual de Leitura, componente obrigatória da disciplina. Numa resposta visionária, uma aluna adiantou-me que podíamos estudar os escritores de Fafe e “(…) fazer algo como umas Jornadas Literárias, professor(…)”. Bendita a hora em que a minha aluna disse o que lhe nascera no entendimento, pois, e a partir daí, a nascente do rio começou a jorrar e nunca mais deixou de correr. Assim, e logo em março de 2010, a Escola Secundária de Fafe, o ventre materno das Jornadas, interligou-se com a Câmara Municipal e, em parceria, começaram a erguer tão importante construção: as Jornadas Literárias de Fafe.

            Se no início o rosto do evento, ainda a dar os primeiros passos, era apenas literário e muito ligado aos escritores fafenses, com os anos, outras metas se foram abrindo e outras vertentes culturais vieram à luz do dia. E tudo foi acontecendo e crescendo, porque mais agentes se associaram ao projeto, concretamente, Escolas, Município, Freguesias, Associações e Instituições. Isto é, todo o Concelho de Fafe, imbuído de um só peito e amor a Fafe, ergueram a sua vontade e têm trabalhado em prol das Jornadas Literárias.

            Quando olhamos para a bandeira que define as Jornadas Literárias podemos ler e sentir mensagens lindas, sugerindo toda uma unidade que nasce na diversidade das gentes que habitam as terras de Fafe. As suas reais cores, em forma de telhas, idênticas às que cobrem o casario de traça brasileira que enfeita as nossas ruas, mostram que a verdadeira cultura abarca o fio que ata a existência de todos os fafenses. Não debotem as cores com a perversidade dos pecados dos homens. As Jornadas Literárias abraçam e misturam todas as cores políticas, clubísticas, associativas, administrativas, bairristas, etc… derivando daí uma substância incolor e pura: AMOR A FAFE…

            Como Coordenador das Jornadas Literárias de Fafe, sinto correr nas suas veias um pouco do meu sangue que, conjuntamente com o sangue de toda uma multidão, dá vida a tão promissor e necessária construção cultural. As Jornadas são de todos nós e pronto… Por favor, não utilizem as Jornadas para fins para os quais não foram criadas. Não as utilizem como arma de arremesso, pois ao fazê-lo estão a destruir a sua essência e rosto. Não matem esta flor perfumada, que tanto acreditar e esperança tem oferecido aos fafenses de boa vontade…

            Eu sei, e seria muito ingénuo ou demasiado atrevido e até louco varrido se pensasse o contrário, que a cultura fafense se esgota nas Jornadas Literárias. Nem pensar. As Jornadas são apenas uma visão diferente que bebeu no muito que tem sido feito e continuará a ser feito por estas paragens. As Jornadas são como aquela avezinha que gosta de bebericar aqui e ali e depois construir o seu ninho com o que de bom existe em seu redor. As Jornadas são como uma árvore florida, que só consegue o seu encanto, porque o terreno em que cresceu é bom e nutrido e as estações do ano lhe foram e são favoráveis.  

            As Jornadas não são minhas nem são tuas, elas são de quem as agarrar e amar… As Jornadas são o que nós quisermos que elas sejam…

            As Jornadas não são o princípio de nada, mas são o tudo que nós quisermos ansiar! Elas cheiram a povo, paisagem, tradição, literatura, broa, sonhos, estrelas, caminhos, arte, trabalho, música, memória e muito mais…

            Neste ano de 2013, as 4ªs Jornadas Literárias de Fafe serão do tamanho do universo que desenha o nosso querer. Unamo-nos em seu torno e trabalhemos pela sua causa. Da minha parte, só lamento não ter mais tempo e forças para lhe dedicar…

            Para terminar, e antes que esgote todas as páginas que seria necessário escrever para gravar o que sinto, peço-vos um grito a uma só voz e coração «DE FAFE, COM FAFE, PARA TODOS…»

 

Carlos Afonso

sexta-feira, 29 de março de 2013

O ÚLTIMO OLHAR DE JESUS...



 

  

Quase desde o início do mês março que a cidade se cobria com umas enfadonhas e molhadas tardes, indefinindo rostos, apagando flores primaveris, abafando almas, escondendo caminhos e alumiando muitas ausências. Maria era uma das muitas pessoas que habitavam por ali, sem que ninguém lhe tenha dito para ir para outro lado. Para quê? O destino não o permitiria. A não ser que um olhar maior lho consentisse

Maria já não sabia o que fazer. Meia adoentada por uma indisposição qualquer que não sabia definir, os dias pareciam-lhe demasiado tristes e sem sentido! O seu corpo de mulher de vinte e três anos continuava em desacordo com os conceitos gerais de beleza e nenhum olhar de rapaz mais afouto o procurava para lhe descobrir algum sabor. A mãe de setenta e tantos anos continuava acamada e repleta de sofrimento, pois não havia dinheiro para um tratamento a sério. O único irmão, mais velho do que ela, pelo que ouvira dizer desde o dia em que aprendera a ver o mundo, fora levado por um tio para as américas. Quanto ao seu emprego, tudo na mesma. O patrão fechara a fábrica sem dizer nada, há mais duas semanas, sem o mínimo espírito de arrependimento, e sem pagar os ordenados desde janeiro. Pelo que alguém disse, foi-se embora de Portugal no seu jato particular. Pudera, para quem tem mais de um dúzia de empresas na América latina, fechar uma simples fábrica no Minho, não causa qualquer tipo de remorsos.

Desempregada, penso que o nome correto é mesmo este, apesar de segunda a sexta, sem que uma semana passe em claro, tanto ela como as suas colegas de ofício, passem algumas horas no seu ainda local de trabalho, mesmo de portas fechadas e com as máquinas paradas. Algum dinheiro que possa vir a mando dos tribunais viria mesmo a calhar.

Faltavam apenas poucos dias para a Páscoa e era preciso manter a tradição. Uma mesa mais enfeitada com todas as iguarias da época seria o ideal. O problema é que na carteira não havia a quantia necessária para gastos maiores, quanto mais comprar um pão-de-ló e, mais a mais, já há muito que a ridícula reforma da mãe tinha ficado resgatada na farmácia e noutros sítios onde se pagam dívidas.

 E porque a mãe tinha o direito a um dia especial como todos os outros, tinha de fazer alguma coisa. Depois de a cuidar com todo o carinho que lhe é reconhecido, deu-lhe um imenso beijo no rosto, e despediu-se, dizendo que vinha já. Como a mãe já almoçara, Maria pensou que ela não precisaria de o fazer, pois, dessa forma, o jantar já estaria feito. Uma simples maçã e um copo de leite resolveriam o seu problema e nem à mesa se sentou. Deixando a mãe sossegada e com alguma paz, foi para o seu quarto, mas como constatasse que o frasco de perfume já estava vazio, arranjou-se como pode e, dali a pouco tempo, saiu. Era Sexta-feira Santa e a chuva continuava a cair, dando a este dia nomeado as cores exatas com que o mundo cristão o tinge.

Por volta das três horas da tarde, o exato momento em que Maria passava em frente à Igreja de São José, bem no centro da cidade de Fafe, um mau estar sem precedentes fê-la cair sem estrondo no lajedo do passeio. Angustiada e sem forças para se erguer, sentiu a quentura do sangue a afagar-lhe o rosto e uma ou outra voz que a interpelavam. Sem ânimo, fechou os olhos e desistiu. Dentro de si, brotou a leve lembrança de que Jesus Cristo também morrera numa sexta igual àquela e, dessa forma, Maria também aceitou a morte. Quem era ela para escolher outra hora? Não era qualquer um que acabava os seus dias numa data assim.

 A dada altura, e depois de uma imensa negritude jamais vivida, a alma trouxe à sua presença o rosto de um homem rodeado de paz, com um olhar mais brilhante do que o sol, que, em breves palavras, lhe apontou o seu verdadeiro caminho:

- Maria, levanta-te e anda, a tua família e amigos esperam-te…

Sem jeito e surpresa na sua forma de estar, sempre conseguiu dizer:

- Senhor, que olhar tão belo… Eu conheço-vos… Vós… vós… sois Jesus.

E porque assim estava escrito, Maria voltou à vida e, para sua felicidade, em redor da cama do hospital, para onde fora levada depois de ter caído na rua, estava a sua mãe, seu irmão com uns olhos azuis que encantavam e algumas das suas companheiras de trabalho.

 Como tudo aconteceu para que este quadro, impensável ainda há pouco, pudesse acontecer, também eu, narrador, não sei responder. Ou sei?

Lá fora, o sol voltara e um perfume especial inundava os lugares e momentos.

 

Carlos Afonso

domingo, 17 de março de 2013

OBRIGADO, FAFE!



 

Na Gala do Notícias de Fafe, realizada na noite de sábado de 16 de março, numa festa lindíssima, organizada para comemorar o primeiro aniversário deste tão distinto jornal, no Teatro-Cinema, e a quem desejo as melhores felicidades, tive a honra de ser galardoado com o prémio “Ardina de Ouro”, na componente Cultura/Letras.

Num sentimento de profunda amizade, deixo aqui o meu OBRIGADO a todos os leitores do Notícias de Fafe que tiveram a simpatia de votar em mim, e um forte abraço a todos os que estavam nomeados, nas várias vertentes, vencedores ou não, pois todos eles mereciam ser premiados, uma vez que, e sem sombra de dúvida, têm assumido, ao longo dos anos, um papel de relevante na vida de todos os fafenses.

Uma vez que o “Ardina de Ouro” me foi atribuído principalmente pela minha ação nas «III Jornadas Literárias de Fafe», queria deixar bem claro que este digníssimo galardão tem mais destinatários. Eu apenas sou uma pequena gota neste enorme oceano de cultura. Ele é, também, e com todo o mérito, para os milhares de fafenses que têm trabalhado comigo nesta grande iniciativa.

Assim, numa atitude de humildade e profunda gratidão, entrego este merecido prémio nas mãos dos justos vencedores que habitam o mui formoso Concelho de Fafe: Colegas de organização das Jornadas, Escolas, Juntas de Freguesia, Associações, Instituições e Camara Municipal.

Uma vez que estamos apenas a um mês das próximas Jornadas, as «IV Jornadas Literárias de Fafe», que decorrerão de 19 a 18 de abril, deixo um sentido convite a todos os fafenses, e não só, para que se juntem a nós e nos ajudem a levar cabo esta hercúlea tarefa que tem como reais objetivos promover e preservar a cultura de um povo que habita estas terras pintadas de um genuíno verde granítico: memórias, tradições, usos, crenças, arquitetura, literatura, folclore, artes, gastronomia, música, rostos e sonhos…

OBRIGADO

                                                                      Carlos Afonso

Foto: Jesus Martinho
 

terça-feira, 12 de março de 2013

AS ALEGRIAS DE UM PROFESSOR





       Por muito que os dias nos mostrem cores de que não gostamos, há sempre um ou outro momento que nos fazem sorrir e olhar o horizonte com esperança. E porque o que acabei de dizer é verdade, deixo aqui uma pequena confidência, imagem exata do que me aconteceu, hoje, dia 12 de março de 2013,pela manhã, na Escola EB2,3 de Arões.
       Convidado a participar da Semana da Leitura no estabelecimento de ensino acima referido, e durante uma iniciatica cultural, onde falei da minha faceta de modesto escritor, iniciativa que decorreu muito bem, e que também contou com a presença do jovem Rui Miranda, autor das ilustrações de um dos meus livros,uma aluna, a Fernandina Costa do 5ºC, ofereceu-me um singelo ramo de flores e um lindo poema da sua autoria.
       Feliz com tamanha gentileza e coberto por uma emoção que me cobriu a existência, senti necessidade de fazer o que o coração me mandou: deixar neste meu espaço um agradecimento forte aos que tão bem me receberam e o poema que a minha jovem amiga de ofereceu.


POEMA

 

Escreve livros
 
Poesias

É ótimo escritor

Nos seus dias.

 

Nas crianças

Não hesita em pensar

Ele vai escrevendo

Para as crianças agradar.

 

Escrever

Faz-lhe melhor sentir

Apesar da natureza

Também o seduzir.

 

Ele adora Português

E aulas está a dar

Adora os alunos

Que o fazem sonhar.

 

É adorado por muitos

Nada o vais parar

É feliz como é

Vamos lutar

Para que continue a sonhar…

 

Fernandina Costa 5ºC

Escola EB2,3 de Arões

2012/2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O SEMEADOR DE ESTRELAS


 

Conta-se que há algum tempo atrás, nas terras de Montelongo, vivia um homem que tinha por costume, durante o seu sonhar, seguir o rumo das estrelas e o seu eterno brilhar. Numa noite, naquelas noites em que os céus do Minho se enchem de milhares de pontos a cintilar, esse homem conseguiu ir longe nos seus intentos e, depois de muito o tentar, conseguiu roubar algumas estrelas do seu límpido morar. Assim, e sem que ninguém o notasse, escondeu-as numa velha sacola e, com algum engenho, arrumou-as num determinado sítio até encontrar o momento adequado para um destino lhe dar.

Na sua vontade de homem que não via limites no seu desejar, achou por bem escolher o local acertado para, com jeito e todo o cuidar, as suas estrelas, finalmente, semear. Correu montes e vales, aldeias e vilas, sempre sempre a procurar. E, na sua demanda de pasmar, sempre lá achou o chão propício para o seu desejo materializar.

E porque um homem só não vai a qualquer lugar, chamou logo uns amigos para com ele trabalhar, que numa atitude responsável, mostraram muito gosto em ajudar. Se no início eram poucos, depois foi sempre a acrescentar, até que a dada altura já era um concelho inteiro nesta grande empreitada a trabalhar

A terra eleita, para este necessário semear, foi limpa de alguns pormenores para se poder lavrar. Do céu veio o sol e a chuva e encanto do luar, para logo de seguida as tais estrelas roubadas do sonho serem ali lançadas, para mais tarde poderem de novo acordar. O tempo lá foi seguindo no seu normal caminhar, até que num mês de março, que não se sabe precisar, umas ervinhas bem fresquinhas começaram a despontar.

Se no mundo há maravilhas com todo o seu encantar, naquelas terras do Minho aconteceram coisas que deram muito que palestrar. Assim, o que eram estrelas de um outro estrelar, agora daqueles campos brotam tradições e memórias que a alma de todo um povo deverá sempre preservar. E porque o futuro ainda tem muito para dar, é importante que o trabalho continue pois é de cultura e vidas que estamos a falar.

 

«Um povo sem memória é um povo sem história, e um povo sem história é um povo sem futuro.»

Carlos Afonso

domingo, 17 de fevereiro de 2013

PARA FAFE, COM AMOR



FAFE

 

Estendida aos pés dos cinzentos graníticos dos montes,

E coberta por uma imensidade de verdes que a decoram

E lhe emprestam a sua sina,

 Fafe emerge da frescura amena que a afaga,

E mostra, aos silêncios que lhe estendem o seu manto,

 A verdade de uma terra que não morre,

E as certezas de que o céu é a mansão dos seus heróis.

 

Abrigada dos ventos que não param,

E voltada para um futuro que se lhe oferece,

 Fafe recebe da pureza das velhas carvalhas,

Onde esbarram as friezas invernais,

A vida de um povo marcado pela seiva gloriosa dos sonhos

 E pelas conquistas gravadas, nas paredes da sua história.

 

Apelidada da sala de visitas do Minho

E atenta ao andar das águas, que os rios levam para o mar,

Este amor de cidade aceita, na sinceridade das suas ruas

E na simpatia dos seus usos,

O passo das muitas gentes

Que queiram sentir o pulsar das nascentes virginais

E a franqueza jovial do esvoaçar das aves

Por entre pauis e pinheirais.

 

Agarrada à franqueza que lhe corre na alma sedenta

E imersa na riqueza que alinda a sua memória,

Fafe esparge o perfume poético dos jardins,

E convida o coração dos caminhantes a saborear e a sentir

Os encantos de uma terra, onde a lenda da sua justiça

E a doçura das suas cavacas

Acalentam a sua perene existência. 
 
 
Carlos Afonso

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

SEMEAR O FUTURO


 

 

                Porque as 4ªs JORNADAS LITERÁRIAS DE FAFE se aproximam (19 a 28 de abril), sinto necessidade de partilhar alguns excertos da entrevista que dei ao jornal “Notícias de Fafe”, de 5 de abril de 2012, centrada nas Jornadas Literárias de Fafe. Será que o passado tem razão?

                                                                              **

CA- Em primeiro lugar, quero agradecer o convite simpático que o “Notícias de Fafe” me fez para esta entrevista. É uma honra poder colaborar com este jovem e promissor semanário fafense. Conheço alguns dos seus excelentes profissionais, o que me leva a acreditar que Fafe está mais rico, pois a cultura e as nossas tradições terão mais um espaço para se evidenciar.

 

NF - Em poucas palavras como descreve a cultura fafense da primeira década do novo século?

 

CA – Nasci numa aldeia de Trás-os-Montes e, desde essa altura, tenho percorrido muitas terras, conhecido muita gente e contactado com muitas formas de fazer, sentir e promover a cultura.

A vossa questão pede-me para descrever a cultura fafense na primeira década deste século. Ora bem, em primeiro lugar quero dizer-vos que a cultura fafense tem seguido um caminho positivo. Os responsáveis pelo seu incremento são pessoas de bem e que eu estimo e admiro. São pessoas que têm uma forte sensibilidade cultural e que sabem o que fazem. Claro que nem tudo tem sido perfeito, mas isso é normal acontecer, pois os homens são detentores de falhas e pormenores a melhorar. Fafe tem uma forte e diversificada vivência cultural, não podemos esquecer que os nossos jardins, para além de flores, estão salpicados de muita poesia fafense, o que me satisfaz muito. O apoio a autores fafenses, nas várias vertentes, também tem sido uma excelente ideia que deve continuar. Se calhar o que estava a faltar era uma cultura um pouco diferente, uma cultura que batesse às portas das pessoas, que é o que está a fazer-se sentir com as Jornadas Literárias.

 

NF - Como surgiu a ideia das Jornadas Literárias (JL)?

 

CA – A vossa questão remete-me não só para o ano de 2010, altura das 1.ªs Jornadas Literárias de Fafe, como também para o tempo em que organizava eventos culturais na minha pequena aldeia, ainda como estudante, assim como para o tempo em que nas colónias de férias, durante as pausas escolares, onde gostava de envolver todas as crianças e monitores em torno de uma ideia. Graças a Deus que sempre consegui organizar momentos culturais de que me orgulho. E o mais interessante é que as pessoas também se reviam neles.

Quando em 2010, e em conversa com os meus alunos de Literatura Portuguesa, lhe confidenciei de que seria interessante assumir uma atitude mais intensa e ativa perante a cultura e os escritores de Fafe, eles foram os primeiros a incentivar-me e a colocarem-se do meu lado. A partir daí, um rio que começou a nascer dentro de mim, nunca mais parou. Conversei com alguns amigos que de imediato de juntaram a mim, assim como a Diretora da Escola Secundária, Dr.ª Natália Correia, que sempre me apoiou nestas iniciativas. A minha amizade com o Dr. Coimbra, um homem de muito valor e que muito estimo, permitiu ligar-me à Câmara Municipal, o que veio a consolidar o projeto das Jornadas e a lançá-lo no futuro.

 

NF - Que significado tem para si este evento cultural?

 

CA - Como devem imaginar, este evento cultural tem, para mim, um valor incalculável. Às vezes, as pessoas admiram-se com o afinco que eu dedico a esta iniciativa. Mas é a minha forma de embalar um filho de tenra idade que ainda tem um longo caminho à sua frente para percorrer, continuamente envolto em dificuldades e indecisões. Não admira por isso que quando alguma coisa não corra pelo melhor, eu sofra e me preocupe. As Jornadas literárias não são minhas. São de Fafe. Mas têm nas suas veias o meu sangue. Olho para esta forma de fazer cultura como uma mais-valia para toda uma região e para todo um povo que não quer esquecer as suas raízes e a sua alma.

 

NF -Considera que as JL abriram novos horizontes para a cultura fafense?

 

CA - Eu sei que às vezes é mais fácil tratar da cultura através do telefone, pois há organismos específicos que permitem organizar eventos quase sem falhas. Há especialistas para isto e para aquilo. Basta ligar e já está. As Jornadas Literárias são diferentes. Tudo assenta no amadorismo, no gosto que se coloca nas coisas, na boa vontade das pessoas, na verdade dos momentos, na cultura que mora dentro de nós. Esta forma de tocar as pessoas faz com que novos horizontes se abram e que esta construção cultural não tenha um limite definido. Há sempre qualquer coisa a acrescentar e a limar.

Pessoalmente, penso que o que está a acontecer em Fafe é uma espécie de necessidade de sobrevivência. O nosso povo, as nossas instituições e associações têm os olhos postos nas Jornadas Literárias e veem nelas uma forma de mostrarem o que de bom sabem fazer, assim como uma espécie de janela que os ajuda a justificar a sua existência. Eu acho que Fafe ainda vai ter muitas surpresas agradáveis, porque há muito querer na nossa gente e gosto em mostrar o que de melhor têm.

 

NF - As JL arrastam multidões que lotaram o Multiusos e encheram o centro da cidade. Existe segredo para esta mobilização?

CA - O segredo está no espírito das jornadas que mora bem no fundo das pessoas. As Jornadas Literárias cheiram a verdade, a tradições, a povo, a terra, a ar puro, a pedras, a alma, a coração, a fé, a ribeiros, a partilha, a bairrismo, a esperança, a broa e a sobrevivência. O segredo das Jornadas está, igualmente, no poder de união que se espalhou com o vento e ao ritmo dos sons da verdadeira música minhota. O segredo das Jornadas está no facto de as pessoas as sentirem suas.

 

NF - Como se consegue fazer tanto com tão pouco?

 

CA - As terras de Fafe são ricas em cultura, história e folclore. As várias escolas que existem no concelho estão repletas de excelentes professores e de alunos com muito engenho. As associações, as instituições, as Juntas de freguesia, o Município e outros organismos não se importam de dar tudo o que têm. A minha demanda e a dos meus colegas de ofício pelas nossas freguesias permitiu-nos conhecer pessoas de excelência, o que ajudou em muito a causa das Jornadas.

A ligação de Fafe ao Brasil é uma mina a explorar. Para além disto tudo e muito mais, há certas pessoas que trabalharam comigo que são o que de melhor existe em Portugal (…). Perante estes ingredientes todos, tudo é mais fácil de confecionar.

Quando se têm os melhores materiais, a sorte por companheira e um tempo favorável, consegue-se construir a casa mais bela. Mas atenção, tudo tem acontecido, porque a dignidade e a amizade nunca faltou nas atitudes dos vários agentes.

 

NF - O Professou “ofusca” figuras da cultura fafense. Sente-se um homem invejado?

 

CA - Eu não sei se ofusco certas pessoas ou se crio inveja em alguém. Se isso acontece o mal não está na minha pessoa, está naqueles que não sabem ver a verdadeira cor das flores. Eu defino-me como uma pessoa simples, incompleta, irrequieta, incauto, sonhador, crente e amante do povo. Sou apenas um homem que gosta do que faz e nem sempre acredita no que diz. Sou apenas um homem que gosta de ouvir as pessoas, sentir os sentimentos e que ainda tem muito para aprender.

 

NF - O Município de Fafe tem, seguramente, reconhecido o seu trabalho, (…)?

 

CA - O Município de Fafe sempre esteve com as Jornadas Literárias. Sem a sua forte colaboração e apoio, este grande evento cultural não chegaria ao que é hoje. Várias vezes reconheceram o meu trabalho, assim como o dos amigos que comigo têm governado esta caravela de cultura (…).

Digo de uma forma bem clara que tem sido uma honra ter trabalhado com o Município de Fafe, e que nunca esquecerei os gestos do Sr. Presidente da Câmara e dos Senhores Vereadores da Cultura e Educação, de se terem trajado a rigor, terem subido ao palco e terem calcorreado as ruas de Fafe, dando vivas à nossa história e à nossa cultura, nestas últimas Jornadas. Estas atitudes dizem-me muito e mostram que os nossos políticos também são feitos de sentimentos.

(…) Eu tenho vontade própria, gosto de fazer o que a minha determinação me diz e, aconteça o que acontecer, e enquanto Deus mo permitir, continuarei a trabalhar em prol da cultura e de Fafe, seja de que forma for.

No meio de toda a vida que levo, só tenho pena de não ter mais tempo e as condições necessárias para trabalhar, com a dignidade que lhe é devida, a cultura que se espraia pelas nossas ruas, praças, aldeias e lugares.

 (…)

NF - A fasquia das JL está muito elevada. Receia não ter condições para manter o nível do evento?

 

CA- (…) Eu disse no início desta entrevista que as Jornadas são apenas mais um filho que brotou do meu sémen de sonhador. Como era de esperar, muitos sonos ficaram por terminar, e algumas circunstâncias ainda não estão totalmente limadas, pois há certos rigores de percurso que me querem esconder aquilo que para mim não devia ser problema.

As próximas Jornadas têm quase todas as condições para serem maiores e melhores. O problema é a fasquia a que se chegou e as limitações que me perseguem. Quem estiver ao leme das 4.ªs Jornadas Literárias de Fafe tem de ter tempo para sonhar, criar, orientar, promover, escolher, limar, descansar, dormir, praticar desporto, ganhar o pão de cada dia, ouvir, sorrir, olhar, escolher, calcorrear caminhos, incentivar, representar, cheirar o jasmim. Será isto possível?

Por muito amor que se tenha a uma causa, às vezes temos de esfarrapar o que mais queremos, olhar o céu, encolher as mãos e chorar. Mas Deus é grande e o vento pode soprar de maré. Todos sabemos que ninguém é insubstituível, por isso os rostos podem mudar, desde que o motivo que semeou as Jornadas Literárias permaneça o mesmo. O importante é querer e trabalhar em equipa.

 

NF - Acredita que as JL de 2013 possam surpreender ainda mais?

CA - O absoluto está para além das estrelas e tudo pode acontecer. Se todas as condições forem criadas, as Jornadas Literárias de Fafe poderão tornar-se numa referência mais global, mesmo que a nossa imprensa nacional não dê por isso. O Brasil pode voltar a ser um grande porto cultural a redescobrir, assim como o voltar a beber nas nascentes que continuam frescas e puras bem no centro do nosso Minho. As recriações históricas podem-nos levar a eras diversas, pois as terras de Montelongo assentam em estruturas com muita dimensão e origens.

Fafe dos Brasileiros tem todas condições para ir muito longe. A rota dos brasileiros por todo o concelho pode ser uma realidade e a sua orientação de caminho de memórias será apenas mais uma folha desta frutífera árvore visionária. Para além do que acabei de dizer, (…) a  ligação à Associação Empresarial de Fafe é um ponto a relevar. Se as vertentes económica e turística encarnarem as Jornadas Literárias, Fafe terá muito a ganhar. Não é isso que acontece em Óbidos Medieval ou em Santa Maria da Feira?

Outro trilho a desenvolver está na gastronomia fafense. Por que não uma confraria da Vitela assada à moda de Fafe?

O juntar datas de renome para Fafe, pinceladas de ar fresco e de literatura é outra maneira útil de construir o futuro. É imprescindível redefinir eventos e mostrar resultados aos fafenses. O dia 18 de março de 2012 foi apenas uma pequena parte do que se pode construir nas terras de Fafe.

Na nossa cidade temos uma Escola de Bailado, vários grupos de teatro e uma Escola de Música. Era importante que se dessem a estas duas instituições condições para que elas fizessem grandes produções no âmbito das Jornadas. É possível fazer tanta coisa… O importante é fazer tudo com carinho, verdade, mais ordenado e prescindir de vaidades de gabinete e de fachada.

 

NF - Há outros projetos pessoais que gostaria de concretizar?

 

CA - Gostaria de continuar a escrever livros para crianças, poesia e um ou outro romance. Gostaria de um dia produzir um musical que tivesse Fafe no seu centro. Gostaria que o amor pela minha família fosse eterno. Gostaria que o meu trabalho ajudasse os jovens a olhar mais além. Gostaria de ajudar as nossas aldeias a incrementarem o turismo cultural. Gostaria que o percurso pedestre literário «Caminhos de Camilo» fosse o que eu quero que ele seja. Gostaria de ter as condições necessárias para promover as tradições das terras que moram no meu peito. Gostaria que os meus sonhos nunca me largassem. Gostaria de… Gostaria de continuar a ser quase feliz. Obrigado

 

 
Entrevista ao jornal Notícias de Fafe de 5 de abril de 2012