sábado, 14 de julho de 2012

Uma sexta-feira 13 especial





        O Club Fafense já nos habituou a momentos especiais, facto que nos leva a concluir que este espaço acolhedor, e de referência para Fafe, já ganhou o estatuto de um centro de cultura viva. Não admira por isso que a passada sexta-feira, dia 13, tivesse sido mais um desses momentos de sorte para todos os que se deslocaram ao Club. Na verdade, as circunstâncias colocaram-se em uníssono e os presentes tiveram a possibilidade de escutar uma bela história entrelaçada com música, poesia, palavras de circunstância, belas canções e uma simples rosa.

            Este evento cultural contou com a participação do Coro de Pais e Amigos da Academia de Música José Atalaya, magistralmente orientado pelo professor Tiago Ferreira, com o jovem pianista Simão Neto e a jovem Ana Catarina Sampaio, na flauta transversal. Tanto o Coro como os jovens músicos portaram-se à altura e foram maravilhosos nas suas participações. De facto a cultura é bela e completa quando é feita com alma e amor!     

Foram várias as canções que se ouviram: Gentil Lavadeira; Não tragais borzeguis pretos; Ay! Linda amiga; Guantanamera e Siyahamba. Estes temas reportam-se a épocas e espaços diferentes, que vão desde a música mais tradicional portuguesa, passando pelas cantigas renascentistas, a canção tipicamente cubana e uma outra oriunda da África do Sul. Para além do canto, foram declamadas as respectivas letras e o professor Tiago explicou de uma forna elucidativa as respetivas abrangências destas composições.

E porque este momento poético/cultural estava intimamente associado a uma história da minha autoria, pois o enquadramento tinha um fio condutor próprio e mágico, aqui fica o respectivo texto.

«Era uma vez uma simples rosa que morava num pequeno canteiro sem graça. Ela nascera naquele lugar enfadonho, porque uma ave qualquer ali deixara cair uma semente por acaso. Depois de se tornar numa rosa sem graça, aroma e perfume, ali permanecia dias inteiros, sempre triste, só e longe do olhar alegre dos homens. Um dia, e já cansada de tanta indiferença, pediu à brisa suave da manhã que a ajudasse a ser uma rosa como as outras: uma rosa bela, perfumada e cheia de encanto.

Habituada a emprestar os seus sábios conselhos, a brisa da manhã sempre disse à sua interlocutora que para ela se transformar numa bela e perfumada rosa tinha de ser sujeita a uma dura e penosa prova. Ela tinha de ser colhida ao fim da tarde, pelas mãos de uma bela donzela, e ser levada para um grande salão onde pudesse escutar belas melodias e canções que falassem de amor, encontros e saudade. Só depois de percorrer toda este preceito é que as musas da poesia e da música a abençoariam e a tornariam bela, colorida e perfumada.

            Conformada com as palavras da brisa da manhã, e sem pensar duas vezes, a rosa deixou-se colher ao fim da tarde por uma bela donzela que por ali passara e que a trouxe com as suas próprias mãos para o maravilhoso Salão Nobre do Club Fafense, para que a música e as canções a enchessem de graça. E porque o seu destino estava traçado, a rosa escutou com todo o carinho a música e as canções que lhe eram dirigidas, facto que a levou a transformar-se, logo de seguida, numa bela rosa repleta de cor, perfume e encanto.»

A história já acabou, mas o que tenho para vos dizer é que a dita rosa esteve na sexta-feira, dia 23 de Julho, no evento cultural de que vos falei. E porque gosto de finais repletos de fantasia, eu tive o privilégio de testemunhar a transformação da rosa da nossa história. E tudo aconteceu porque o Coro de Pais e Amigos da Academia de Música José Atalaia e os jovens músicos Simão Neto e Ana Catarina foram excelentes na sua atuação. Parabéns para eles, pois a sua excelência salvou a simples rosa, que nascera, sem que a culpa fosse sua, sem cor, perfume e beleza.



                                                                                              Carlos Afonso







           




quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Jardim Encantado da Fantasia




         No próximo sábado, dia 7 de Julho, o Jardim do Calvário, a partir das 15 horas, será palco de momentos mágicos e únicos. O encanto das estátuas vivas, a música, as canções mais famosas da Disney e muitas personagens repletas de encanto transformarão este espaço emblemático de Fafe num verdadeiro livro infantil, repleto de moralidade e coisas bem doces. A Branca de Neve, os 7 Anões, a Menina do Lago, a Fada da Música, o Príncipe, o Caçador, o Contador de Histórias e os Cisnes do Lago, entre outras figuras, estarão à espera de todas crianças e de todos os adultos, aqueles que ainda acreditam em fadas e príncipes encantados, para uma tarde inesquecível.



« (…)Se a terrível maldição da Bruxa má, que transformou em pedra todos ao habitantes do Jardim Mágico da Fantasia, não for quebrada até ao final da tarde do primeiro sábado de Julho do ano que está a decorrer, todas as personagens mágicas dos livros para crianças desaparecerão para sempre e os belos Cisnes do Lago nunca mais verão a luz do sol.

Será o fim do Jardim Mágico da Fantasia. (…)»



Vem e torna-te numa das personagens da história que o velho contador vai narrar.

 Vem e ajuda a salvar os Cisnes do Lago e o Jardim Mágico da Fantasia da terrível maldição de uma Bruxa malvada.





Programa:



    -15 horas: Estátuas vivas, magia e música;

    -16 horas: Recriação e encenação musical da história encantada: «Os Cisnes do Lago» de Carlos Afonso



Organização: Naturfafe, CRL

Participação: Agrupamento de Escolas de Calendário;
                        Escola Profissional CIOR;
                        Professor Carlos Afonso e os seus alunos;
                        Professora Carla Lopes e Escola de Música José Atalaya


domingo, 1 de julho de 2012

O rouxinol do rio Ferro


      

            O nosso povo diz com toda a sabedoria de que é detentor que os múltiplos momentos que se deparam aos olhos de uma comunidade, seja ela mais provinciana ou não, nunca têm o mesmo entendimento. Cada pessoa os interpreta consoante o seu ponto de vista e, por vezes, conforme as suas necessidades. É a partir desta constatação inicial que quero apresentar nesta minha crónica uma história quase real, alindada apenas por um fio ficcional bem da cor da imaginação

            O final da tarde do dia 25 de Junho convidou-me como que instintivamente a dar um passeio, não admira, por isso, que tenha pegado na minha determinação e desse uma volta pelas margens do Rio Ferro, ali bem perto de minha casa. Apetecia-me escutar o correr das águas, sentir a frescura das árvores e, quem sabe, encontrar um velho amigo que costumava visitar o meu quintal, mas que já há três dias havia desaparecido. Ele esvoaçara de certeza para o seu sítio, e que eu o procurava agora, para lá buscar o meu outro destino. Estou a falar do rouxinol do rio Ferro.  

Desde os primeiros dias de Março último e até a alguns dias atrás que a minha existência teve a curiosa circunstância de contar com a presença de um rouxinol. De facto, aquele passeio em Março pelas margens do Ferro, altura em que dei pela sua presença, num ramo florido de uma macieira, e que de imediato me fascinou e também, digamos assim, me intrigou, um sentido diferente tem tomado conta dos meus desígnios. A sua melodia era única e soava a nostalgia, até parecia que o seu canto era detentor de uma mensagem qualquer e que estava a ser lançada de propósito aos meus ouvidos. Não sei porquê, mas na altura lembrei-me de Almeida Garrett e de Bernardim Ribeiro e do sentido que a avezinha tinha no contexto das suas narrativas. Na verdade, tanto Joaninha de Viagens na Minha Terra como a menina de Menina e Moça tinham uma interligação especial com o rouxinol.

Depois do longo tempo em que estive a admirar os encantos da avezinha, reparei que a seu canto era quase infinito. Mas a dada altura começou a decrescer até que se calou. Olhei bem na direção onde estava pousada, mas apenas notei que a noite já se apoderara do horizonte. Algo entristecido, voltei para casa e não confidenciei a ninguém o sucedido. Apenas se me apegava à ideia de que no dia seguinte voltaria ao mesmo sítio onde encontrara o rouxinol.

Como prometera a mim próprio, no final da tarde do dia seguinte voltei lá, mas do rouxinol, nem um sinal. Apenas o rio, a brisa a esbarrar na folhagem e o chilrear da outra passarada que não despertava a atenção dos meus sentidos. Meio desanimado, sentei-me numa pedra meia suja que para ali estava e deixei-me levar pelo pensamento. Quando voltei a mim, dei um último olhar pelo quadro que a minha vista alcançava, limpei alguma sujidade que se me agarrar às calças e regressei. Quando estava a chegar a casa, reparei que uma rapariga estava a tocar à campainha. Apressei o passo, pois pensava que era alguma aluna que queria falar comigo, mas não. Eu não a conhecia. O que quereria ela?

 Era apenas uma bela rapariga de cabelos castanhos e com uns olhos da mesma cor. A sua postura pareceu-me, na ocasião, um pouco inquieta e, quando reparei no seu sorriso momentâneo, afigurou-se-me nele uma mágoa qualquer. Pelos vistos, e segundo me explicou, ela apenas estava ali porque me queria entregar uma carta, uma vez que o carteiro, inadvertidamente, a deixara em sua casa. Agradeci o gesto e despedimo-nos.

Depois do acontecido, e mal a rapariga se pagara na distância, senti um esvoaçar de ave a roçar-me a cabeça, para logo de seguida escutar um cantar de rouxinol, igualzinho ao que ouvira junto ao rio, vindo bem do centro do meu quintal. Sem mais, corri para o escutar e… Que surpresa!... Lá estava ele em cima da pereira, numa postura digna e sentida. Enquanto não chegou a noite e ele se calou, não arredei pé dali.

Várias dias passaram, e todos os finais de tarde, quer estivesse chuva ou sol, o rouxinol ali voltava para mostrar a sua voz afinada e melodiosa. E eu, sempre que tinha disponibilidade, ali estava para o ouvir.

No 23 de Junho último, dia de São João na Fábrica do Ferro, durante a tarde, fui ver a cascata que se localizava bem perto da Sede dos Leões do Ferro. E como já é seu hábito, ela estava maravilhosa e sempre com vistas inovadoras. De facto, as mãos que a tecem são de eleição. Espero que assim continue para gáudio do bairro e de Fafe. Ora bem, estava eu a olhar para a cascata, quando me apercebo de uma rapariga que caminhava na minha direção. De imediato a reconheci. Era a mesma que me tinha trazido a carta. Apenas trazia roupa diferente. Com surpresa, fiz um leve esforço para me afastar, não me sentia de feição para falar com ela. Se calhar era medo. Apercebendo-se do meu jeito, ela apressou o passo, estendeu a mão direita e pegou na minha. De seguida, afagou-me com carinho e sorriu. Ainda meio atrapalhado, encostei-me um pouco à sua postura, que me pareceu especial, retribui com um cumprimento nervoso e escutei o que me confidenciava:

- Desculpe, mas está na hora de o meu rouxinol regressar. Para o tornar a ouvir e finalmente perceber o seu verdadeiro cantar, terá de ser o Carlos a deslocar-se ao sítio exato onde ele sempre morou. Na tarde em que isso acontecer, eu também lá estarei para lhe dizer o meu nome, entregar-lhe uma outra carta e mostrar-lhe o seu outro destino. A propósito, o que dizia a carta que lhe entreguei na primeira vez que nos vimos?

            Sem conseguir responder ou dizer o que quer que fosse, só tive tempo de receber um pequeno beijo que a rapariga me pousou rosto e notar um perfume a rosas que me aquietou.

Quanto ao rouxinol do rio, desde que estivera com a rapariga junto à cascata, nunca mais o vi ou ouvi. Ele foi mesmo embora para o seu sítio.

            A propósito, eu nunca li a carta que ela me trouxera naquela tarde. Lembro-me apenas de a ter pousado no vaso junta à porta de casa e nunca mais a vi. O que será que ela dizia? Será que o meu destino estaria lá gravado? E agora?

Em breve o saberei, quando for à procura do verdadeiro sítio onde sempre morou o rouxinol do rio.



                                                                       Carlos Afonso

           

sábado, 23 de junho de 2012

O homem que veio de Fafe





(Dedico esta história à ATRIUMEMÓRIA e ao seu principal obreiro, Jesus Martinho, no primeiro aniversário desta associação, para homenagear o incessante e profícuo trabalho que tem sido feito em prol do património fafense)



            Num ancestral carvalhal, bem nas profundezas das terras de Montelongo, existia uma antiquíssima pedra, quase totalmente escondida do olhar dos homens. Apenas um velho pastor lhe emprestava, de vez em quando, a sua atenção, quando por ali passava à procura das suas memórias, e nela se sentava a tocar a sua flauta. Bem encostada às faces carcomidas desta pedra, apenas musgos seculares lhe favoreciam a sua função de assento.

Por muito que o povo dissesse que, noutras eras, tinha andado por ali um grande rei mouro com o seu exército, e que por ali havia construído um forte castelo, onde escondera um vasto tesouro, nunca ninguém, à exceção do velho pastor, procurara quaisquer indícios. Apenas aquele velho pastor olhava para aquela pedra com respeito e com a certeza de que ela era a guardiã de um passado grandioso. Mesmo que de vez em quando ele partilhasse as suas conclusões com as gentes que habitavam aquelas redondezas, nunca ninguém lhe dera ouvidos, bem pelo contrário. Limitavam-se a olhar friamente a pedra, sorriam em tom de desdém, ignoravam-no e seguiam os seus destinos. O pobre velho nunca foi levado a sério e até começou a ser chamado como o louco da pedra. Sozinho com as suas lembranças, limitava-se a andar por ali na companhia da sua flauta e dos seus segredos.

Numa tarde de calor, num daqueles verões tórridos que também acontecem no Minho, o velho pastor regressara ao seu lugar de eleição e sentara-se, como muitas vezes o fazia, à sombra dos carvalhos, na tal pedra, tocando a sua flauta. A dada altura, e como que o velho o esperasse, apareceu à sua frente um homem alto, vestido de escuro e vinha dos lados de Fafe. Pela convicção que derivava do seu andar, dava para concluir que ele vinha tomado de um sonho bem definido. Como ouvira falar da tal lenda do castelo dos mouros, e porque acredita nos sinais do povo, trouxe o seu espírito observador e sábio, a sua máquina fotográfica e veio na demanda de mais uma possível riqueza patrimonial. É evidente que este homem da cidade, um homem para quem o tempo é um guardador de tesouros à espera de serem descobertos, se agradou da originalidade do quadro que se deparava aos seus olhos e ouvidos.

A música que derivava da flauta parecia-lhe divina. O velho que a tocava lembrava-lhe um deus maior. A pedra onde este se sentava tinha, no seu entender, os requisitos de uma torre de um forte castelo. Perante este cenário tão especial, o procurador de memórias, vamos chamar-lhe assim em homenagem à sua importantíssima acção em favor da cultura do seu povo, encantou-se com esta sua descoberta. Como era de prever, e numa atitude completamente diferente de todas as outras pessoas que ignoraram a pedra e o tocador de flauta, este homem que veio da cidade, sentou-se ao lado do velho e escutou com toda a atenção do mundo os segredos que ele lhe contava. O pastor estava satisfeito, pois soube reconhecer no seu interlocutor a verdade das suas intenções. Por isso, contou-lhe tudo o que sabia e o que imaginava. Finalmente, ele encontrara um homem que sabia escutar.

Algumas horas passaram e só a noite os separou. Mas, e antes de seguirem os seus caminhos, marcaram um novo encontro, para ali mesmo, junto à pedra, para a manhã seguinte. No céu, as estrelas mais apressadas fizeram-se notar, e o canto de um melro perdeu-se na aragem.

A manhã acordara bela e repleta de sol. A passarada enchia de movimento e melodia todo o carvalhal e o homem que veio de Fafe foi o primeiro a chegar. Sentou-se na antiquíssima pedra e esperou, esperou… mas o velho pastor nunca mais chegava. Passaram algumas horas e nada. Sem perder o ânimo, e como o seu recente amigo estava a demorar, achou por bem reparar com mais força na antiquíssima pedra e continuar a esperar. Ao de leve, levantou-se, começou a acariciá-la com as suas mãos curiosas e atentas. Numa visão mágica, notou em algo de extraordinário. Sem pressa, limpou com cuidado o musgo que cobria a pedra e viu com os olhos que Deus lhe dera um aglomerado de palavras gravadas em toda a sua dimensão da mesma. Animado com o que descobrira, tentou decifrá-las, mas sentiu dificuldade. Só mais tarde é que conseguirá compreender o real sentido de tão feliz achado e que aqui reproduzimos, desde já: ”O maior tesouro de um povo são as suas memórias”.

Sem parar, e como o velho pastor ainda não dera sina de vida, o homem de escuro vestido e que veio da cidade, pegou mais uma vez na sua persistência e no seu gosto por tudo o que cheira a passado e património e começou a limpar em redor da pedra, e o que achava a cada momento mais o encantava e desafiava. Um mundo maravilhoso começou a crescer à sua volta e o seu coração a crescer na direção do céu.

 Afinal, o tão falado castelo dos mouros sempre existia e o dito tesouro também. Dos lados do poente um som fascinante de flauta fez-se escutar e o homem vindo de Fafe sorriu.  

                                                          **

(Nota: Caros leitores, afinal o Castelo dos Mouros sempre ali estivera, no meio daquele frondoso carvalhal, o problema, e tal como acontece ainda hoje por estas terras de Montelongo, os comuns mortais nem sempre sabem olhar os indícios que se passeiam à sua frente. Infelizmente, a névoa que lhes tolhe o entendimento nem sempre os deixa escutar os sinais, ou sentir a fala das pedras, ou perceber os desenhos dos montes e até nem os deixa compreender as verdadeiras histórias do nosso povo. Para salvar o nosso património, meus amigos, é preciso estar atento e ter as mãos e a mente lúcidas e argutas, tal como o homem que veio de Fafe.)



Carlos Afonso