sábado, 23 de junho de 2012

O homem que veio de Fafe





(Dedico esta história à ATRIUMEMÓRIA e ao seu principal obreiro, Jesus Martinho, no primeiro aniversário desta associação, para homenagear o incessante e profícuo trabalho que tem sido feito em prol do património fafense)



            Num ancestral carvalhal, bem nas profundezas das terras de Montelongo, existia uma antiquíssima pedra, quase totalmente escondida do olhar dos homens. Apenas um velho pastor lhe emprestava, de vez em quando, a sua atenção, quando por ali passava à procura das suas memórias, e nela se sentava a tocar a sua flauta. Bem encostada às faces carcomidas desta pedra, apenas musgos seculares lhe favoreciam a sua função de assento.

Por muito que o povo dissesse que, noutras eras, tinha andado por ali um grande rei mouro com o seu exército, e que por ali havia construído um forte castelo, onde escondera um vasto tesouro, nunca ninguém, à exceção do velho pastor, procurara quaisquer indícios. Apenas aquele velho pastor olhava para aquela pedra com respeito e com a certeza de que ela era a guardiã de um passado grandioso. Mesmo que de vez em quando ele partilhasse as suas conclusões com as gentes que habitavam aquelas redondezas, nunca ninguém lhe dera ouvidos, bem pelo contrário. Limitavam-se a olhar friamente a pedra, sorriam em tom de desdém, ignoravam-no e seguiam os seus destinos. O pobre velho nunca foi levado a sério e até começou a ser chamado como o louco da pedra. Sozinho com as suas lembranças, limitava-se a andar por ali na companhia da sua flauta e dos seus segredos.

Numa tarde de calor, num daqueles verões tórridos que também acontecem no Minho, o velho pastor regressara ao seu lugar de eleição e sentara-se, como muitas vezes o fazia, à sombra dos carvalhos, na tal pedra, tocando a sua flauta. A dada altura, e como que o velho o esperasse, apareceu à sua frente um homem alto, vestido de escuro e vinha dos lados de Fafe. Pela convicção que derivava do seu andar, dava para concluir que ele vinha tomado de um sonho bem definido. Como ouvira falar da tal lenda do castelo dos mouros, e porque acredita nos sinais do povo, trouxe o seu espírito observador e sábio, a sua máquina fotográfica e veio na demanda de mais uma possível riqueza patrimonial. É evidente que este homem da cidade, um homem para quem o tempo é um guardador de tesouros à espera de serem descobertos, se agradou da originalidade do quadro que se deparava aos seus olhos e ouvidos.

A música que derivava da flauta parecia-lhe divina. O velho que a tocava lembrava-lhe um deus maior. A pedra onde este se sentava tinha, no seu entender, os requisitos de uma torre de um forte castelo. Perante este cenário tão especial, o procurador de memórias, vamos chamar-lhe assim em homenagem à sua importantíssima acção em favor da cultura do seu povo, encantou-se com esta sua descoberta. Como era de prever, e numa atitude completamente diferente de todas as outras pessoas que ignoraram a pedra e o tocador de flauta, este homem que veio da cidade, sentou-se ao lado do velho e escutou com toda a atenção do mundo os segredos que ele lhe contava. O pastor estava satisfeito, pois soube reconhecer no seu interlocutor a verdade das suas intenções. Por isso, contou-lhe tudo o que sabia e o que imaginava. Finalmente, ele encontrara um homem que sabia escutar.

Algumas horas passaram e só a noite os separou. Mas, e antes de seguirem os seus caminhos, marcaram um novo encontro, para ali mesmo, junto à pedra, para a manhã seguinte. No céu, as estrelas mais apressadas fizeram-se notar, e o canto de um melro perdeu-se na aragem.

A manhã acordara bela e repleta de sol. A passarada enchia de movimento e melodia todo o carvalhal e o homem que veio de Fafe foi o primeiro a chegar. Sentou-se na antiquíssima pedra e esperou, esperou… mas o velho pastor nunca mais chegava. Passaram algumas horas e nada. Sem perder o ânimo, e como o seu recente amigo estava a demorar, achou por bem reparar com mais força na antiquíssima pedra e continuar a esperar. Ao de leve, levantou-se, começou a acariciá-la com as suas mãos curiosas e atentas. Numa visão mágica, notou em algo de extraordinário. Sem pressa, limpou com cuidado o musgo que cobria a pedra e viu com os olhos que Deus lhe dera um aglomerado de palavras gravadas em toda a sua dimensão da mesma. Animado com o que descobrira, tentou decifrá-las, mas sentiu dificuldade. Só mais tarde é que conseguirá compreender o real sentido de tão feliz achado e que aqui reproduzimos, desde já: ”O maior tesouro de um povo são as suas memórias”.

Sem parar, e como o velho pastor ainda não dera sina de vida, o homem de escuro vestido e que veio da cidade, pegou mais uma vez na sua persistência e no seu gosto por tudo o que cheira a passado e património e começou a limpar em redor da pedra, e o que achava a cada momento mais o encantava e desafiava. Um mundo maravilhoso começou a crescer à sua volta e o seu coração a crescer na direção do céu.

 Afinal, o tão falado castelo dos mouros sempre existia e o dito tesouro também. Dos lados do poente um som fascinante de flauta fez-se escutar e o homem vindo de Fafe sorriu.  

                                                          **

(Nota: Caros leitores, afinal o Castelo dos Mouros sempre ali estivera, no meio daquele frondoso carvalhal, o problema, e tal como acontece ainda hoje por estas terras de Montelongo, os comuns mortais nem sempre sabem olhar os indícios que se passeiam à sua frente. Infelizmente, a névoa que lhes tolhe o entendimento nem sempre os deixa escutar os sinais, ou sentir a fala das pedras, ou perceber os desenhos dos montes e até nem os deixa compreender as verdadeiras histórias do nosso povo. Para salvar o nosso património, meus amigos, é preciso estar atento e ter as mãos e a mente lúcidas e argutas, tal como o homem que veio de Fafe.)



Carlos Afonso

sábado, 9 de junho de 2012

É a Hora!...


















Nasci num país repleto de sonhos de mar,

Gerados em almas da cor das manhãs

E presos à imensidade exacta dos séculos…



(Ai… se as aves me emprestassem o seu esvoaçar sem fim

E a cor verde da esperança me cobrisse com o seu manto,

Tecido por mãos que fizeram os muros inquebráveis da história!)



Escutem!... Parece que ouvi gritos ávidos de risos e estrelas…

Será a voz do vento a bater nas velas claras das caravelas?



Não. Os caminhos percorridos por espíritos destruidores de medos

E de névoas sem rosto

Não rompem os portais do tempo…

Só a teimosia dos quereres, iguais aos de Vieira, Pessoa e Camões,

Podem acordar os fazedores da história

E apunhalarem a mesquinhez deste agora sem luz,

Estampado nos nossos olhos parados,

Avivando, de novo, a chama que jaz fria dentro dos corações.



Basta. A noite não pode continuar a crestar o brilho das madrugadas,

Indiferente a um passado repleto de heróis…



Ó Infante sem medo, ó Gama imortal, ó Pedro Álvares Cabral,

Não deixeis roubar as raízes pátrias que engrandecestes…

Firmes como a vontade que vos ata ao leme,

Erguei de novo a espada do império

E apontai no mapa que já foi nosso

O rosto de um novo Portugal

Que é urgente achar.



É a Hora!...





Carlos Afonso

domingo, 3 de junho de 2012

Histórias de Fafe: «A Carta»




Há dois meses atrás, tive a felicidade de encontrar num dos espaços mais emblemáticos de Fafe, o Club Fafense, um casal muito simpático que me fez algumas confidências e me alertou para um ou outro pormenor que tecem as raízes culturais e históricas de Fafe. Curioso em entender o que me era narrado, prestei toda a atenção que se exigia e valeu a pena. A dada altura da nossa conversa, escutei da boca da Dona Maria Luísa Guimarães, a esposa, algo que me empolgou. Ela era detentora de uma carta original do escritor Camilo Castelo Branco, carta esta que tinha sido dirigida ao seu bisavô, o Comendador Albino de Oliveira Guimarães, um dos brasileiros mais influentes de Fafe, no Séc. XIX.

Alguns dias passaram após o nosso primeiro encontro. Numa outra noite no Club Fafense, o simpático casal facultou-me a dita carta de Camilo, facto que me fascinou. Na verdade, o conteúdo da missiva era de uma riqueza e emotividade inigualáveis, todo ele centrado em José Cardoso Vieira de Castro, outro fafense de referência. A partir daqui, e porque me foi dada permissão para isso, imediatamente pensei em organizar um sarau cultural ali mesmo co Club, para partilhar com os que assim o desejassem as palavras do escritor. Do sonho à realidade passaram apenas dois meses, e dia 1 de Junho, dia em que se comemorava mais um aniversário da morte de Camilo Castelo Branco, um agradável evento cultural fartou de prazer todos os que a ele assistiram, e a quem agradeço a presença.

Num entrelaçado de música, pintura, poesia, o desvendar do conteúdo da dita missiva dirigida ao Sr. Comendador e uma feliz recriação histórica, a que uma frutuosa tertúlia centrada na carta em geral se associou, o Club Fafense encheu-se para viver um momento único. A exposição “Caminhos de Camilo”, gentilmente cedida pela Direção da Escola Secundária de Fafe, e a quem agradeço profundamente, veio a enriquecer ainda mais o momento.

Para este evento, contei com a preciosa ajuda do meu amigo e colega Paulo Teixeira, que comigo partilhou a organização. Sem o seu saber e engenho nada teria sido possível. Também contámos como a colaboração de outros amigos, também ela imprescindível, e a quem agradecemos vivamente: Dr. Artur Coimbra; João Manuel Marques; Sr. Francisco; João Castro; Nelo Lobo (que encarnou magnificamente a figura de Camilo); Sr. Acácio Almeida; Padre Lopes; os professores António Teixeira, José Augusto Gonçalves e Augusto Lemos; AtriuMemória; Jesus Martinho, na parte técnica e fotografia; Prof. J.J. Silva, pela sua orientação e material cedido; o pintor Filipe Sampaio, que teve a amabilidade de partilhar, com todos os presentes, uma das suas belas telas centrada em Camões e onde um excerto da carta de Camilo foi inserido; os jovens músicos Teresa Marinho (violino), Eduardo Teixeira, Alex Fernandes, Simão Silva e Pedro Marques (Saxofone), que foram excelentes no seu desempenho; Dr. Ribeiro, pelo material cedido; o meu aluno Pedro e todos os que participaram na tertúlia. Também aos responsáveis pelo Club Fafense aqui deixamos o nosso obrigado por nos darem permissão para tao solene ato. À Dona Maria Luísa e ao seu marido, agradecemos do fundo do coração a sua amabilidade. Penso que não me esqueci de ninguém. Se isso aconteceu, peço desculpa.

Fafe é uma terra rica em história e cultura, facto que deixa todos os fafenses satisfeitos. Espero, com a ajuda de todos os amigos, continuar a organizar, no Club Fafense ou em outros espaços, encontros e momentos culturais que contribuam para o engrandecer da nossa terra.



Carlos Afonso

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Fafe nos caminhos de Aquilino Ribeiro



No passado dia 26 de março, sábado, meia centena de fafenses rumou a terras beirãs, as terras de Aquilino Ribeiro, em busca de paisagens, história, gentes, gastronomia e a vida e obra do grande escritor português do Séc. XX. Movidos pela força da aventura, descoberta e cultura, este grupo de amigos viveu intensamente todo o percurso, usufruindo das muitas belezas que se lhe depararam pela frente.

O escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963), infelizmente hoje quase ignorado, é autor de grandes obras, como O Malhadinhas, Cinco Reis de Gente, Andam Faunos pelos Bosques, A Via Sinuosa, Jardim das Tormentas, A Casa Grande de Romarigães, Quando os Lobos Uivam, As terras do Demo, O romance da raposa, entre muitas outras. Assim sendo, esta iniciática cultural tinha como objetivo maior conhecer com mais certezas e melhor Aquilino Ribeiro, a partir dos espaços que serviram de pano de fundo à sua existência e à sua ficção.

Regionalista e resistente convicto, este grande escritor do Séc. XX mostrou nos seus escritos as suas vontades e a defesa de toda uma região condenada ao abandono e ao sofrimento: as terras do demo. Carregal, a Senhora da Lapa e Sernancelhe, sítios localizados no distrito de Viseu e partes integrantes do mundo aquiliano, mostraram-se aos caminheiros fafenses de uma forma simpática e digna, ajudados pelo tempo solarengo e pelo saber dos guias da visita, gentilmente disponibilizados pela Câmara Municipal de Sernancelhe.

No Carregal visitou-se a casa onde nasceu Aquilino Ribeiro. Na Senhora da Lapa visitou-se o Santuário de Nossa Senhora da Lapa (séc. XVI-XVII) e o Colégio anexo, onde Aquilino estudou, prosseguindo depois o roteiro pelo pelourinho e o Museu do Santuário. Após o almoço típico, com cabrito assado, cozido à terras do demo e trutas à moda de Aquilino, e já em Sernancelhe, a comitiva fafense participou na conferência “Cinco Reis de Gente – a infância no Carregal”, orientada pelo Sr. Dr. Paulo Neto. No final da tarde, a bela Igreja Românica de Sernancelhe do século XII e o museu de arte sacra Cândido Azevedo abriram as portas e mostraram toda a sua riqueza artística e religiosa.

Este passeio cultural, a que se associou o Núcleo de Artes e Letras de Fafe (NALF), decorreu de uma forma exemplar. No próximo ano, a saga cultural continua em redor da vida e obra de outro grande escritor português.

Carlos Afonso

domingo, 6 de maio de 2012

Mãe

    

Mãe,
As nuvens ainda são feitas de algodão?
Olha, olha aquela…
 Parece o cordeirinho do presépio!
Como é bom
Ver-te florir no amanhecer deste poema
E sentir a minha alma
Mergulhar no perfume do teu corpo!
Olha, agora que estás comigo,
Deixa sentar-me no colo!
Acaricia-me com o teu carinho!
Conta-me uma história!

Mãe,
Tenho sono!
Posso encostar a minha cabeça cansada
Ao calor do teu amor?
Obrigado!

Mãe,
Já acordei.
Os teus olhos continuam lindos!
As tuas mãos permanecem afáveis!
O teu sorriso esparge a mesma luz
Que guiou os meus primeiros passos!

Mãe,
Por favor, não chores!
Eu ainda sou o teu menino!
Olha, segura na minha mão e brinca comigo!
Cuidado! …

Mãe
 Eu sei que as distâncias nos escondem as faces
E o empedrado do tempo faz colher incertezas!
Mas, o meu coração rima com o teu. 
A seiva que me move nasceu do teu ventre!
Olha, lá está a estrelinha que guiou os reis magos …

Mãe,
Tenho fome...
Carlos Afonso

sexta-feira, 4 de maio de 2012

As duas faces de uma medalha


            Na vida de qualquer homem há certos instantes que se evidenciam mais em detrimento de outros, costumeiramente apelidados de usuais. Se assim não fosse, as memórias não seriam capazes de absorver tantas informações de vida e a vulgaridade dos dias tornar-se-ia numa rotina sem graça. Por isso, as exceções destacam-se da regra e assumem uma postura mais diferenciada e digna de ser partilhada. Por vezes, uma medalha, atribuída por quem de direito, assinala esse momento excepcional, perpetuando-o. E foi isso que aconteceu comigo.
            Independentemente da subjectividade que rodeia a justeza do ato em si, e sob proposta do seu Presidente, a Câmara Municipal de Fafe achou por bem atribuir-me a medalha de Mérito Concelhio (bronze). Claro que eu apreciei o gesto, pois o mesmo evidencia que os outros gostaram do trabalho que foi feito, reconhecendo na sua consecução um valor que se alarga a toda uma comunidade. É evidente que o suor e o trabalho que pintam um dos lados da medalha não se circunscrevem apenas à minha pessoa. Esse lado da medalha reflete, de uma forma bem clara, toda a união que se conseguiu em torno das 3.ªs Jornadas Literárias de Fafe. A mim coube-me apenas a coordenação possível. O verdadeiro trabalho estendeu-se por todos os recantos do concelho fafense: cidade e aldeias; Câmara e Juntas de freguesias; associações e instituições; escolas e pessoas individuais.
            Como foi possível tão abrangente interligação e compromisso? A resposta absoluta não será fácil e muito menos única. Provavelmente o que aconteceu em Fafe tenha sido fruto das circunstâncias ou então do amor a Fafe. Amor esse que mora bem no fundo das pessoas, e que é evidenciado, constantemente, pelos gestos e o olhar. Fosse como fosse, o que aconteceu nestas Jornadas Literárias, e que já se vinha adivinhando das edições anteriores, foi grande e belo para a cultura deste pedaço do Minho. Pedaço puramente definido, e que se estende a um todo nacional.  
            Se em Março, em Fafe, a união fez a força e o sonho escorreu pela realidade, o sol teve todos os motivos para brilhar com intensidade. Não é de admirar, por isso, que uma das faces da medalha que me foi ofertada no dia 25 de Abril de 2012, abarque todo este brilho a cheirar a cravos e a liberdade.
            Se uma face da medalha me atirou a mim e a todos aqueles que comigo trabalharam para as conclusões acima mostradas, o que se desenha na outra face? O que é que o destino ou Deus esculpiram nesta segunda face?
            Bem, eu não estou a querer tirar ou a querer esconder as reais intenções daqueles que tiveram a gentileza de me agraciarem com tamanha distinção. Não, não é isso. Eu apenas estou a partilhar com o leitor o que deduzo da responsabilidade desse ato. Penso, e isto é apenas o que me vai na alma, que só pode ser o futuro e a necessidade de continuara a construir, o que nessa outra face se esculpem. Quer isto dizer que a recompensa, aparentemente retratada na singularidade da medalha passa, também, por outras interpretações: um novo porto por achar; uma nova cruz para carregar; um incentivo para não parar de construir; um campo de trigo verde para continuar a cuidar.
 São estas deduções que absorvo e pressinto. E agora?
            Há alguns anos atrás, na altura em que ainda era estudante universitário, foi-me atribuída uma medalha que assinalava o primeiro lugar obtido num Festival da Canção que se realizou no decorrer de uma Semana Académica de Braga. Como era de prever, a alegria foi grande e o momento nunca mais foi esquecido. O problema é que não fiz render essa medalha, pois, por variadas razões, abandonei o meu jeito para compor música e escondi-me noutros afazeres. A medalha desse tal festival ainda anda lá por casa, mas a viola que me forneceu os sons ganhadores apagou-se e perdeu os seus préstimos.   Não foi uma nem duas vezes, muito recentemente, que tentei retomar essa minha destreza para o instinto musical, mas o que daí adveio não me satisfez em nada. O tempo fez o favor de concluir o que a minha desistência de há muitos anos iniciara.
            Voltando ao ano de 2012, e a esta minha outra medalha, uma certeza me move e me tolda a existência. Não vou cometer o mesmo erro. Se tenho algum engenho para ajudar a fomentar a cultura em Fafe, sinto-me na obrigação de não parar. Não… Não vou abandonar o barco neste falso porto de abrigo onde me encontro a contentar-me com que lá vai. É imperioso continuar viagem na companhia de todos aqueles que comigo queiram navegar. Num espírito de união e interajuda, ergamos o pendão da cultura e fitemos o desejo do além, enfrentado, sem rodeios, medos, incompletudes e manhãs mais escuras. Se a experiência vale alguma coisa e o coração fizer questão de continuar a bater, só temos de pegar no que o passado nos ensinou, limar alguns senãos, organizar mais as ocasiões, entender o rumo certo das estações e ir em frente.
É justo promover as novas rotas que se vislumbram no horizonte e na outra face da medalha. É justo não desaproveitar o sangue que corre das nascentes do nosso povo. É justo continuar a semear sonhos, flores, poemas e amor a Fafe. 
            Seria tão bom que amanhã, quando o tempo me pedir para, num olhar derradeiro, olhar para trás e fazer uma avaliação convicta do que foi o meu percorrer dos dias, eu pudesse chegar a uma certeza maior. Uma certeza do tamanho do meu querer:
 Valeu a pena ter escolhido Fafe para me acolher e me inspirar. E é com orgulho que constato que consegui, em parceria com muitas outros amigos, reinventar uma nova fórmula de transformar as duas faces de uma simples medalha numa imensa mina de ouro fino.
                                                                                              Carlos Afonso

             

domingo, 22 de abril de 2012

Ó Senhor, dá força ao meu coração…


            Naquela manhã, o despertador não quis tocar e Manuel, um viúvo de pouco mais de setenta anos, por sorte, dormiu até que a sua disposição o acordou. Lá fora o vento forte já fazia das suas e na rua que levava ao centro de Fafe algum frenesim parecia igualar os afazeres de uma cidade maior. No emprego onde o Manuel dera sempre o seu melhor, já ninguém se lembrava dele. A reforma tinha chegado na altura própria e o mundo continuara a rodar. Como o passar do tempo é cruel!
Desde que uma maldita dor no peito lhe indiciara um mal que nunca mais lhe daria tréguas, Manuel só colocava o despertador quando tinha de ir à feira ou a um encontro ocasional. Por exemplo, um passeiozito até Cabeceiras onde tinha uns parentes ou até Guimarães. Noutros tempos não era bem assim. Às 6 horas em ponto tocava o despertador, 10 minutos depois comia as torradas molhadas em leite que a mulher lhe preparava e passados mais vinte minutos já estava na sua labuta diária. Mas quem é achacado aos azares, pouco lhe vale lutar na vida, a não ser que uma fé bem forte lhe arranje algum conforto e meia dúzia de sorrisos. A morte do único filho em França apenas lhe arrancou um punhado de lágrimas e uma resignação que meteu dó. Um malvado AVC roubou-lhe a companheira de mais de quarenta anos e também lá foi suportando o contratempo. Mas agora o raio do coração é que entornou um ódio compreensivo. Ora bem, nem sempre se consegue suportar tudo e esconder alguns dizeres mais descontentes.
- Ó meu Deus, porquê tanto tribulação? Bem podias olhar mais por mim, raios – desabafou ele, sem que ninguém o ouvisse, depois de ter escutado o que o médico lhe dissera. – E agora como vai ser isto? Que vida a minha!
Bem, voltando ao início da história, o Manuel acordara mais tarde naquela manhã e já não foi à feira. O tempo também não estava grande coisa e o que ele queria comprar podia ficar para a semana seguinte. E mais a mais não adianta plantar nada na horta, pois o frio ainda atrapalha bastante este mês de Abril.
Levantou-se, cumpriu as recomendações do médico, comeu o de costume, mas agora sem a ajuda da esposa, e sentou-se em frente à televisão. No canal 1 falava-se de viagens e férias. Satisfeito com o que ia escutando, começou a pensar que o pouco dinheiro que tinha era capaz de dar para ir a um sítio que há já algum tempo gostava de visitar. Sempre prometera à falecida companheira que a havia de levar a Sagres, no Algarve, mas ou o tempo ou o dinheiro nunca o ajudaram. Talvez fosse agora o momento de cumprir essa promessa, ainda que só restasse ele para o efeito. Vamos lá a ver…
A vontade de visitar Sagres residia no facto de Manuel gostar da grandeza do passado marítimo português, e de considerar o Infante Dom Henrique um visionário, um sonhador, um lutador e uma personagem impar da história de Portugal. Sempre que podia, nas suas idas à Biblioteca Municipal, lá estava ele à volta dos livros que falassem dos descobrimentos portugueses. Não foi uma nem duas vezes em que se pegara com alguns amigos, apenas porque a opinião acerca dos homens célebres portugueses não era comum a todos.
Decidido em avançar no seu propósito, foi consultar o extracto do banco, fez umas contas, sorriu e olhou de encontro a uma pequena mesa que, impávida e serena, jazia encostada a uma parede. Bem no seu centro espraiava-se uma fotografia da sua falecida que olhava na sua direção. Nela, Manuel focou os seus olhos e por aí se deixou ficar algum tempo. Depois, com vigor e satisfação, disse:
-Mulher, eu sei que estás num sítio lindo a descansar. Muito em breve, eu sei que irei para junto de ti, mas antes disso eu quero cumprir um sonho antigo. Vou dar a tal volta até ao sul e visitar Sagres. Claro que te levo no pensamento e no coração, pois eu sei que também tinhas esse desejo.
Durante algum tempo Manuel focou a foto e fez alguns projetos. Só um forte aperto no peito é que o fez estrabouchar, trincar os dentes e desviar a atenção do retrato. Quase a custo tentou erguer-se para acudir a si próprio, mas desistiu. Apenas deixou escapar meia dúzia de palavras e muito sofrimento:
-Será que ainda não é desta que vou a Sagres? Ó Senhor, dá força ao meu coração e deixa-me cá em baixo mais uns dias. Ai…
Sem que ele contasse, uma luz forte fechou-lhe a vida e, algo de extraordinário aconteceu. Vindo do centro da luz, Alcina, era assim que se chamava a sua esposa, caminhou para Manuel. Depois, e já quando estava bem perto, pegou-lhe nas mãos e conduziu-o para um novo destino. Admirado, o nosso amigo voltou a arregalar os olhos e sentiu um vento forte a bater-lhe no rosto. Bem à sua frente o mar do Algarve remexia-se repleto de uma névoa indefinida, e no longe uma caravela balançava-se ansiosa. Reconhecendo o lugar onde estava, e sem pressentir o que lhe poderia acontecer, seguiu a companheira. Desceram uma falésia menos ingreme, deixaram que uma gaivota esvoaçasse em seu redor, molharam ao de leve os sapatos, entraram num pequeno bote e não se importaram de ser guiados por um homem ainda jovem, vestido de negro e com um globo terreste nas mãos. Sem curiosidade em fazer uma simples pergunta que fosse, Manuel pegou nas mãos da esposa, encostou-se mais um pouco e disse o que o momento lhe emprestou:
- A maré está propícia e novos mundos nos esperam. Vamos para a caravela, marujo.
O Infante Dom Henrique, que era nem mais nem menos o marinheiro condutor do pequeno barco, olhou de soslaio e acenou afirmativamente.
Ao longe, a estrela polar mostrou-se farta no horizonte. Ao perto, um sentimento da confidência apegou-se bem forte a Manuel e à esposa, e quase que de imediato, e com toda a clareza que Deus permitiu, ouviu-se um último desabafo:
- Afinal sempre fizemos a nossa viagem, Alcina. E isto está a correr melhor do que eu imaginava.
                                                                                              Carlos Afonso