domingo, 25 de março de 2012

As Jornadas Literárias terminaram em beleza e com os olhos postos no futuro.



Depois de um mês de múltiplas e variadas iniciativas culturais que enfeitaram e engradeceram as terras de Fafe, as 3.ªs Jornadas Literárias de Fafe terminaram em beleza, envoltas em música, literatura, gastronomia, paisagens e uma satisfação imensa.
Apenas alguns apontamentos dos últimos eventos.
No dia 22 de março, o Multiusos encheu-se de alunos, professores e demais comunidade, numa partilha de actividades, exposições, oficinas, música, teatro, encenações, experiências e muita alegria. VIVER A ESCOLA foi um evento único e muito enriquecedor.
No dia 23 de março, vários espaços da cidade receberam um evento original e muito vivo. «Era uma vez uma bola» envolveu muitos alunos e professores de todas as escolas do concelho, agarrados a uma atividade que associou o desporto, a música, os jogos, a dança, a literatura e a criatividade. O dia ajudou e tudo correu na perfeição. Os professores de Educação Física da Escola Secundária, a turma de desporto e o coordenador do evento, o professor Carlos Condeço ,estão de parabéns.
Para além de muitas actividades que decorreram em várias escolas, à noite, o Teatro-Cinema foi palco de um espetáculo lindíssimo. «Acordas e danças» contou com a organização da Escola de Bailado de Fafe e a Escola de Música José Atalaya. Num misto de música e dança, o espetador viajou no tempo e espraiou-se em redor de um cenário mágico e especial.
No dia 24 de março, o último dia das Jornadas Literárias, o dia amanheceu agradável e especial. O curso de Formação na Sala Manoel de Oliveira associou as tradições, os sabores, a história e o património. Pelas 13 horas, um lauto merendeiro Camiliano, (ementas típicas assinaladas nas obras de Camilo Castelo Branco), no parque de merendas de Pardelhas, fartou de satisfação e inspiração os muitos participantes.
Se a manhã foi rica em novidades, a tarde foi vivida intensamente em Paços e Golães. O percorrer, pela primeira vez, do percurso literário «Os Caminhos de Camilo» permitiu usufruir de paisagens, a ligação de Camilo Castelo Branco a Paços e à ponte do Barroco, muita etnografia, tradições, assim como uma convivência sem precedentes. A recriação da vinda de Camilo à Casa do Ermo foi perfeita e encheu as centenas de participantes de satisfação.
A noite do dia 24 acolheu o encerrar das Jornadas Literárias, num Teatro-Cinema composto e alindado. A Escola de Música José Atalaya mostrou mais uma vez o seu valor, inspirada na mestria dos seus músicos e na poesia de Manuel Alegre.
Neste último momento cultural, a bandeira das Jornadas foi entregue ao Sr. Presidente da Câmara, enquanto o Hino se fazia escutar. Como era de esperar, depois do sucesso destas Jornadas Literárias, foi possível sentir em todos os presentes a sensação de que as Jornadas Literárias, na sua quarta edição, regressarão ainda mais fortes e especiais em 2013.
Para terminar, deixo aqui as últimas palavras do meu discurso de encerramento das Jornadas, no Teatro-Cinema, numa antevisão do futuro. “A cultura, o turismo, as memórias e a vertente económica devem ser a força das próximas Jornadas. É preciso abrir as Jornadas Literárias ao mundo. A ligação ao Brasil e aos países onde residem emigrantes fafenses deve ser fomentada. O intercâmbio de escritores fafenses/nacionais e brasileiros deve ser promovido. O fortalecer de uma cultura de horizontes mais abertos deve ser a próxima bandeira das Jornadas Literárias de Fafe.”
Espero que os próximos responsáveis pela organização das Jornadas Literárias de Fafe não esqueçam do verdadeiro espírito que lhes deu origem.
Carlos Afonso

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O nosso povo tem alma, coração e cultura…




Os dias 25 e 26 de fevereiro de 2012 ficarão para a história cultural de Fafe como os dias de abertura, na vertente de FAFE DOS BRASILEIROS, das 3.ªs Jornadas Literárias de Fafe. Os dias em que centenas de pessoas se juntaram em redor das suas memórias, tradições, paisagens, gastronomia, alma, viagens, histórias e músicas e ergueram mais alto as verdadeiras cores da cultura que pintam as terras de Fafe. O povo de Aboim e de Estorãos tiveram o encargo de fazerem a abertura destas Jornadas Literárias, e fizeram-no de uma forma brilhante e grandiosa.
ABOIM - No dia 25, o salão da Junta de Aboim tornou-se pequeno para acolher todos os que quiseram assistir a uma festa tão genuína e pura. O sr. Novais, o presidente de Aboim, está de parabéns pelo evento que organizou, onde foi possível escutar as palavras sábias de Jesus Martinho que versou o tema do passado histórico e cultural de Aboim, assim como o Dr. Jorge Miranda que centrou a suas palavras em Daniel Gonçalves, o homem que construiu o Moinho de Vento.
Neste acontecimento cultural, e para além do povo da aldeia, estiveram presentes o Sr. Presidente da Câmara de Fafe, Dr. José Ribeiro, e o Sr. Vereador da Cultura, Dr. Pompeu Martins, vários presidentes de Junta e muitos outros responsáveis culturais e políticos do concelho. Num momento mais formal, O Sr. Novais agradeceu a todos os presentes e mostrou o seu total apoio às Jornadas Literárias de Fafe. Da boca do Sr. Presidente da Câmara também foi possível escutar palavras de regozijo em relação ao que está a acontecer em Fafe. Para ele, as Jornadas Literárias são o momento cultural maior de Fafe e de todo o concelho e mostrou o seu total apoio a esta iniciativa.
Para finalizar, foram servidos um Verde de Honra e umas cavacas. O Sr. Rodrigues e os seus companheiros das concertinas encerraram a festa com os seus cantares ao desafio.
ESTORÃOS – Se em Aboim, a cultura saiu à rua, em Estorãos a cultura espalhou-se aos quatro ventos. Numa grande iniciativa, toda ela planificada por uma grande mulher, a Fátima Caldeira, o salão paroquial foi pequeníssimo para tanta gente. Uma sentida exposição centrada no Dr. Neca das Leis, a personagem histórica escolhida para o evento, enfeitava um recanto do espaço, enquanto no palco, decorado a preceito, tudo era aliciente. Neste evento, e para além de muita gente da terra, alguns presidentes de Junta, vários convidados, estiveram presentes os organizadores das Jornadas Literárias, Etelvina Castro, Carlos Afonso, Paulo Teixeira e Fátima Caldeira, assim como o Sr. Vereador da Cultura, Dr. Pompeu Martins. Tanto a Sr.ª Presidente da Junta como o Sr. Vereador foram unânimes em elogiarem as Jornadas Literárias e em mostrarem o seu apoio a esta grande iniciativa que já é um sucesso, e só ainda está no seu início.
O grupo de cantares de Estorãos, seguindo uma bela história baseada na vida rural de outros tempos, onde foi possível ver vestida a rigor a sr.ª Presidente da Junta de Estorãos, Paula Cristina, cantou e encantou. Depois, a recriação do ciclo da lã foi vivida de uma forma sentida por todos. E porque não podia deixar de ser, o Sr. Neca das Leis também esteve presente, numa recriação perfeita, assim como dois dos seus filhos e uma neta, ainda vivos, que se quiseram associar à festa.
Para terminar, apenas umas breves considerações.
Estas 3.ªs Jornadas Literárias, que apenas estão no seu início, já são e continuarão a ser um sucesso, porque há todo um concelho a trabalhar para isso. A união e a partilha de saberes são o segredo do sucesso destas jornadas. Aqui não está só um homem, um só partido, uma só vontade. Há uma multidão de almas a puxar no mesmo sentido: são as escolas, onde tudo começou; é a autarquia, as juntas de freguesia, as associações, as paróquias, as instituições, o comércio, e muita… muita mais gente.
Nós não estamos aqui para melindrar ninguém e muito menos para ofender seja quem for. Nós apenas queremos defender uma ideia, relembrar memórias, reavivar FAFE DOS BRASILEIROS, eternizar culturas, salvar vivências, alimentar esperanças e continuar a pintar de verde o nosso Minho. Por isso, precisamos da ajuda de todos. Pois todos juntos seremos do tamanho do nosso querer. Eu sei que nem tudo vai ser perfeito e que algumas coisas não estarão no seu real lugar. Se isso acontecer, o que é que havemos de fazer? Desculpem…
Espero que os nossos órgãos de comunicação se esqueçam um pouco do que é banal, e de outras coisas que não acrescentam nada à felicidade dos homens, e voltem um pouco a sua atenção para o que está a acontecer em Fafe. É preciso que o país saiba que o povo de Fafe tem um grande sonho e um destino por cumprir.
E porque uma imagem vale mais que mil palavras, aqui ficam algumas fotos de Sara Martinho, as de Aboim, e outras minhas.
Carlos Afonso


































































terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Fafe, uma terra de cultura




O povo diz e com razão que o que é bom é sempre bem-vindo e deve ser fomentado, principalmente quando os propósitos que o movem vão de encontro ao interesse das pessoas e ao sentir verdadeiro das raízes que alimentam os futuros.
Se o que acabei de dizer é correto, é também importante que se diga que tudo se torna mais fácil quando em torno de uma ideia se agrupa um conjunto de vontades e sentires a rumar no mesmo sentido. Só assim se compreende a real força de um feixe de vimes que nenhum vento mais forte consegue quebrar.
Em 2010 tiveram lugar as 1ªs Jornadas Literárias, nascidas no âmbito das comemorações do dia mundial da poesia a 21 de março e que terminou numa frutífera parceria entre a Escola Secundária e a Câmara Municipal. O sucesso das mesmas, que tomaram como estandarte a frase «A força das palavras», não se fez esperar e, de imediato, um desejo natural começou logo a impulsionar o que viria a acontecer em março de 2011.
Nas 2.ªs Jornadas Literárias de Fafe, coligadas ao lema «Palavras com liberdade», a abrangência e a luz tornaram-se mais evidentes e todas as escolas do concelho se interligaram à iniciativa, e onde já foi possível visualizar a verdadeira força de algumas freguesias e associações culturais e recreativas. Mais uma vez foi bem visível a real beleza de uma força impulsionada pela união de muita e boa gente de todas as áreas da sociedade. Tudo se moveu em torno da cultura de um povo, nas suas múltiplas facetas, que habitava as terras de Fafe. O êxito foi evidente, e o querer ir mais além não se fez esperar. Havia que começar a pensar nas próximas jornadas.
O tempo foi passando, a terra foi sendo trabalhada e o horizonte ficou cada vez mais perto. Só que agora o patamar tornou-se mais ambicioso e os desafios mais aliciantes. Nada que fizesse encolher a vontade dos marinheiros que se atiraram de alma e coração para este imenso mar carregado de memórias, livros, sonhos, estrelas, montes, brasileiros, viagens, reis, morgados, comendadores e muito… muito mais…
Toda a confiança neste grande momento cultural tem um motivo contundente e muito válido. Desta vez, estão todas as escolas no projeto, mais de trinta freguesias, assim como muitas associações e outros tantos organismos. Se Deus quiser e os fafenses assim o entenderem tudo terá outro encanto
As 3.ªs Jornadas Literárias, coladas ao emblema «As palavras e o tempo», estão quase a começar. Dia 22 de Fevereiro, pelas 15h, decorrerá a apresentação de todo o evento à imprensa e à comunidade, no Salão Nobre do Teatro-Cinema, depois basta apenas seguir o programa que estará espalhado por todo o concelho ou através do página (http://www.jornadasliterariasdefafe.com/).
É por estas e por outras que podemos dizer com toda a razão que Fafe é uma terra de cultura.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O homem mais rico das terras de Fafe







Muitas vezes, os dias oferecem-nos instantes tão preciosos que até parece que encontramos o maior tesouro do mundo. Claro que o conceito de riqueza não é unânime para todos os homens. E só assim se entende que os sorrisos mais belos não discorrem do cintilar do ouro, mas sim de uma cor, de um gesto, de um olhar ou de uma palavra. Jamais um punhado de diamantes conseguirá abafar a fortuna incontável do Senhor que conheci em Fafe, um homem para quem o tempo não tinha horas precisas e o céu era do tamanho da sua vontade.
Aquele dia de Janeiro de 2011 acordara frio, apesar da meia dúzia de raios que sulcavam o horizonte. Um pouco enfriado, subi à cidade e atirei-me pelas ruas adentro. O que ia encontrando ao longo do meu percurso não me ia causando demasiada admiração, apesar de nunca olhar da mesma maneira para a mesma coisa ou a para mesma gente. Mas, a dada altura a emoção cresceu e fui obrigado a tirar as mãos dos bolsos. Do longe foram-me arremessadas algumas palavras. Curioso em saber quem me chamava, esforcei o passo no sentido preciso e, depois, estaquei.
Numa das esquinas do Clube Fafense, do lado do Café Arcada, um homem bem mais velho do que eu, de casaco apertado e com a cabeça protegida com um chapéu igualzinho ao do meu pai, repreendeu-me:
- Estava a ver que não me ouvia…
- Desculpe, … mas eu conheço-o? – Acrescentei meio admirado.
- Se calhar não, mas eu sei quem o senhor é. Reparei em si, aqui há uns dias, quando foi com uns amigos seus à minha aldeia, para falar com o Sr. Presidente da Junta.
Perante esta certeza toda, sempre lhe quis escutar mais alguns esclarecimentos:
- Mas quando foi isso?
- Foi na terça feira passada, lá por volta das nove horas da noite… eu acho que…
A partir daqui tudo se esclareceu. Na verdade, eu estivera na sua aldeia, pois eu tinha uma reunião com as Associações e o Presidente da Junta. Aliás, eu não ia sozinho. Os meus colegas Fátima Caldeira, Etelvina Castro e Paulo Teixeira partilhavam comigo essa incumbência. O que nós fomos fazer à terra deste nosso amigo está relacionado com o grande evento cultural Fafe dos Brasileiros que irá decorrer em Fafe, nos dias 16,17 e 18 de Março.
Antes de avançar esta pequena história repleta de riquezas e palavras plenas de saber, preciso de acrescentar uma certeza que me fascina. Tem sido maravilhoso trabalhar com aqueles três amigos, para quem o tempo não conta, apenas porque a cultura tem os minutos todos. Digo-vos, caros leitores, que não é qualquer um que, depois de um dia trabalho, pega na pasta e, sem que ninguém lhe pague para isso, vai de aldeia em aldeia, de casa em casa, de associação em associação a espalhar a ideia de que Fafe é grande e tem raízes culturais puras e arreigadas. Claro que o povo é sábio e tem reconhecido a nossa intenção. De certeza que março não vai trazer só sol, primavera e esperança…
Voltemos à história.
Como havia dito, depois de alguns esclarecimentos, o tal senhor convidou-me para tomar um café no Arcada, pois tinha algo muito importante para me dizer. Como ele já sabia o conteúdo da minha conversa com as tais pessoas da sua terra, e como alguém lhe dissera que eu tinha o hábito de calcorrear as ruas da cidade àquela hora, já há uns dias que me procurava. Depois de mais alguns acrescentos, anunciou-me que também queria participar nas recriações culturais que estávamos a prepara para o evento Fafe dos Brasileiros. Disse-me que ia vestir a roupagem dele mesmo: um homem do campo que gosta da natureza e de comer nozes no fim da tarde. Acrescentou, ainda, que traria a sua cadela Malhada e a sua flauta, para que Fafe soubesse que a música mais bela nasce de uma fonte qualquer.
Meus amigos, o senhor que eu encontrei junto ao Clube Fafense encheu-me de histórias, novidades e de um prazer que me satisfez. Falou da sua meninice, da sua reforma de duzentos e poucos euros, da sua horta no tempo do feijão verde, da altura em que conhecera a sua falecida esposa, da forma especial como assa as sardinhas, da tarde em que arremessara uma paulada a um desgraçado que lhe quisera roubar a carteira e muito mais. No fim da conversa, e só porque o meu telemóvel tocou, concluiu assim:
- Está ver… Eu posso dizer que sou o homem mais rico das terras de Fafe.
É evidente que eu concordei.
Carlos Afonso

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Em Fafe também nasceu Portugal



Em qualquer história que se conte ou escreva há sempre um motivo, uma inspiração, um princípio, uma hesitação, um desenvolvimento e um fim. Certeza óbvia a que esta minha criação não fugiu. Eu sei que nem sempre é necessário explicar ao narratário de qualquer história o porquê da mesma, para que não se desfaça o prazer da descoberta e o sentir subjectivo que, normalmente, dá cor à mesma. Mas, desta vez, uma inquietude própria de quem entende as preocupações de Fernando Pessoa na Mensagem, obriga-me a fazê-lo.
Na tarde 22 de janeiro, um dia após a abertura oficial de Guimarães capital europeia da cultura, fui passear por essa bela cidade repleta de história, curiosidade e gente bonita. O tempo estava ótimo e a minha vontade queria respirar a novidade do acontecimento.
Nas ruas asseadas, tudo estava a condizer. Os corações, símbolo maior deste estatuto de cidade de excelência, espreitavam em todas as montras e peitos humanos. Bem lá no alto, a Penha erguia-se imponente e espreitava risonha. Mais a baixo, o castelo, imagem de marca de Guimarães, mantinha-se atento e embandeirado. No sítio do costume, e permanentemente hirto na sua valentia, Dom Afonso Henriques segurava a espada e nem um bem-humorado grupo castelhanos, que por ele passou, o inquietou. De certeza que noutros tempos o nosso herói não reagiria assim.
Numa das ruelas da cidade berço, e no instante em que me apeteceu espreitar para o interior de uma loja, reparei num pequeno cartaz colado a um arranjo de flores secas. A sua dimensão de cartaz era reduzida, mas a mensagem que as letras manuscritas mostravam eram de um tamanho descomunal: «Guimarães é grande porque o seu povo tem memória». Mal li a frase, estremeci de imediato e um ânimo quente bafejou-me o andar. Sem mais, afaguei de leve o rosto, ignorei de propósito a elegância de um casal de estrangeiros que por mim passava, corri para o automóvel e só parei bem no centro de Fafe. Já com os pés firmes em terra, apeteceu-me dar uma volta.
Na Praça 25 de Abril, a nostalgia e a indiferença lambiam os palacetes brasileiros. Do Jardim do Calvário advinha um brilho acastanhado, timidamente evidenciado por um sol pouco quente e apenas uma meia dúzia de transeuntes meios tristes andava por ali. “ Mas que é isto?” - Gritei para comigo. “Em Fafe também há memória.
Já agora, mais uns acrescentos assertivos.
Eu sei que muito em breve vão conhecer mais pormenores e muitas certezas, mas quero falar agora. Preciso de apagar o catarro que me atrapalha a garganta. Chega de conformismos histórico-culturais. O reconhecimento de atos de valentia não pode cingir-se às prateleiras de museus, a livros escritos com garra e a fachadas pouco olhadas. É preciso mais, muito mais…
Eu sei que na nossa cidade há muita actividade cultural, facto que tem de ser dito e louvado, mas é preciso fazer mais, principalmente porque Guimarães fica mesmo ao nosso lado. Amigos, a capital da cultura está bem à nossa beira. Temos de usufruir desta dádiva de Deus.
Miguel Monteiro, Rui Adérito, João Crisóstomo, José Florêncio, Visconde Moreira de Rei, José Ribeiro Vieira de Castro e muitos outros visionários deste amor de cidade não podem cingir-se apenas a folhas e a sítios parados. Vamos lá pegar em armas mais vivas e dar ânimo às nossas memórias. Há que aprender com Guimarães, Óbidos, Santa Maria da Feira, Braga e muitas outras terras por esta europa fora, e devolver às ruas das nossas aldeias e cidade uma cultura viva. A capital europeia da cultura está mesmo ali. Não podemos ignorar esta realidade.
Amigos leitores, nos tempos que correm não podemos dar-nos ao luxo de ficarmos com o que os outros fazem e deixar as paredes das casas tombarem. Não chega metermo-nos no carro e ir visitar Guimarães. Temos de aproveitar a ocasião e trazer alguns dos muitos turistas que por lá andam a Fafe. Vamos tentar encher as nossas ruas, mostrar as nossas tradições e avivar o nosso comércio. Garanto-vos que não é preciso gastar milhões de euros com artistas vindos de longe. A nossa terra é rica em folclore, em teatro, em arquitetura, em história e em literatura. Temos duas das mais afamadas bandas de música do país, escolas de música e de bailado. Temos associações carregadas de experiência e muita tradição. As nossas escolas estão unidas, basta olhar para o que acontece nas Jornadas Literárias. A nossa terra é rica em gastronomia, paisagem, engenho, querer. A nossa terra tem alma e coração. Basta apenas um pouco mais. Basta juntarmos, com jeito, tudo o que de temos de bom e já está.
Vamos todos até Guimarães, mas tragamos, também, Guimarães até nós.
Fafenses amigos, vamos lá abrir o jogo.
Há algum tempo que um grupo de amigos, onde eu me incluo, agitados pela riqueza das nossas raízes, inspirados pela nossa herança brasileira, animados pelas III Jornadas Literárias de Fafe, que acontecerão em Março, e encorajados por algumas instituições e associações da nossa praça, anda às voltas com este assunto. Na verdade, no âmbito das jornadas literárias, surgiu a ideia de promover o evento cultural «Fafe dos Brasileiros», assente nas memórias do nosso povo. Se a ideia nasceu, de imediato a nosso querer se afeiçoou à mesma e o vento começou a soprar cada vez mais forte. De saco às costas e com uma determinação da cor do granito, começámos a bater de porta em porta, a ir de aldeia em aldeia, de escola, em escola, e o que era uma linha indefinida no horizonte, começou a tornar-se numa bela construção cultural. Em março, nos dias 16,17 e 18, se Deus e os fafenses quiserem, poderemos ser quase do tamanho do mundo, (o mundo assume o tamanho que nós ambicionarmos) e começarmos, neste ano em que o Minho está no centro da Europa, o princípio de uma longa e farta caminhada.
É tão bom lutar por um sonho em que se acredita! Eu sei que nem sempre conseguimos o que queremos, mas, e tal com diz Fernando Pessoa “Pois, venha o que vier, nunca será/Maior do que a minha alma.”
Voltando ao meu passeio do tal fim de tarde do dia 22, pelas ruas paradas da nossa cidade, quero contar-vos mais uma ocorrência curiosa. Escutem, por favor.
Na altura em estava a espiar a apatia do lago da Praça de 25 Abril e acompanhava o último queixume de uma pobre folha, o meu telemóvel tocou. Era um amigo de Bragança.
Depois de umas saudações naturais e umas pequenas frases de circunstância proferidas por amigos que já não se viam há mais de dois anos, uma pergunta vinda do outro lado da linha bateu-me de chapa no rosto:
“ – Carlos, escuta. No fim deste mês estava a pensar ir a Guimarães capital europeia da cultura. Podíamos encontrar-nos, assistir a uma ou outra iniciativa e saborear por lá uns petiscos vimaranenses. O que achas?”
Amigos leitores, eu não sei o que me deu, mas a minha resposta foi estrondosa, imediata e clara.
“ – Não, não venhas no final do mês. Vem antes em março, no fim-de-semana de 16 a 18, e aproveitas para participar, também, num grande evento cultural que irá decorrer aqui em Fafe, por essa altura: Fafe dos Brasileiros.”
Claro que o meu amigo adorou a ideia. Em março, virá ele, a família e mais um punhado de colegas, seus parceiros de profissão. Eles irão visitar a capital da cultura, mas também irão adorar conhecer a capital dos brasileiros, viajar pelos nossos museus, comprar uma lembrança, escutar as nossas famosas bandas de música a entoarem o Hino de Fafe, apreciar as nossas tradições, entender os nossos recantos provincianos, comer uma boa vitela à moda cá da terra, provar umas cavacas e refrescar-se com um bom vinho verde, (isto é apenas uma pequena enumeração). Estão a ver como é fácil espalhar uma boa notícia.
Se a Sala de Visitas do Minho souber assear-se com primor, se os seus responsáveis autárquicos souberem dar os passos acertados e fizerem a publicidade acertada, se os seus agentes económicos conseguirem espremer o sumo deste evento que se adivinha e se todos nós rumarmos no mesmo sentido, Fafe continuará grande e eterna.
Para terminar, e peço desculpa pelo tamanho desta crónica, quero dizer com a maior certeza do mundo que EM FAFE TAMBÉM NASCEU PORTUGAL.

Carlos Afonso

domingo, 22 de janeiro de 2012

No Jardim do Calvário, conheci o meu amor...




Ana Maria não era apenas uma bela mulher experiente, sábia e com pouco mais de setenta anos. Ela era mais do que isso. Ana Maria tinha um nome santo, bem da cor dos perfumes de maio. Se o seu nome era especial, a sua existência representava toda uma geração de fafenses de um outro tempo, que encontrou no coração da sua terra o amor da sua vida. Ana Maria era detentora de um olhar da cor dos pauis e uma vontade tão leve como o esvoaçar da passarada. Por acaso ou porque Deus assim quis, conheci esta mulher, ainda há pouco tempo, num dos passeios pelo meu bem amado Jardim do Calvário.
O Jardim do Calvário foi, e era bom que continuasse a sê-lo, um espaço detentor de muitos segredos, encontros e pontos de partida. A magia que o seu lago fornece, os embrulhados de luz que se escapam por entre a ramagem de frondosas árvores e a postura elevada que apresenta mostram ao céu os passos de muitas vidas.
As atuais formas que o Jardim do Calvário apresenta derivam de uma era em que nesse local, o Outeiro do Calvário, existiu uma pequena capela. A transformação deste outeiro remonta ao séc. XIX e a sua construção ficou a dever-se ao Presidente da Câmara daquela altura, José Florêncio Soares, que contou com o apoio importante do Comendador Albino de Oliveira Guimarães. A sua inauguração solene ocorreu em 26 de Dezembro de 1892.
A tarde de sábado estava banhada de uma frescura natural e o sol, meio envergonhado, lá ia puxando pelas mãos de quem gosta de passear-se pelas ruas e jardins, praças e becos de uma terra qualquer. No meu caso, senti-me agradado com a minha deambulação pelo centro de Fafe, e principalmente, com o meu encontro num dos jardins mais emblemáticos e carregados de história desta mui formosa terra.
Depois de subir a imponente escadaria e ultrapassar os portões, que sempre me receberam de braços abertos e sem a menor mácula, dou com os olhos no jardim do costume. No seu interior, e para além da natureza devidamente arrumada e perfeitamente distribuída nos seus sítios predeterminados, noto a presença de meia dúzia de pessoas que, de uma forma ou outra, por ali se deixavam estar. Como quem não quer a coisa, mas sempre atento aos momentos, contornei e tornei a contornar os acastanhados carreiros que serpenteavam os canteiros meios friorentos, afetados por um inverno pouco exigente. A dada altura, a minha atenção levou-me para um sítio bem localizado. O mais curioso é que já tinha passado por lá e nada me tinha feito parar. Se calhar ia distraído.
Sentada num banco, vejo uma mulher vestida de preto, com um cabelo arranjado à maneira antiga e com as mãos a segurar o peito. Ao seu lado uma pomba obediente ia depenicando um pedaço de pão que ela lhe trouxera. Depois, e sem eu contar, abriu o peito, estendeu a mão direita na minha direção e disse:
- Sabe, e desculpe se o estou a incomodar, este lugar é especial para mim. Foi aqui que tudo começou.
- Diga – acrescentei num tom de quem queria saber mais.
- No Jardim do Calvário, eu conheci o meu amor...
Sem imposturas, e sem pedir licença, sentei-me ao seu lado e escutei da sua boca manchada pela ausência uma linda história de amor.
A pomba não se importou com a minha presença e continuou a sua tarefa. A aragem ficou mais quente. A mulher chamava-se Ana Maria e a cor da sua roupa tinha os tons de uma morte ingrata e sem dó, que lhe roubou o que ela encontrara, numa tarde de janeiro, há mais de cinquenta anos, naquele mesmo lugar.
O seu calvário de mulher viúva só ainda agora começara.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O dia em que o rei voltou a Fafe








Fernando Pessoa disse um dia que “O sonho é ver as coisas invisíveis”. De facto, o nosso poeta tinha toda a razão. Até parece que as suas palavras nasceram da fonte mais pura, para depois percorrerem os carreiros de tempo e fartarem de frescura e verde as almas que anseiam.
Naquela noite de Janeiro, um frio peganhoso apegou-se de tal forma à minha demanda pelas ruas de Fafe que foi preciso um sonho bem quente para que o meu descanso natural acordasse na manhã seguinte com uma disposição digna de registo. Na verdade, há instantes que nunca mais se esquecem.
O que eu vou escrevinhar nesta história não é um sonho qualquer. É muito para além disso. Imaginem que estão a olhar as estrelas e, de repente, uma delas desce do seu poiso, mistura-se com a nossa existência e, depois, pega-nos na mão e puxa-nos para o seu mundo. Creio que o mais fácil será eu começar a contar. Só um pormenor relevante para que a exatidão da história de Portugal não fique manchada: a ação do meu sonho não decorreu em 1906 ou 1907, altura em que o nosso rei Dom Carlos passou por Fafe, ela assenta bem no nosso século, no ano de 2012, num belo dia solarengo de um mês de primavera.
Alcina levantou-se eufórica. Cantarolou no banho e não esperou que os seus pais se levantassem. Tomou o almoço da manhã e foi vestir o seu traje. Ela queria ter a certeza de que tudo estava perfeito. Era a primeira vez que participava numa recriação histórica. Pelo que pude subtrair do meu sonho, Alcina morava numa linda terra do Minho, cujo nome se me varreu da memória por algum tempo. Só mais tarde é que constatei que só podia ser Fafe. O motivo desta certeza foi-me oferecido pelo fascínio das fachadas brasileiras que cobriam o casario que desenhava o espaço onde a ação se desenvolveu.
A jovial rapariga pertencia ao grupo de folclore lá da terra e, tal como muitos outros jovens da sua idade, ia ter um papel de destaque na recriação histórica da vinda do rei Dom Carlos à sua cidade. Os seus olhos eram castanhos, daquele castanho da cor da terra. O seu rosto era de um afável tão curado pelo sol que fazia com que os moços lá do sítio o desejassem para lhe pousar um outro beijo. Quanto ao seu cabelo, nada de especial a dizer, a não ser que foi muito bem penteado, para não destoar no contexto.
Devidamente preparada, lá se despediu dos pais, que entretanto se haviam levantado, e saiu. Uma chamada de atenção por parte da mãe por causa de tanta pressa já não foi escutada por Alcina. Lá fora, o sol matinal brilhava e um barulho de outro tempo já se escutava no ar. Aqui e ali eram bem visíveis os tons de festa que estava quase para começar. O toque de um realejo escapou-se de uma sacada e duas pombas esvoaçaram admiradas. Mais ao longe, escutaram-se as campainhas de uns bois. Que emoção cobria a nossa amiga, que tinha de chegar o mais rápido possível a casa da sua prima Luísa, para ambas se mirarem. Dois foguetes estalaram no ar e um ai de coração assustou a moça. Do outro lado da rua, um rapaz meio atrevido atirou-lhe um assobio fora de uso que a fez corar e que quase a atirou contra uma velha bicicleta que alguém deixara encostada a um poste. Pelos vistos, a vinda do rei começava a prometer.
Já recomposta, Alcina seguiu o seu destino e o tal rapaz, fino nos seus propósitos, gravou-lhe os traços do corpo e um pouco do rosto. O barulho da festa ecoou mais forte. Outros dois foguetes estalaram no ar.
Em plena tarde de domingo, as lojas tradicionais continuavam repletas de povo que comprava lembranças e curiosidades preparadas para o evento, pois o momento tinha de ficar devidamente assinalado. Os restaurantes ainda estavam bem compostos de comensais que, depois de uma boa vitela à moda da terra e um bom verde, saboreavam as cavacas e o pão-de-ló. Com todas estas vivências de outras eras que enchiam de fascínio todos os que percorriam as ruas mais centrais da cidade de Alcina, um pregão surgiu de súbito em cima de um cavalo a apregoar que o rei estava a chegar. Um reboliço embrulhou-se com os aromas da tarde e o azul do céu. Os miúdos que se entretinham com os jogos tradicionais colocaram-se em sentido. Nas barraquinhas e nos espaços onde se vendiam produtos regionais ouviram-se vozes apressadas, ao mesmo tempo que uns toques das concertinas se calaram. As duas bandas de música da terra puseram-se no sítio certo. As autoridades locais deram os últimos retoques nas suas posturas e disposições. Tudo estava nos conformes. Mas … e Alcina?
A nossa amiga, que estivera a ensaiar uns pés de dança com o seu grupa corria apressada para ver o acontecido. A pressa era tal que, e por azar, pisou numa bosta de vaca. Convém que se diga que as gentes de todas as aldeias e lugarejos em redor se associaram à festa e também elas trouxeram alguns pilares do seu regionalismo ligados aos trabalhos do campo para participarem num desfile etnográfico programado. Se assim era, a dita vaquinha também veio e esqueceu-se dos bons modos. Mas caros leitores, não se preocupem com este acontecido, pois no momento em que a rapariga se preparava para voltar a dar brilho ao sapatinho, um galante rapaz, o tal que de manhã lhe oferecera um assobiado galanteio, surgiu bem na sua frente com um lenço bordado. Que gesto simpático!...
Uma descarga de foguetes fez estremecer os ares. Sons de música ecoaram em uníssono. Alcina olhou de mansinho para o rapaz, sorriu e aceitou a oferta. Eu, que, sem mais nem menos surgi em cena, deixei escapar duas lágrimas satisfeitas. E…
Não querem os caros leitores saber que, e tal como acontece nos sonhos mais encantados, acordei no preciso momento em que Alcina e o rapaz, de mãos dadas, entravam na praça. O rei já lá estava.
Quanto a mim, fico-me por aqui. Quanto ao resto da história, acho que não é difícil saber o seu desfecho. Talvez a próxima primavera nos acrescente mais algum pormenor.
Carlos Afonso