sábado, 20 de agosto de 2011

Do outro lado do espelho




Às vezes, os lugares tornam-se especiais devido a pormenores que quase passam despercebidos, e não pelas grandezas em que todos reparam. Não admira, por isso, que, para algumas pessoas, a imensidade do mar se torne irrelevante perante a limpidez duma pequena nascente.
Em pleno coração do Vale do Lima, a beleza genuína e peculiar da vila mais antiga de Portugal esconde raízes profundas e lendas ancestrais. Foi a rainha D. Teresa quem, na longínqua data de 4 de Março de 1125, outorgou carta de foral à vila, e foi numa tarde de Agosto que Francisco descobriu nesta vila, uma terra afável e orgulhosa do seu passado, como um espelho pode conseguir mudar uma vida.
Antes de avançar, apenas duas explicações que, provavelmente, seriam desnecessárias, se tivermos em conta as evidências que vão sendo apresentadas. A vila de que estou a falar é Ponte de Lima, a quem chamam também a princesa do Lima. A personagem principal desta história, o Francisco, é apenas uma personagem, e pronto.
A tarde estava solarenga, mas, e apesar de estarmos em Agosto, o calor costumeiro desta época do ano não se fazia sentir. Assim, e porque o momento se propiciava, Francisco e mais um grupo de amigos decidiram visitar uma exposição diferente, e ao mesmo tempo especial, que decorria por essa altura em Ponte de Lima. Era uma exposição de jardins. Sem sombra de dúvida que, e eu posso ter toda esta certeza porque já tive o prazer de a visitar, o que aqueles amigos viram e sentiram jamais sairá das suas memórias, principalmente para Francisco.
As flores com as suas mais variadas formas, cores e perfumes, assim como diversos tipos de arbustos, árvores e demais materiais decorativos espalhavam-se por toda uma área restrita, subdividida em pequenas parcelas ajardinadas bem ao gosto dos seus criadores. Cada um destes fragmentos ornamentais tinha algo de ímpar e até peculiar, mas todos eles estavam bem contextualizados num espaço maior, onde também se podiam ver típicas ramadas de videiras, carregadas de uvas quase maduras, avenidas de limoeiros com os seus frutos tingidos de um amarelo esverdeado, espaços relvados, alguns pontos de água plenos de frescura e outros detalhes a condizer. Em redor deste sítio sazonal, construída pelas mãos de homens com gosto, e sem que o ciúme os tenha afectado, desenhavam-se, no seu tom altivo, as nativas cores desta zona minhota e a calmaria esplêndida do rio Lima. Tudo parecia perfeito. Até o azul do céu tinha mais cor, e a passarada mal se fazia ouvir, para não dividir atenções.
Eu sei que esta vila do Minho é detentora de uma rara beleza, derivada de raízes romanas e medievais, esculpida em rostos com memória e amassada em sabores de qualidade, para além de muitos outros pormenores contemporâneos. Mas nessa tarde, o que mais se evidenciou aos olhos de Francisco, a personagem evidenciada nesta história, foi esta exposição, e mais concretamente um dos pequenos jardins que compunha esta combinação de arte e cor. Um jardim que, e para além do que é habitual encontrar em sítios como este, tinha plantado nas suas bermas espelhos. Não eram espelhos normais, daqueles que mostram as certezas dos homens ou ajudam a reparar as imperfeições das formas. Eram espelhos que alteravam as aparências, tornando-as mais disformes ou menos disformes. Tornando os mirones, e dependendo da sua posição, mais gordos ou mais magros, mais altos ou mais arrochados, e por aí fora. Quer isto dizer que este jardim, de que não memorizei o nome do seu autor, mostrava o contexto conforme o ponto de auscultação. Quer isto dizer que este jardim, de que não memorizei a nacionalidade do seu autor, mostrava a conjuntura consoante o sítio de observância. Francisco também reparou nesta leviandade criativa tão fora de propósito e gostou do que viu.
Antes de continuar, e porque me sinto na obrigação de o fazer, quero evidenciar que nem todos somos iguais, e que os gostos se podem ou não discutir. O que para um de nós pode ser natural e vir a propósito, para outro pode ser fútil e sem qualquer sentido. Voltemos à história.
Tanto Francisco como os amigos acharam interessante aquela maneira diferente de esboçar um jardim, envolto na singularidade dos seus espelhos E divertiram-se imenso com o que eles reflectiam. Muitas posturas se lhes ofereceram e o resultado roçava sempre o sorriso e até a gargalhada. E curioso como a intelectualidade humana se reduz, por vezes, ao caricato dos instantes!
A primeira imagem do Francisco foi assustadora e ao mesmo tempo engraçada. A sua estatura de um metro e sessenta e cinco, acompanhada de um peso de noventa e tal quilos, o que nos parece demasiado, tendo em conta a sua altura e idade, mostrava-se, agora, ainda mais descomunal e até aterradora. Algum tempo foi passando e muitas outras posturas se experimentaram. O pasmo e a alegria iam sendo gerais e, por momentos, as flores iam perdendo o seu perfume.
A certa altura, e porque já estava escrito no destino da tarde, do outro lado do espelho surgiu um reflexo encantado que imobilizou Francisco. Bem do outro lado do espelho assomou uma figura esbelta e de porte quase atlético, mas com um rosto de traços conhecidos, mas demasiado sério para a ocasião. A nossa personagem principal ficou algo atarantada com o que os seus olhos lhe estavam a evidenciar. Instintivamente, escondeu-se no adormecimento que escorreu do seu íntimo, e nem reparou no chilreio espontâneo de um pardal, pousado num ramo qualquer, que não interessa determinar. Passados um ou dois minutos, pegou no seu olhar e atirou-o para a realidade quase obesa do seu corpo, e não disse nada. Depois, voltou a reparar na irrealidade que o espelho lhe ofertava e, numa atitude envergonhada, espetou com o seu silêncio na face do espelho, e disse:
- Eu podia ser igual a ti, mas …
No preciso instante em que estas palavras iam ter continuidade, a voz de um dos amigos que acompanhavam Francisco nesta visita à exposição dos jardins de Ponte de Lima, alertou-o para a necessidade de continuar, pois já se fazia tarde. Como era de esperar, do outro lado do espelho tudo se apagou.
Será que esta história acaba aqui?

Carlos Afonso


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Amanhã




Amanhã, quando eu morrer,
Não chorem sobre o meu peito
Nem colham memórias de mim!

Peço apenas uma flor
Colhida ao nascer do dia
E pousada na apatia do meu corpo
Antes de um novo caminho me levar.

Amanhã, quando eu morrer,
Não falem daquilo que fui
Nem usem sinais de dor!


Peço apenas uma história
Escrita com um final feliz
E contada ao silêncio do meu rosto
Antes de um novo gesto me encontrar.

Amanhã, quando eu morrer
As aves voltarão ao lugar onde eu nasci…

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um Português em Paris…



Viajar, na verdadeira percepção da palavra, permite-nos tocar espaços e gentes, tão diferentes e tão iguais!
Sim. A cor da pele ou a forma de vestir, já para não falar dos gostos, entendimentos, língua e práticas de cada região, devidamente localizada, não são factores de plena distanciação entre o ser humano. Há sempre algo que nos torna unos e filhos da mesma condição. Alberto, o português desta história, percebeu perfeitamente essa realidade, quando abriu os olhos e reparou que os encantos e desencantos de Paris que, e apesar da sua especificidade, tinham a mesma cor de outras vezes e de outras histórias.
Ainda o avião da Aigle Azur não tinha aterrado em Orly, um dos aeroportos internacionais de Paris e já Alberto matutava na melhor maneira de se deslocar para o centro da capital francesa, pois era aí que se localizava o Hotel onde iria ficar hospedado. É evidente que os receios evidenciados não se fizeram esperar. O tomar o autocarro errado fez com que o português fosse ter a um destino não programado. O que lhe valeu foi a atenção e o cuidado de quem não se importa de oferecer o seu tempo aos que dele precisam. Assim, a ajuda de um senhor com alguma idade, que se esforçou bastante em perceber o sentido das palavras, proferidas num francês muito atrapalhado por parte deste viajante vindo do norte de Portugal, que, em simultâneo, não se cansava de apontar o seu objectivo final, num mapa ainda novo, tornou-se crucial.
Alberto teve de apanhar um outro transporte, neste caso o metro. “Mas que grande confusão, meu Deus” - pensou ele sem dizer nada a ninguém, (se é que isso iria ajudar em alguma coisa). Depois foi só ter de palmilhar uma rua bem comprida com a mala às costas e pronto. Bem, e sem me demorar mais, depois destas aparentes dificuldades tão próprias de quem não sabe todos os caminhos do mundo, a porta do Hotel Axel Opera, restringido à rua Montyon, com a sua fachada carregada de passados, abriu-se de par em par.
É maravilhoso encontrar um sítio que nos espera, principalmente quando o caminho nos faz ansiar a chegada.
Paris, que até a esta altura não se dera a conhecer, e por motivos mais que óbvios, fez questão agora, no momento em que o português saiu do hotel para conhecer esta grande capital, de se vestir em tons de um Verão ameno e prenhe de novidades para oferecer. O facto de o hotel se situar bem no coração deste burgo com mais de mil anos de existência e a quem chamam a Cidade Luz, muito por culpa da sua efervescência durante o Iluminismo, ajudou a que as várias distâncias e direcções não parecessem demasiado longe. Tudo tinha o seu espaço, beleza e funcionalidade. No ar, o cheiro a crepes abriam-lhe os desejos, e um barulho que não incomodava levavam Alberto a caminhar com vontade e com gosto.
As fachadas das casas comprovavam-lhe um museu ao ar livre. Os rostos fascinavam-no pelo seu multiculturalismo. As surpresas apresentavam-se-lhe em cada esquina e as longas avenidas pediam-lhe para continuar. De repente, e bem à sua frente, a Opéra National de Paris Garnier, com a sua associação de estilos que vai do Clássico ao Barroco, datado de 1875, indiciou-lhe a opulência de uma cidade repleta de monumentos e pinceladas de história e impérios. E quase sem dar por isso A partir daqui, e dia após dia, tudo o tingia de momentos inesquecíveis.
Ao longe, e para onde quer que fosse, a Tour Eiffel mostrava-lhe, de uma forma bem clara, que a sua imponência fazia dela o verdadeiro ex-libris de Paris, e que a sua fama a levava a ser a obra de arte mais fotografada do mundo. Ao perto, e por muita pena sua, não a pode visitar, porque a polícia lhe tolheu a intensão. Tanto a torre como o espaço envolvente estavam vedados ao público, uma vez que era véspera do 14 de Julho, dia da França, e o fogo-de-artifício ia ser lançado do seu interior, às 23 horas em ponto.
Sempre com uma vontade que criava espanto, os quatro dias de visita foram um autêntico redopio. A noite e o quarto do hotel só o retinham para umas breves horas de sono, e pouco mais. O corpo já não acolhia outras ousadias, mesmo que se estivesse em Paris.
O Museu do Louvre, com a sua sumptuosidade e a sua jóia da coroa, a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, não o decepcionaram, assim como aconteceu com outros locais de renome: Les Invalides; a Place de Montmartre; a Notre-Dame; a Sorbonne; os Jardins do Luxemburgo; o Centre Pompidou; o Moulin Rouge e a Place Pigalli, repletos de folia e decotes a condizer; o Arco de Triunfo, com as suas magníficas vistas; as galerias Lafayette, com os seus luxos; o Sacré Coeur, com a sua postura imponente, tendo Paris ajoelhada a seus pés; a lace de Montmarte, repleta de pintores; e muito mais…
Perante tamanhas maravilhas que só uma cidade como Paris pode oferecer, os olhos de quem as focaliza tornam-se pequenos. O que vale são os registos fotográficos que ajudam a cimentar as ideias.
Alberto deu o seu tempo por bem empregue, mas algumas experiências ficaram por cumprir. Não admira, por isso, que este português, morador na Sala de Visitas do Minho, tenha feito o juramento em pleno rio Sena, na altura em que usufruía de um passeio de barco, de que iria de voltar. Eu penso que ele vai cumprir o juramento. Querem apostar?
Bem, no meio de tanta descrição, quase não arranjava espaço para um caso de ocasião, de entre outros, que marcou esta viajem de Verão. Ora prestem atenção, e depois digam-me da sua justiça.
Subindo apressadamente a Avenue des Champs-Élysées, uma prestigiada avenida de Paris, com os seus cinemas, cafés, lojas de especialidades luxuosas e árvores de eleição, os castanheiros-da-índia, um sem-abrigo mostrou-se numa postura algo agressiva, não contra Alberto, mas contra um rapaz ainda novo que lhe pontapeara uma pequena caixa de lata que lhe servia para guardar algumas moedas que lhe pudessem dar. O mais curioso foi o que o mendigo, um homem com umas barbas de respeito, e vestido todo de negro, disse e tornou a dizer:
- Filho da puta, se fosse na minha terra eu dizia-te como era.
Sem qualquer impostura, Alberto aproximou-se do seu conterrâneo, para quem Paris de nada lhe serviu, deu-lhe dez euros e segredou-lhe aos ouvidos.
-Tenha calma, que tudo se há-de arranjar.
A fúria do mendigo perdeu o ímpeto e um suor envergonhado arranhou-lhe a cara. Meio atordoado, colou a atenção em Alberto, e, sem mais, sorriu e disse obrigado. Depois escondeu-se no meio da multidão e saiu de cena.
É pena que a luz nem sempre brilhe ao cair da tarde.
Desculpem, mas acho que vou terminar, pois a crónica já vai longa. Prometo que em breve retomarei o tema.
Só um aparte importante. Este português não viajava sozinho. Ele fazia-se acompanhar pela esposa, uma mulher determinada, nascida numa terra abençoada pelos deuses, no mês em que as camélias mostram a sua cor aveludada, e detentora de um olhar intenso e claro. Provavelmente, se Alberto não tivesse trazido companhia de Portugal, e conhecendo eu a forma fácil como seus sentidos se apegam às realidades e à volúpia dos instantes, outra água teria corrido por debaixo das pontes do Sena. Creio que estou a exagerar.

Carlos Afonso

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Fafe, com fé e amor

Fafe é uma terra airosa

Como poucas em Portugal,

A sua história é famosa

E a sua alma sem igual.


As suas ruas mostram os destinos

E as vidas de muitas gentes,

As igrejas com os seus sinos

Garantem a fé dos seus crentes.


A Senhora de Antime, Mãe de Deus,

Rogamos muitos favores,

Pois nós somos filhos seus

E entregamos-lhe os nossos temores.


De todas as festas do Minho

Não há outra como a nossa,

Não falta vitela nem vinho,

E a sua procissão é grandiosa.


Eu gosto de morar neste ninho,

A quem chamam um amor de cidade,

Aqui recebi muito carinho

E encontrei a felicidade.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O menino das fragas






Eu sei muito bem que a vontade dos homens nem sempre cumpre os rituais e, de vez em quando, conduz-nos para reinos que moram bem perto das estrelas, reinos onde as flores mudam de cor, conforme os anseios de quem as olha, e os meninos são do tamanho de homens a sério. Não admira, por isso, que o dia 21 de Maio de 2011 possa vir a ficar para a minha história de vida, como um dos dias mais mágicos que percorri.
Para quem gosta de Miguel Torga, o grande escritor transmontano, e se desloque à sua terra natal, São Martinho de Anta, todo o seu entendimento é acariciada por uma imensidade de curiosidades, lugares e paisagem sem igual. E, porque não podia deixar de ser, a Serra da Senhora da Azinheira enquadra-se, na perfeição, nesta ampla abrangência, não só por causa das magníficas vistas que de lá se usufruem, como dos segredos que por lá ainda se podem escutar. Claro que Deus também tem neste lugar um poiso de destaque. E mesmo detentor da omnipotência que se lhe conhece, fez questão de se fazer representar ali pela mãe de Jesus, a Senhora da Azinheira. A Senhora mora numa solitária capela no fresco ar da montanha, onde o magnífico panorama, enche a vista dos que lá se refugiam em meditação ou dos passantes que poisam naquele mirante natural, e donde se podem abarcar treze concelhos. É pois uma dádiva ímpar da Natureza podermos observar as tonalidades de verde agarrados a fachas de espaços esbatidos de cinzentos e azuis, assim como escutarmos o chilrear cadenciado da passarada.
Foi aqui que pelo século XVIII se construiu ”…fora deste povo em distância de três tiros de mosquete para a parte do Norte huma formoza capella com a imagem de Nossa Senhora da Azinheira, que dizem se chama assim por haver no dito sítio antiguamente huma arvore chamada Azinheira…”; “… tem a capella aparências de Matriz…”; “…finalmente não se encontra nesta Província capella de serra com mais custo e galhardia…”.
Na capela - mor a tribuna tem ao cima a representação da Santíssima Trindade, com Nossa Senhora ao meio e duas imagens ladeando-a que são Deus Pai e Deus Filho, Jesus. Por cima, uma pomba branca representando o Espírito Santo, que teve em tempos no bico uma coroa para pousar na cabeça da Senhora coroando-a como Rainha do Céu e da Terra.
Neste retábulo, estão inseridos à direita e à esquerda de quem entra, as imagens dos Santos já referidos em pequenos mísulas e não propriamente na tribuna.
Entre o altar de S. José e o arco divisório da capela - mor há uma coluna cilíndrica de granito, alta, onde, em cima de uma peanha, se encontra a imagem de Nossa Senhora da Azinheira, de pequenas dimensões, policromada, que sai na procissão no seu andor de cetins, no dia 15 de Agosto, o dia da festa anual.
A capela de Nossa Senhora da Azinheira está implantada numa colina a 750m de altitude. Em seu redor a natureza exulta e pasma qualquer visitante, principalmente se vier à procura de indícios de Miguel Torga.
Um dos contos mais belos do grande escritor transmontano, Natal, teve por assento este ambiente paradisíaco, o que só vem engrandecer ainda mais a abrangência deste espaço tão pertinho do céu. De certeza que Garrinchas, personagem principal do conto, foi instigado por Deus a acolher-se na capelinha da Senhora da Serra, para fugir do imenso nevão que parecia querer engolir tudo em redor. Depois, Torga só teve de dar azo ao seu amor à terra mãe, à sua rica imaginação e à sua criatividade.
Quando o grupo de professores de Fafe chegaram às terras de Torga, a Senhora da Serra foi um lugar obrigatório a visitar. Quero apenas referir que fomos muito bem recebidos pelo Sr. Vereador da Cultura de Sabrosa e pelo Sr. Presidente da Junta de São Martinho de Anta, neste roteiro cultural. E porque não podia deixar de ser, ambos nos acompanharam na nossa demanda.
Do muito que vimos e tocamos, um pormenor evidenciou-se no meu entendimento, e que gostaria de partilhar com os leitores. Garanto-vos que é quase tudo verdade.
Chegados ao alto da serra, e depois do pasmo inicial, o Presidente da Junta, num tom rústico e apaixonado, começou a interligar a capela com o espaço literário de Torga. O raio do homem fazia-o de uma forma exuberante e autêntica. Até parecia a própria encarnação do escritor. A dada altura, o coração e a alma tiraram-me do local onde estávamos a escutar a guia de ocasião e remessaram-me para o meio das fragas, que se escondiam por detrás de umas torgas e pinheiros.
Sem que o esperasse, o impensável aconteceu.
Miguel era apenas uma criança como todas as outras da sua idade, embora o seu rosto tisnado e levemente crestado pelas têmperas do sol transmontano indiciasse o contrário. Quanto à idade, de certeza que não tinha mais de 12 anos, apesar de as mãos mostrarem uma cor calosa e habituada aos afazeres do campo. As suas roupas estavam sujas e demasiado encardidas para os tempos que correm e o cabelo parecia um pedaço de terra acabada de lavrar. O seu olhar era intenso, quase do tamanho dos espaços que o cercavam, facto que me causou espanto e fascínio.
Mas… o que fazia ali, bem no cume da serra esta alma irrequieta?
Cumprimentei-o e perguntei-lhe o nome. Sem muita pressa, respondeu-me. Não se alongou mais. Limitou-se a entregar-me o pedaço de uma fraga e um leve sorriso. E mais nada… Depois, numa pressa sem igual, começou a correr monte abaixo e desapareceu do meu alcance.
Claro que eu percebi todo este enquadramento.
Regressei ao lugar a que a minha imaginação me havia roubado e entrei na capela.
Que maravilha!

A grandeza do homem não está, apenas, nas metas que alcança, ela desenha-se, principalmente, nos sonhos determinados que o movem.

Carlos Afonso

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Perguntai por mim!


(Poema dedicado aos meus alunos de 12ºR)

Os dias de cada vida
Não são todos iguais.
Às vezes, atiram-me lama ao rosto
E cobrem-me de imundices vazias.
Outras vezes, obrigam-me a caminhar,
Na direcção que desejo alcançar,
Mas não quero que acabe as sim.

Eu sei que os destinos têm de andar…
Eu sei que tenho de soltar do peito
Os sentimentos dos que vão,
Sem saber se tornarão,
Sem saber se me dirão
O que ainda não senti!

Tempo, não roubes o sonho dos que têm de sair
Nem me oprimas com esse fim
Que ainda não acabou,
Mas que tem de subir à morada das estrelas
E à foz onde começa o mar
E cessa o meu tocar.

Ai, como as estações estão certas!
Mesmo que os ventos destruam a calma dos prados
E as flores percam a cor,
E se afastem das certezas primaveris…

Basta.
Os meus choros não podem apagar os risos dos que querem ir adiante.
Os caminhos têm de seguir o seu rumo
E as vozes não podem calar-se antes de Deus as escutar.

Ide, amigos do peito, aves da esperança, corações de mel!
Segui o rumo das aves,
Bebei a clareza das nascentes,
Colhei os frutos das vontades,
E amai o nascer do luar.

Um dia, mais tarde,
No momento em que os vossos olhos
Já beberem a seiva de outros peitos,
E os vossos corpos roçarem outros prazeres,
Iguais à plenitude dos anjos,
Voltai a esta escola
E perguntai por mim!

Com muito carinho, Carlos Afonso…

domingo, 22 de maio de 2011

O vendedor de mentiras




Às vezes, a clareza dos dias nem sempre nos mostra toda a verdade, principalmente se os homens esconderem o que lhes mora na alma.
A tarde estava solarenga e uma frize de limão ajudaria, de certeza, a acalmar a sede que me percorria as entranhas. Não admira, por isso, que a minha determinação me tenha conduzido à padaria Silva e aí tenha procurado a necessário refresco. Nas mesas apenas se dispunham meia dúzia de pessoas. Atrás do balcão, uma funcionária da casa, aí pelos seus vinte e poucos anos, mexia e remexia no que lhe convinha. A frize não demorou a chegar e uma leve sensação de prazer varreu a minha postura, facto que levou a que continuasse naquele espaço simpático mais de uma hora.
Reconheço que o meu tempo anda demasiado preenchido para passar tanto tempo sentado numa mesa colocada no seu assento habitual à espera de ser ocupada. Mas, é importante que as rotinas se quebrem e se pare um pouco para reparar no que nos rodeia. E foi o que eu fiz. No exterior da pastelaria três operários trabalhavam no arranjo do pavimento da rua, enquanto um outro jazia na sua ociosidade, sentado numa máquina escavadora, à espera que alguém o solicitasse. Por entre estes azafamados trabalhadores, muito entulho, barras e cimento e demais dependências, duas raparigas, num passo que mostrava alguma pressa, tentavam arranjar carreiro para poderem seguir em frente. Se calhar iam para escola. Será que iriam chegar a tempo à aula? Levemente, o trabalhador que estava em cima da máquina fez um intencional esforço e seguiu o deambular cauteloso das alunas. O que será que lhe passou pela mente?
No interior da pastelaria cavaqueava-se livremente, ao mesmo tempo que um televisor, colado perto do teto ia dando um ar da sua graça. Por um instante, prestei-lhe a minha atenção. A dada altura, e no momento em que estava a passar no ecrã uma resenha informativa, escutei com toda a clareza do mundo uma voz convicta, que se despegou de uma mesa ali ao lado.
- Lá está o vendedor de mentiras. Mentiroso…
Sem olhar para o lugar donde advinha a voz, mas só podia ser de uma mesa encostada à parede, pois as outras pessoas estavam mais perto do balcão, reparei mais afincadamente no que a televisão transmitia. Na imagem apenas se via um nosso governante a jurar a pé junto que a culpa da crise em Portugal não era dele.

Bem! Perante tamanha convicção fiquei sem perceber as palavras que o meu colega de espaço lhe arrojara. Será que ele tinha informações de que eu não dispunha? E mais a mais, em quem é que devemos acreditar. Num determinado governante português, elegante na sua postura, de formação superior, com um olhar aguerrido e demasiado convencido e convincente, ou num comum popular que, se calhar, já estava a apanhar com a crise pela cara, e o único bem de que ainda dispunha era a liberdade de falar?
Como, no momento, não arranjei resposta para tamanha incerteza, (desculpem, mas estou a ser irónico), levantei-me da mesa, paguei o que devia, olhei de soslaio para o lugar onde estava sentado o descontente eleitor e... Coitado! Pareceu-me bastante abatido. De certeza que ele tem todos os motivos para presentear o nosso douto governante com tão lisonjeiro epíteto.
Só para terminar, e para que ninguém fique com dúvidas em relação às causas que mergulharam Portugal nesta crise avassaladora, se é que existe alguma, quero contar-vos um pormenor. No meu quintal, este ano, não há muita fartura. Esqueci-me de semear o alho francês, as ervilhas e as favas. Para além disso a erva daninha tomou conta de tão pacato espaço e é rainha e senhora daquelas paragens. Será que a culpa é dos vizinhos que não tiveram o arrojo para invadir o terreno alheio e colocar tudo nos eixos?
É evidente que a culpa é toda minha, que não estive à altura da minha obrigação.
Se calhar o meu quintal está a precisar de outro hortelão. E já que estou com as mãos na massa, penso que o meu país também.
Carlos Afonso