sábado, 26 de fevereiro de 2011

Fafe nos caminhos da Literatura

A menos de um mês das 2ªs Jornadas Literárias, que decorrerão entre os dias 14 de Março e 21 de Março, altura em que os criadores literários de Fafe terão um papel de destaque numa multiplicidade de iniciativas espalhadas por todo o concelho, Vozes da Secundária entendeu por bem recuperar uma pequena parte de um trabalho realizado pelos alunos de Literatura Portuguesa da Escola Secundária para as anteriores jornadas, denominado De Fafe com Amor, e que mereceu o aplauso de várias entidades. Tendo consciência de que não foi possível estudar todos os escritores, esta primeira tentativa de mostrar um pouco do que alguns criadores têm produzido ao longo dos anos, visto pelo olhar ingénuo dos alunos, teve o mérito de trazer à luz do dia o muito que Fafe tem dado à Literatura Portuguesa.
Sabendo nós que o caminho ainda não tinha chegado ao seu término, a primeira tentativa, iniciada o ano passado, está a ter seguimento neste ano lectivo. Na verdade, e porque o trabalho não podia parar, os alunos de Literatura Portuguesa do 11º Ano continuam a aprofundar o estudo de certos autores fafenses, assim como começaram a estudar outros, pois a paisagem literária que nos rodeia é riquíssima.
Como corolário desta segunda iniciativa, realizar-se-á no dia 14 de Março, pelas 17h30, na Escola Secundária, no âmbito das 2ªs Jornadas Literárias, um encontro de escritores fafenses, apelidado de Fafe nos caminhos da Literatura, e que está aberto a todos aqueles que amam o sentir das palavras.
E porque Deus existe e os homens são do tamanho do seu querer, acreditamos que, num futuro próximo, todo este trabalho de dois anos possa ter os seus frutos merecidos com a publicação de uma Antologia Literária a que podíamos chamar (e porque não?) Fafe, meu Amor.

« (…)

“A nossa terra é formosa
Como ela não há igual
É a mais perfeita rosa
Das terras de Portugal.”
Hino de Fafe



A cidade de Fafe acolhe-se sob outeiros expostos ao sol, onde cinzentos graníticos emergem de um extenso manto verde, serpenteado por joviais ribeiros. Dependurados das encostas, frondosos pinheirais abraçam velhos carvalhos, que permanecem agarrados à rudeza do tojo bravio e acolhem nos seus ramos os queixumes das ervas bravas e os murmúrios dos ventos do norte.
Esta terra minhota, apelidada de sala de visitas do Minho, veste-se de asseados jardins, perfumados de poesia, que adocicam os nossos ouvidos e alimentam a alma. Quem passa, pode sentir toda uma envolvência, onde o aroma das flores mais belas se entrelaça com os versos mais sentidos de alguns poetas fafenses.
O espaço urbano veste-se de todo um casario, onde a imponência das casas dos Brasileiros ombreia com estilos arquitectónicos diversos, gravando na pedra e no cimento toda a história de um povo.
Qualquer visitante que percorra as ruas de Fafe, ou fale com as suas gentes, compreende que se encontra num espaço aprazível e acolhedor, enfeitado de praças, arreigados costumes e um amor à cultura, que brota da calma das tílias.

À sua volta, os rios Ferro e Vizela espraiam-se livremente, avivando o verde dos pauis e espargindo uma leve frescura pelos espaços, que dá de beber às aves e pinta toda esta paisagem de um bucolismo romântico e ameno. (…)

Desde os primeiros tempos da sua existência que Fafe se orgulha de ser uma terra de poetas e de prosadores. Do seu seio têm brotado homens e mulheres que se servem das palavras para exprimirem uma multiplicidade de sentimentos, crenças e sonhos. Ruy Monte, Soledade Summavielle, Artur Coimbra, Pompeu Martins, Augusto Lemos, Salgado Leite, Nuno Bastos, José Peixoto Lopes, Valdemar Gonçalves, João Ricardo Lopes, Tiago Magalhães, Acácio Almeida, José Augusto Gonçalves, entre muitos outros, fazem parte dum dourado corpo literário que adorna as estantes da cultura fafense. (…)
Sempre possuidores de uma visão atenta, umas mãos destemidas e um coração tremente, os vários autores fafenses, e como se pode comprovar nos vários textos analisados, gravam, nas suas criações, temáticas variadas, tingidas por sentimentos, anseios, dúvidas, certezas, gritos, paisagens, amores, desamores, liberdade, recusas, risos e (…)
Se prestarmos atenção à linguagem e ao estilo dos poetas e prosadores estudados, comprova-se que a simplicidade e ingenuidade descritiva e narrativa de uns complementam um maior cuidado e labor de outros. Se o concreto natural dos nomes, associado ao objectivismo da adjectivação nos atira para as frondosas paisagens minhotas, a perspicácia da metáfora e a leviandade da aliteração, associada à insistência da anáfora, mostra-nos o sentir das almas, e o que está para além do sol. (…)»
Carlos Afonso

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um amor, uma vida!

Sempre que me lançares um sorriso, eu prometo-te a minha alma. Sempre que me ofereceres os teus afectos, eu asseguro-te o
meu coração. Sempre que me deres o teu corpo, eu desvendo-te os
meus segredos.

O verdadeiro amor não se planeia ou elabora, guiado pelo pendor da consciência, longe da pureza dos momentos. O verdadeiro amor desabrocha de uma forma natural, bem dentro do coração, impelido por um gesto, um olhar, um sorriso sincero ou um simples instante de sorte. Mas, e tal qual as flores dos prados aceitam receber na sua intimidade a incauta abelha, para que esta dê azo ao seu destino, o homem deve deixar-se possuir pela real dimensão do amor e esperar que as nascentes não percam a sua dimensão cristalina e a aragem continue a guiar o rumo das aves.
Alberto nunca pensou que aquela praça granítica, cravada numas das zonas mais emblemáticas de Braga, espaço onde muitas histórias tiveram o seu ocaso, fosse o começar de uma vida plena de confidências, partilhas e futuros sempre a cimentar. De certeza que os caminhos que o trouxeram até ali sabiam o que ia acontecer. Se assim não fosse, a noite não estaria tão amena e as estrelas só viriam mais tarde.
Provavelmente, aquele olhar trémulo que Maria deixou escapar, naquele mês de Maio que o tempo gravou na correnteza dos tempos, não era destinado a Alberto. Mas isso não teve qualquer importância, pois os anjos desceram à terra e desviaram a sua trajectória.
Tiveste sorte, meu rapaz!
O poeta diz, e com razão, que o coração nem sempre obedece aos desígnios da razão. Ainda bem que assim é, pois, caso contrário, as flores só mostrariam o seu encanto na Primavera e os dias cairiam num enfado sem novidade.
Para quem pensava regressar às terras donde nasceu, lá para os lados do Marão, no reino encantado de Trás-os-Montes, depois de concluir o seu curso na Faculdade de Filosofia, aquele encontro ocasional de Alberto e Maria inverteu o curso de um sonho de anos. A ideia de voltar como professor aos espaços da sua infância criavam em Alberto uma alegria compreensível, aguçada aqui e ali pelo capricho de poder passar por eles numa outra condição, arrancada a ferros de uma existência de vários anos, na companhia de muitos livros e noites mal dormidas. Mas, e tal qual a ave da ribeira descasca as bagas do zimbro, ajudada pela ingenuidade de um movimento, o olhar não intencional daquela esbelta rapariga apagou uma vontade que parecia inquebrável, e acendeu uma estrela que, e depois de muitos anos, ainda dura e, de certeza, continuará a brilhar, até que os deuses a cubram com o seu manto.
Para bem dos caminhos encurvados que levam os que procuram, e aprazimento daqueles instantes que decoram os anseios dos homens, é bom saber que ainda há corações crentes em olhares sem mágoa e pudores inocentes pregados a rostos com nome, impelidos por lágrimas que nem sempre se mostram. É em torno destas circunstâncias estendidas sobre paisagens de muitas formas, e de janelas expostas à luz, que o amor aparece e, num tom de excelência, deixa bem claro que não deseja esfumar-se em restos de nada.
Só é de lamentar, e se calhar a culpa é do vento, constantemente embrulhado na indefinição da direcção da sua força, que muitos compromissos se quebrem, justificados por vozes e atitudes que, geralmente, deixam muito a desejar.
Não, não me acusem de ser um desenraizado dos tempos, e muito menos de um prosador sem plano, ou até de um ser qualquer que se emociona quando saboreia os sonetos de Camões.
Não, não me mandem escrever rimas soltas na poeira do chão, sempre que está para chover.
As minhas certezas e o meu acérrimo acreditar na força viva do amor têm todos os ingredientes necessários para contaram com a bênção do perfume das rosas amarelas, ainda antes de serem cortadas por mãos sem jeito. E sabem porquê?
Porque eu conheço, e muito bem, as linhas com que se entrelaça o amor do Alberto e da Maria.
Em véspera do dia dos namorados, não questionem o atrevimento de vos deixar nas linhas desta história alguns versos que roubei a um breve momento de inspiração:
Sonhos de água…

Se me pedires a clareza de um olhar,
O meu peito abrir-se-á de par em par e…
Neste rosto, que me define, nascerão mil vontades.
Ousadias cobertas de cor
Ocultarão a palidez da indiferença e muitas
Fantasias fluirão do nosso querer, indiferentes a preconceitos sem jeito!

Depois de certezas férteis semeadas nas nossas almas,
Erguer-se-á, leve, a ternura das fontes e o céu esperará por nós!

Água salubre, escorrida de nuvens feitas de carícias,
Gotejará do roçar consentido dos nossos corpos,
Unidos por linhas que o tempo tecerá,
Antes das madrugadas começarem a acordar!

Carlos Afonso

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Obrigado

É bom saber que os outros acreditam no nosso trabalho e respeitam a nossa forma de estar na vida. Obrigado "Jornal Povo de Fafe" pelo seu reconhecimento e consideração.
O que seria da correnteza dos rios sem o empenho cristalino das nascentes?
Carlos Afonso

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

FAFE

Estendida aos pés dos cinzentos graníticos dos montes,
E coberta por uma imensidade de verdes que a decoram
E lhe emprestam a sua sina,
Fafe emerge da frescura amena que a afaga,
E mostra, aos silêncios que lhe estendem o seu manto,
A verdade de uma terra que não morre,
E as certezas de que o céu é a mansão dos seus heróis.

Abrigada dos ventos que não param,
E voltada para um futuro que se lhe oferece,
Fafe recebe da pureza das velhas carvalhas,
Onde esbarram as escorregadias friezas invernais,
A vida de um povo marcado pela seiva gloriosa dos sonhos
E pelas conquistas gravadas nas paredes da sua história.

Apelidada da sala de visitas do Minho
E atenta ao andar das águas que os rios levam para o mar,
Este amor de cidade aceita, na sinceridade das suas ruas
E na simpatia dos seus usos,
O passo das muitas gentes que queiram sentir o pulsar das nascentes virginais,
E a franqueza jovial do esvoaçar das aves, por entre pauis e pinheirais.

Agarrada à franqueza que lhe corre na alma sedenta,
E imersa na riqueza que alinda a sua memória,
Fafe esparge o perfume poético dos jardins,
E convida o coração dos caminhantes a saborear e a sentir
Os encantos de uma terra, onde a lenda da sua justiça e a doçura das suas cavacas
Acalentam a sua perene existência.
Carlos Afonso

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ó Rio da Minha Memória

Nasceste nos Montes de León
E seguiste o sonho de ser um rio,
Igual a esses heróis sem medo,
Desenhados pelas garras afiadas dum destino,
Que no Verão te empresta as sedes das ribeiras,
E no Inverno as enxurradas e o frio.

Ó rio da minha memória,
Como as minhas mãos tremem,
Quando o rosmaninho florido das ladeiras
Lhes conta que te querem roubar as margens,
E esconder-te em estranhos recantos
Que não fazem parte da tua história!

Eu sei que eles são mais fortes do que o vento desvairado
E que os seus interesses não cabem
Debaixo desse fraguedo com importância,
Que sempre te olhou amplo de inveja.
Mas… não chores!
Mostra-lhes que os rios não morrem
E que és o dono da minha alada infância!

Para mim, serás sempre o rio da minha aldeia,
O passado que não quero olvidar,
O caminho que conduz o tropeçar gasto dos meus passos,
E a vida que continua a florescer à tona molhada do teu eterno desaguar.

Meu Sabor, digam o que disserem e façam o que fizerem,
Serás, sempre: livre e leve como as aves a quem deste de beber;
Agreste e doce como os montes que embalaste;
Esbelto e luzidio como os peixes que em ti cresceram,
Verdadeiro e franco como os luares que no teu leito se deitaram
E em ti, num martírio meigo, se afogaram,
Quando as noites mais escuras não os quiseram Acordar.


Carlos Afonso

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um final Feliz

«São os primeiros passos que definem os destinos das jornadas»

Um final Feliz
Era uma vez um povo que perdera o real sentido da esperança e já não sabia o verdadeiro significado das cores do arco-íris.
Já cansado de tantos desânimos e saudoso de uma bela madrugada de Primavera, pois já há muito que as flores haviam deixado de enfeitar os poucos jardins que ainda resistiam, o rei deste país, um homem mau e autoritário, que só conhecia o sabor do ódio e da guerra e que nunca tinha vertido uma única lágrima, decidiu dar um fim a toda esta situação. Parece que, finalmente, entendera que a culpa de toda esta situação era exclusivamente sua. Então, mandou chamar todos os adivinhos, bruxas e ciganas das redondezas para que lhe indicassem um rumo que pudesse libertar o seu reino e a si destes desígnios tão assombrosos. Caso isso não acontecesse, e ele deixara-o bem claro, cortar-lhes-ia a cabeça. Tudo foi em vão, pois o medo de todos os que foram convocados deitou tudo a perder.
Os dias foram passando, os meses começavam a perder o sentido e as noites eram cada vez mais negras.
Já farto do seu cargo real e da sua má sorte, o rei desfez-se da coroa e da sua majestosa capa, vestiu-se de camponês e disse aos seus conselheiros que, durante algum tempo, iria caminhar pelos seus bosques e vales, montanhas e rios em busca de uma derradeira solução para o seu mal fadado reino. Admirados com tão estranha decisão, toda a corte o tentou demover, mas a determinação do monarca ignorou todos os rogos.
Depois de caminhar horas e horas a fio sem nada encontrar, começou a sentir fome, mas não viu nada para comer. As árvores não tinham frutos, os campos estavam ressequidos, os rios perderam os seus peixes e as aves do céu já há muito que haviam esvoaçado para outras paragens. Sem saber o que fazer, sentou-se numa pedra, pegou num ramo seco e começou a escrevinhar no chão acastanhado. Como que inspirado não se sabe pelo quê, reparou que escrevera uma frase que não entendeu: A felicidade do homem mora na sinceridade do seu coração.
A dada altura, e ainda intrigado com o que acabara de escrever no chão, começou a ouvir ao longe a melodia afinada duma flauta. Admirado com tão inesperada circunstância, decidiu descobrir o misterioso tocador.
Chegado a uma cabana, bem escondida pelo matagal, encontrou um menino sentado num banco de madeira, rodeado de alguns animais selvagens, a tocar numa velha flauta de pastor.
Com uma voz forte e imperial mandou parar o jovem e perguntou-lhe o nome e o porquê de estar a tocar. Sem lhe mostrar medo, o menino disse-lhe que estava a entoar um hino aos deuses para que estes fizessem do seu rei um homem bom, amigo dos seus súbditos e que lhe devolvesse o seu pai que mantinha preso nas masmorras do castelo.
Sem saber o que replicar, o rei, disfarçado de camponês, sentiu um forte aperto no peito e caiu de joelhos na folhagem seca que alcatifava a cabana. Preocupado, o menino ajudou-o a sentar-se a seu lado e ofereceu-lhe a última maçã que tinha. Depois, num gesto simples e sem pudor, deu-lhe a flauta para as mãos e pediu ao rei que tocasse. Apesar de este repetir várias vezes que não sabia tocar, o menino insistiu, até que o rei colou o instrumento aos lábios e tocou uma melodia tão bela e harmoniosa que todos os campos e rios, céus e povoados do seu reino ganharam uma nova vida e os prados se encheram de belas flores. Como que por magia algumas lágrimas começaram a discorrer dos olhos do rei, olhos que nunca haviam chorado. E foi só neste momento tão especial que ele compreendeu que a solução para o mal que o oprimia a si é a todo o seu país sempre esteve bem ao seu alcance, mas que nunca o encontrara. E tudo por causa da dureza dos seus sentimentos. Afinal só era necessário escutar a sinceridade do coração.
Carlos Afonso

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Uma noite especial

Eu sei que os dias nem sempre correm de feição e as noites nem sempre conseguem mostrar a luz meiga do luar. Mas, às vezes, o céu empresta-nos a sua sina e deixa que as nossas vivências se tornem das cores perfumadas que definem a Primavera. E ainda bem que assim é, pois seria de muito má sorte vivermos, permanentemente, envoltos numa névoa invernal, à espera que os momentos desembocassem no vazio.
Para quem teve o privilégio de assistir ao espectáculo que o núcleo de patinagem artística do Grupo Nuno Álvares nos ofertou num sábado diferente de todos os outros, dia 18 de Janeiro, pode provar um pouco desse céu caridoso de que falei. E querem saber porquê? Se não se importam, ofereçam-me a vossa atenção e embarquem numa viagem com volta, a bordo de uma nau, com mais de quinhentos anos.
O Pavilhão Multiusos estava repleto, a música engalanava as atenções e as bandeiras convidavam-nas para a festa. Do ringue, espaço onde as patinadoras, e consoante a seu esquema e ordem de participação, esvoaçavam ao sabor da mestria, do esforço e de um desejo maior, levadas pela maresia e por um oceano que já foi nosso!
Que magia e toques de perfeição se soltavam dos seus gestos, posturas e atrevimentos!
O tema de todo o espectáculo assentava nos descobrimentos portugueses, facto que foi comprovado por um apresentador que se vestiu a rigor com uma roupagem igualzinha à do mítico infante Dom Henrique. Se o nosso navegador foi o pilar iniciático das nossas descobertas, este quase actor do grupo Nuno Álvares, orientou, na perfeição, tão simbólico e original espectáculo.
Como já devem ter reparado nos vários textos que tenho escrito, eu acredito piamente nos indícios dos olhares, assim como tenho a certeza de que os momentos não acontecem por acaso e de que os caminhos nem sempre começam nas partidas. Por isso, não admira que umas simples palavras proferidas por um senhor de meia-idade, que se encontrava sentado na fila atrás de mim, nesse emblemático espectáculo de patinagem, me tenham conduzido, poucas horas mais tarde, para um outro espaço, um outro tempo, na companhia de um passado ainda bem vivo na mente dos que acreditam
- Que maravilha! Estas patinadoras agem tão ligeiras nos seus patins, que até parecem impulsionadas pelos mesmos ventos que guiaram as embarcações dos nossos navegadores.
Reconheço que gostei do comentário, assim como da convicção com que foi pronunciado.
Às vezes é a forma com que dizemos as palavras que nos permite ver os destinos mais cobiçados.
Acabado o espectáculo, e já havíamos entrado na primeira hora da madrugada de Domingo, regressei satisfeito a casa. A dada altura, e quando já me embrenhava com um sono que custou a chegar, as palavras do tal senhor, o tal que estava sentado na fila atrás de mim, vieram-me à memória e, meus amigos, embarquei numa quase real aventura, de que vos vou contar só uma ínfima parte. O restante, talvez vo-lo narre numa ocasião mais propícia.
Uma leve neblina cobria toda a embarcação, facto que não impedia que todos aqueles que olhavam a distância perscrutassem algum indício de ilha ou continente que nos permitisse atracar. Esta busca parecia eternizar-se e algum desânimo começava a desenhar-se na alma, mas a dada altura, e porque Deus também o quis, o esvoaçar insistente de duas gaivotas e o grito rouco do gajeiro materializaram o desejo de toda uma tripulação, ansiosa por encontrar terra, depois de mais de um mês de viagem.
Pouco a pouco, o longe começou a definir-se aos nossos olhos e a costa que se mostrava na distância deixou que o espírito da descoberta se cravasse nas suas entranhas e começasse a vislumbrar montanhas, árvores, sons, uma extensa praia e...
Claro que durante toda a santa noite descobri um mundo novo, perfumes desconhecidos, águas translúcidas, gentes de cor negra, sabores que me criaram uma leve indigestão e costumes que me espantaram. Foi pena que no momento em que estávamos a receber das mãos das filhas do rei daquelas paragens colares de flores, um despertador, comprado já em pleno século XXI, me tenha devolvido ao meu tempo e a uma manhã nublada de Domingo.
Apenas um desabafo em forma de pergunta. O que seria do rigor acertado das horas e do real objectivo dos dias sem os devaneios desconcertados dos sonhos? Provavelmente tudo seria mais frio e as rosas jamais se mostrariam nas manhãs límpidas de Maio.
Carlos Afonso